Crítica

Mísia e Mayra, duas vozes triunfantes no Misty Fest

O Misty Fest onde há uma semana brilhou Mayra Andrade terminou este sábado em alta com Mísia e a sua cintilante “prenda” para Amália. Duas vozes a reter, num mini-festival que continua a fazer boas apostas, ano após ano.

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Mísia e Mayra Andrade C.B. ARAGÃO / DR

Vivem em Lisboa mas já viveram em Paris, e é impossível agora não pensar na capital francesa. Mayra trocou-a recentemente por Lisboa, em nome da sua criatividade, e Mísia já o fez há mais tempo, mantendo ambas ainda, nas suas vidas e na sua música, ligações com a cidade agora martirizada. Mísia foi a última voz a ouvir-se no Misty Fest este ano (e, por cantar um dia após os atentados, dedicou a Paris L’Automne de notre amour) e Mayra uma das primeiras. Assinaram, cada qual a seu modo, concertos distintos e de assinalável bom gosto, Mísia no São Jorge, Mayra no CCB. Aqui fica o registo dessas noites, que para muitos terão sido memoráveis.

Para Amália, uma prenda íntima
Sala principal do São Jorge, noite de 14 de Novembro, espectáculo marcado para as 22h. No fundo do palco, projectado, o desenho de uma jóia cara a Amália, e dentro dela, sucedendo-se, as palavras AMÁLIA, SAUDADE, FADO, VIDA, uma flor, uma guitarra. Sinais de uma presença só fisicamente ausente. O piano de Fabrizio Romano, maestro napolitano, foi a voz primeira, antes que Mísia se lhe juntasse, de vestido rubro, a cantar Vagamundo, palavras de Luís de Macedo em música de Alain Oulman, que na voz de Amália soavam num arrepio. Mísia fez-lhe justiça, em particular na sublime passagem “são nuvens negras em céu azul”. Depois veio O amor sem rosto, ainda acompanhada apenas ao piano, como no duplo disco Para Amália (o CD1 apenas voz e piano, o CD2 só com guitarra portuguesa, viola e baixo acústico) e confirmando a justeza dessa opção, sendo a metade do concerto (a dos poetas) mais profunda e triste, como que um recital, e a segunda, pela presença das cordas, mais próxima das noites do fado (em contraste, na primeira parte Mísia surgiu vestida de vermelho e na segunda, a mais alegre, de negro).

Espelho quebrado, de novo Oulman, com um piano sabiamente gerido entre a força e o lirismo, antecedeu Solidão, versão (superior) de David Mourão-Ferreira para a Canção do Mar, do filme Les Amants du Tage. Mísia deu-lhe a necessária ênfase, com um final excelente. E aproveitou para falar de Amália, dizendo (como já havia dito, em entrevistas) que ela “é sempre nova, sempre insuperável e maravilhosa”. Ou seja: é Amália a “nova Amália” que muitos procuram. O que Mísia tenta, aqui, é dar a Amália, mais de que uma homenagem, uma “prenda íntima”.

Romance, de Afonso Lopes Vieira, foi exemplar na voz e nas teclas, e Rasga o passado, feito fado-tango, teve um final fabuloso que diz muito da arte de transfiguração cultivada por Mísia. É verdade, ela tropeçou no texto mas assumiu logo o erro: rasgou o engano e seguiu em frente. Prece, ainda Oulman (agora com poema de Pedro Homem de Mello), foi a deixa para a entrada dos restantes músicos, ficando Sandro Costa (guitarra portuguesa), André Ramos (viola) e Didi (baixo acústico) do lado direito do palco, com Fabrizio e o piano do lado esquerdo. Tive um coração, perdi-o, palavras da própria Amália com música de Fontes Rocha, começou-o Mísia a capella (como o fez no disco), juntando-se-lhe o piano e só depois as cordas. O único momento em que teclas e cordas se juntaram, ficando depois apenas as segundas (numa rapsódia que percorreu vários fados de Amália) e saindo do palco o pianista. No cenário, a jóia estilizada do início daria depois lugar à projecção de um pormenor de uma colcha colorida (“Um mantón de Manila que a minha avó usava para fazer um número de burlesque”, explicou mais tarde Mísia).

Fado Amália, que fecha o disco 2, aqui abriu a segunda parte. Com as necessárias alterações: “Amália, quis Deus que fosse o teu nome” ou "Amália? Eu sei [em vez de não sei] quem é!” E sabendo todos nós quem era, vieram os originais: Madrinha de nossas horas, de Mário Cláudio (Mísia intercalou, aqui, Flor de Lua, da própria Amália, e À janela do meu peito, de Alberto Janes), Uma lágrima por engano, da própria Mísia (um jogo com nomes de fados amalianos) com música de Fabrizio Romano, Amália que não existo, de Tiago Torres da Silva e, por fim, a fechar o concerto, Amália sempre e agora, de Amélia Muge, com música de Mário Pacheco. Originais superlativos, a que Mísia se entregou com alma. Antes, porém, cantou ainda Maria la portuguesa (que Carlos Cano, mestre de coplas, escreveu para Amália), tocando castanholas como a sua mãe, bailarina clássica (dançava Albéniz, De Falla…), um dia lhe ensinou; e arriscou a “F word”, cantando… Folclore. O delicioso Rosinha da Serra d’Arga, onde se saiu muito bem.

