Forças curdas iraquianas anunciam reconquista de Sinjar ao Estado Islâmico

Batalha durou dois dias. A chegada do Estado Islâmico a Sinjar representou o terror absoluto para a minoria yazidi.

Foto
Combatentes curdos peshmerga e da minoria yazidi numa estrada de Sinjar SAFIN HAMED/AFP

As forças curdas peshmerga que combatem o Estado Islâmico no Iraque anunciaram a conquista da cidade estratégica de Sinjar, que durante os 15 meses em que esteve nas mãos dos jihadistas foi palco de horrores, perseguições, massacres e destruição a grande escala.

“Estou aqui para anunciar a libertação de Sinjar”, declarou o líder da região autónoma curda do Iraque, Massoud Barzani, à porta da cidade. A ofensiva para resgatar o local e expulsar os jihadistas durou meses; a batalha final pela cidade, na qual participaram cerca de 7500 combatentes peshmerga, além de milícias yazidis e de rebeldes ligados ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) da Turquia, durou dois dias.

Apesar de não existir qualquer dúvida quanto à supremacia das forças atacantes – segundo a CNN, a defesa de Sinjar estava entregue a cerca de 600 combatentes do Estado Islâmico—, os repórteres internacionais que acompanharam as tropas curdas até ao centro da cidade reportaram a existência de algumas “bolsas de resistência” aos soldados peshmerga, bem como de minas deixadas pelos rebeldes.

Os observadores internacionais também temperavam as declarações vitoriosas com notas mais cautelosas, lembrando que os combatentes curdos demoraram cerca de quatro meses a reconquistar a cidade síria de Kobani, que era menos importante para os jihadistas. Ainda assim, os analistas sublinhavam que a recuperação de Sinjar deveria ter efeitos positivos não só do ponto de vista militar, como também simbólicos: o avanço da aliança montada contra o Estado Islâmico, depois de meses penosos de combates e raides aéreos na porosa zona de fronteira entre o Iraque e a Síria (reclamada como território do autoproclamado califado desenhado pelo grupo jihadista) parece agora imparável.

Além de Sinjar, as forças anti-Estado Islâmico capturaram ainda a localidade de al Houl, na província síria de Hasaka. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos confirmou que, depois de duas semanas de combates, as chamadas Forças Democráticas da Síria, formadas no mês passado com luz verde dos Estados Unidos, expulsaram os combatentes do Estado Islâmico que dominavam a cidade, que servia como ponto de abastecimento na rota dos jihadistas.

As duas vitórias desta sexta-feira garantem aos aliados anti-EI o controlo de um troço de quase cem quilómetros da auto-estrada 47, que liga a cidade de Raqqa, na Síria, cruza a fronteira, passa por Sinjar e termina em Mossul, a segunda cidade do Iraque e o maior “prémio” já reclamado pelo Estado Islâmico. Consolidadas as conquistas do dia, esse será o próximo alvo das colunas peshmerga, que vão prosseguir para Sul, garantiu Massoud Barzani.

A chegada do Estado Islâmico a Sinjar representou o terror absoluto para a minoria yazidi, um secto religioso pré-islâmico, estabelecida na cidade há séculos. Mais de 5000 rapazes e homens foram massacrados; e um número indeterminado de meninas e mulheres foram vendidas como escravas. As marcas da sua presença foram descritas pelo veterano correspondente da BBC no Médio Oriente, Jim Muir, como pura destruição: os jihadistas deixaram para trás um amontoado de escombros e detritos, e poucos vestígios de vida ou humanidade.

Nos primeiros dias depois da tomada de Sinjar pelos extremistas, em Agosto de 2014, mais de 50 mil pessoas fugiram da cidade. Muitos desses refugiados têm estado a desembarcar agora na ilha grega de Lesbos –  um deles, Jamal, foi entrevistado pela CNN esta sexta-feira na Grécia. Apesar de satisfeito com a notícia da libertação da sua cidade natal, Jamal afirmava a sua vontade de nunca mais voltar. “Que lugar é aquele agora para criar os meus filhos, sem hospital, sem escola, sem trabalho? Que vida é que eles podem ter?”, questionava.