Afinal, nada indica que os golfinhos estejam a voltar ao Tejo

Uma equipa de investigadores mergulhou na história e encontrou relatos de avistamentos de cetáceos no estuário desde o tempo dos romanos. A presença destes animais no rio é "regular mas esporádica", concluem

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Raquel Esperança

Nos últimos anos, avistar golfinhos no estuário do Tejo tornou-se motivo de festa. Instalou-se a ideia de que a melhoria da qualidade da água, em resultado das intervenções no saneamento da área metropolitana de Lisboa, estaria a trazer os cetáceos de volta à casa onde já teriam vivido. Mas, afinal, os investigadores não encontraram indícios de que eles estejam no rio para ficar nem descobriram provas da existência, no passado, de uma comunidade residente no estuário.

É verdade que o número de observações tem aumentado, ou pelo menos tem crescido a atenção mediática dada a estes episódios. No Verão de 2008, por exemplo, foram avistados vários animais, na Margem Sul e na zona ribeirinha da capital. Em Julho de 2011, foi a própria Câmara de Lisboa a anunciar o avistamento de cerca de 20 golfinhos-comuns perto da Trafaria (Almada), e nos anos seguintes a história foi-se repetindo.

De cada vez que começam a circular fotografias dos cetáceos, o telemóvel da bióloga Cristina Brito toca. A pergunta é sempre a mesma: os golfinhos estão a voltar ao Tejo e, se sim, porquê? Até agora não havia qualquer estudo científico que fundamentasse uma teoria sobre o assunto. No início de 2014, os investigadores da empresa Escola de Mar e da Associação para as Ciências do Mar, à qual Cristina Brito preside, decidiram mergulhar na história, compilando os registos de observações ao longo dos anos para perceber se há um padrão que possa dar resposta àquela pergunta.

Os resultados constam do relatório, ainda provisório, do projecto “Golfinhos do Tejo: realidade, imaginário ou mito”, ao qual o PÚBLICO teve acesso. A equipa formada por cinco investigadores, das áreas de Biologia e História, passou longos meses na Torre do Tombo, Biblioteca Nacional, Hemeroteca e arquivos municipais de Lisboa, Almada, Oeiras e Cascais, a ler artigos de jornais e crónicas publicados desde o século XVIII, artigos de naturalistas e obras literárias. 

Da análise histórica, os autores concluíram que desde o império romano até à actualidade "existem numerosas descrições de estranhos seres marinhos" no Tejo, como "sereias, nereidas e homens marinhos", que "resultam certamente da observação esporádica ou rara de mamíferos marinhos vivos ou arrojados".

Por exemplo, Plínio, escritor e naturalista romano, escreveu em 77-79 que "uma embaixada remetida de Lisba a Tibério [o imperador]" informou que "em determinada gruta fora avistado e ouvido um tritão a tocar o seu búzio". Em Elogio da Cidade de Lisboa (1554), Damião de Góis reproduz relatos de antepassados, segundo os quais os "tritões saltavam para a costa e, uma vez por outra, tinham por costume vir até à praia". Também não faltam descrições de arrojamentos de golfinhos e lendas sobre a presença de grandes baleias no estuário do Tejo: o Livro dos Milagres, de 1550, inclui uma ilustração que representa uma baleia avistada no rio junto a Lisboa antes do terramoto de 1531, tendo sido considerada um mau agoiro.

"No final do século XIX, são vários os naturalistas portugueses que descreveram a ocorrência de golfinhos no estuário do Tejo e águas costeiras adjacentes", prosseguem os autores do estudo. No entanto, "não foram encontradas evidências de uma população de golfinhos residente no Tejo nos últimos 100 anos", afirmam, acrescentando que os cetáceos entram no estuário para se alimentar em determinadas alturas do ano em que há mais comida disponível, mas não se fixam como acontece com a população de golfinhos do estuário do Sado (a única residente no país).

Nos séculos XX e XXI há registo de 373 avistamentos de cetáceos no rio, em particular na boca do estuário, entre o Cabo da Roca e a Fonte da Telha. Os casos mais recentes são de golfinhos-roazes (Tursiops truncatus), da sub-espécie residente no estuário do Sado, e de golfinhos-comuns (Delphinus delphis), mais frequentes nas zonas costeiras. Ocasionalmente surgem registos de cachalotes e baleias comuns, que arrojam (encalham) junto à costa.

A presença "regular mas episódica" destes animais no rio é inquestionável, porém "o possível aumento de observações recentes de golfinhos no Tejo pode resultar de uma maior percepção das pessoas para a conservação marinha", concluem os autores do relatório.

O projecto “Golfinhos do Tejo: realidade, imaginário ou mito” teve o apoio financeiro das câmaras de Cascais e Almada, e ainda o apoio do Centro de Oceanografia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa. Da lista de objectivos constava também a análise da qualidade do ecossistema do estuário, relacionando essa evolução com as observações de golfinhos, mas não houve verbas para concretizar este objectivo - Cristina Brito admite que tal possa acontecer numa segunda fase, caso consigam novo financiamento. 

A relação entre a qualidade da água e a presença dos golfinhos não é óbvia, uma vez que estes não são uma espécie indicadora da qualidade da água - toleram facilmente locais poluídos, acumulando a poluição na gordura corporal. Mas é certo que um ecossistema mais saudável tem mais comida disponível e atrai os predadores.