Eustáquio e Barretto, uma conversa de cordas entre guitolão e contrabaixo

António Eustáquio e Carlos Barretto apresentam este sábado na Culturgest, em Lisboa, e dia 27 no Theatro Circo de Braga, o seu aplaudido duo de guitolão e contrabaixo.

Foto
António Eustáquio (guitolão) e Carlos Barretto (contrabaixo) em concerto DR

António Eustáquio, há anos a tocar guitarra portuguesa e guitolão (um instrumento dela derivado, único no mundo) e Carlos Barretto, um dos nomes maiores do jazz em Portugal, juntaram-se num trabalho conjunto que já deu origem a um disco, lançado em Maio deste ano. Agora, apresentam-no em Lisboa e em Braga, em concertos onde revisitarão temas desse disco e outros da sua já vasta carreira musical. O primeiro encontro entre ambos já data de há três décadas. Foi em Lisboa, nos meios do jazz, como conta António Eustáquio.

“De vez em quando eu ia ao Hot Clube. Um dia, estava no balcão, e começo a ouvir um contrabaixo a tocar superiormente. Ao meu lado estava o Rui Neves, crítico de jazz, perguntei-lhe quem era e ele disse: ‘É o melhor músico de jazz português!’ No final do concerto fui cumprimentá-lo e conhecê-lo. Isto já lá vão uns trinta e tal anos. Começámos então a fazer alguns trabalhos juntos, pontualmente.” Até que essa colaboração ganhou laços mais efectivos. “Quando eu fiz a apresentação do guitolão, o Carlos estava em Nisa, perto de Castelo de Vide, onde eu resido, e aí começámos a pensar num trabalho em conjunto: porque não cruzar as sonoridades do guitolão e do contrabaixo? Experimentámos e ficou realmente muito interessante, em relação ao timbre dos dois instrumentos.”

A primeira abordagem foi de improviso. “Mas já estávamos à procura de temáticas, de temas”, lembra Carlos Barretto. “O António ia trazendo alguns, eu propunha uma ou outra coisa, e fomos criando repertório. Foi em Nisa que constituímos o repertório principal.”

Guitarra e viola num só
A história do guitolão já foi contada, mas António Eustáquio relembra-a: “Por volta de 1970, o Carlos Paredes [que tocava guitarra portuguesa] pediu ao Gilberto Grácio que lhe fizesse um instrumento com um braço mais longo. Dá-me ideia, pelo que sei da conversa, que como a esposa dele nessa época era a Cecília de Melo, cantora lírica, percebi que ele queria experimentar tocar peças nesse instrumento, sem ser necessário estar a pedir a um viola. Naquela altura, a caixa era a de uma guitarra de Coimbra, com um braço mais longo, um som mais grave e uma afinação própria. E ele ainda gravou com esse instrumento. Chamou-lhe, salvo erro, guitarra portuguesa barítono, por ter um som mais grave. Gravou com a Cecília de Melo e com o Manuel Alegre, poesia. Entretanto dá-se o 25 de Abril, ele teve uma grande produção com a guitarra portuguesa e deixou aquilo um bocado de lado.”

Mas Gilberto Grácio, mestre guitarreiro, ficou sempre com a ideia de fazer, a partir dali, um instrumento novo, a que acabou por dar o nome, guitolão, provavelmente um misto de guitarra e violão. “E então nasce, com madeiras que ele tinha lá guardadas há trinta anos, o guitolão. Que já não é propriamente uma guitarra portuguesa barítono mas um instrumento com personalidade própria. Tem a caixa mais larga, e eu recuperei a afinação da guitarra por Lisboa mas numa quinta inferior.” Carlos Barretto: “Creio que a intenção terá sido fazer um pouco o papel dos dois, guitarra e viola, num só instrumento.”

António Eustáquio ainda conheceu o outro instrumento, em casa de Carlos Paredes, em Benfica. “Foi aí que mestre Gilberto Grácio ouviu, achou interessante e se entusiasmou. Depois retomámos os contactos depois da morte de Carlos Paredes. Eu fui tocar ao funeral, com um grupo de cordas, falei com ele e a ideia de retomar o instrumento surgiu. E teve um resultado interessante, porque tem muitos harmónicos. Quando se toca pela primeira vez, parece difícil controlar aquela sonoridade. Precisa de muito trabalho.”

Mais profundidade à música
Para o disco António Eustáquio (Guitolão) e Carlos Barretto (Contrabaixo), gravado entre 25 e 28 de Novembro de 2014 na Aldeia da Cerdeira, Lousã (em terras do Xisto), eles criaram temas e adaptaram outros. Carlos Barretto: “Houve alguns que foram aproveitados de trabalhos que ele tinha feito antes com guitarra portuguesa, que resultam muito bem no guitolão, e outros compô-los ele depois. O meu trabalho tem sido mais no improviso.” António Eustáquio completa o raciocínio: “A ideia original é uma e depois o que sai dali é já o fruto do nosso trabalho conjunto.”

A crítica, que reagiu muito bem ao disco (lançado oficialmente em 25 de Maio de 2015), encontrou nele traços de vários géneros musicais: fado, música étnica, tradicional, jazz, rock. Carlos Barretto tem uma definição mais simples: “Eu vejo isto como música portuguesa. O instrumento vem da guitarra portuguesa e a sonoridade e os trinados que se fazem não podem muito sair daí, dessa sonoridade muito própria. Mas tem algumas influências mediterrânicas, árabes também.” António Eustáquio adiciona outra explicação. “Esse som deve-se a dois aspectos, na minha opinião. Um deles é o nosso percurso, já de há muitos anos. Trabalhámos vários géneros musicais. Outro aspecto é que o guitolão não se pode definir como uma só sonoridade. Ele tem várias frequências, há alturas em que se assemelha a um Saz turco, outras à guitarra hispânica.”

O contrabaixo, por seu turno, serve-lhe de contraponto. “Dá mais profundidade à música”, diz Carlos. “Os instrumentos casam bem.” “E funciona também como instrumento solista”, acrescenta António. “Não é propriamente um acompanhante.” São duas “vozes” em palco.

Som original e limpo
O disco já foi apresentado no estrangeiro. “Num Festival de Música Mediterrânica, na Córsega, uns músicos que estavam a tocar Oud árabe pediram-me, no final do festival, já no hotel, para eu tocar o guitolão, eles queriam ouvi-lo porque estavam interessadíssimos no timbre”, recorda António. “O facto de ser um instrumento mesmo português, que não existe em nenhuma outra parte do mundo”, diz Carlos, “leva as pessoas lá fora a ficarem muito surpreendidas com o som, os trinados, os choradinhos, aquelas coisas todas.”

Os concertos que António Eustáquio e Carlos Barretto apresentam este sábado, 14 de Novembro, na Culturgest (Pequeno Auditório, 21h30) e dia 27 de Novembro no Theatro Circo de Braga (21h30) têm, não apenas os temas do disco editado em duo, como outros que eles entretanto têm vindo a trabalhar. Já se falou, inclusive, na possibilidade de haver um dia outros instrumentos (eventualmente vozes), mas não é hipótese que para já lhes agrade. “Introduzindo outros instrumentos, outros timbres, diz António, “podemos correr o risco de nos colarmos a outros projectos já existentes. E este som realmente é original. A tendência de encher, encher, não nos agrada. Interessa é limpar o mais possível.” Carlos Barretto: “Eu pessoalmente estou a gostar imenso da forma de duo, instrumental, acho que não é preciso mais nada. Será mais difícil de vender, mas é o caminho certo.”