No encore, perante uma sala confortavelmente composta mas que merecia maior enchente, Mísia falou então de Paris e de como conhecia muito bem a zona dos atentados (cantou no Bataclan). À memória das vítimas e à cidade (“Para Paris, que eu amo”), dedicou então L’Automne de notre amour (“Un oiseau triste/ qui resiste/ aux outrages du passé”), versão que David Mourão-Ferreira fez de Nostalgia, de Joaquim Luís Gomes e Jerónimo Bragança. Depois, uma lágrima. A de Amália, Lágrima que ela já tanto cantou e que no palco do São Jorge pareceu insuperável. Talvez pela emoção do momento, talvez por Paris. Talvez pela vida e pelos seus fados. Magnífico! Por fim, de volta à cidade física onde todos estávamos, uma Lisboa Antiga cantada com megafone (na verdade, é um pregão), com Mísia a circular pela sala e a regressar ao palco, triunfante. Uma noite onde Amália ecoou na voz de uma excelente cantora, que tão nobremente sabe tratar o fado.

Mayra, cabo-verdianidade e universalismo
No palco do Grande Auditório do CCB, em Lisboa, na noite de 5 de Novembro, Mayra Andrade cumpriu na perfeição o seu regresso aos palcos nacionais e também a Lisboa, onde agora vive. A sala, de lotação praticamente esgotada, reagiu com entusiasmo aos desafios da cantora, com prolongados coros ou palmas sincopadas (como em Rosa ou Terra lonji). Mas o que é de realçar é que Mayra Andrade e os seus músicos apresentaram um espectáculo de grande profissionalismo e empenho emocional, sem distracções espúrias, centrado na essência da voz (que nela está cada vez mais amadurecida) e da música. A banda, renovada, mostrou uma notável coesão e versatilidade, agindo como um só corpo face às exigências da sonoridade global: Rémi Sanna (bateria), Nicolas Liesnard (teclas), Nenad Gajin (guitarra), Franck Orosemane (baixo). Isso foi visível logo desde o início, com Ami’ n kreu txeu, seguido de Ilha de Santiago, onde os vocalizos de Mayra e a forma como ela prolonga os finais de frases a situam algures entre a pop e o jazz, mas sempre com um pé na alma-terra cabo-verdiana. Isso, que em termos vocais estava já presente em Studio 105 (gravado em França, em 2010), atingiu um outro patamar em Lovely Difficult. Traçando um paralelo com o também notável percurso de Lura, sua conterrânea na ascendência cabo-verdiana (embora Mayra tenha nascido em Cuba e Lura em Lisboa), enquanto naquela se vem acentuando uma cabo-verdianidade fundada nos ritmos e tradições locais, em Mayra essa cabo-verdianidade mundializa-se numa sonoridade que a renova e transcende. O que em Lura é pulsão electrizante é em Mayra refinamento e elegância, tocando ambas a alma dos que assistem aos seus espectáculos. Duas faces de Cabo Verde, das melhores que temos hoje.

No CCB, Mayra fez desfilar sobretudo os temas de Lovely Difficult, embora trazendo à ribalta outros que sobressaem do seu repertório. Foi assim que se ouviram canções que reflectem a sua vivência em Paris, como Simplement ou Les mots d’amour, a par de outras em crioulo como Tunuka ou Tempu ki bai, esta última num apreciável dueto com Sara Tavares, sua convidada especial nessa noite, Sara que ficou ainda em palco para cantar, em dueto com Mayra, uma canção sua, Minha estrela mãe, com assinatura de Ivan Lins e Paulo de Carvalho. A audiência aplaudiu calorosamente, mantendo-se o ambiente de festa com We used to call it love e Dimokránsa, ambos irrepreensíveis. Com o segundo convidado especial, Pedro Moutinho, ouvimos (a dois) Alfama, numa interpretação mais solta e consistente do que a gravada, também pelos dois, no disco de Pedro Lisboa Mora Aqui (2010), com um óptimo e brilhante final.

Depois, Rosa e Terra Lonji consumaram uma perfeita comunhão com a plateia, ouvindo-se entre as duas Built it up e Comme s’il en pleuvait, Mayra em inglês e francês, cabo-verdiana universal. O encore, por entre muitos pedidos da plateia, trouxe duas canções de recorte bem diferente: Meu farol, que Mayra escreveu para a sua mãe, “senhora soberana”, e Lua, mil vezes ouvida, pedida e aplaudida, canção que é já um ex-libris da sua arte. Cantando e encantando de forma sublime, movendo o corpo com a elegância africana filtrada pelas luzes das grandes cidades, tocando ferro ou simplesmente dirigindo-se à plateia com escassas e delicadas palavras, Mayra teve nesta sua apresentação em Lisboa (houve outras, no Coliseu do Porto, e no CAE da Figueira da Foz) um digníssimo e fulgurante regresso aos palcos portugueses. Como não lhe dar nota máxima?