A AMI tem 30 anos. E há um livro que olha para os lugares por onde andou

Ao longo das últimas décadas, os repórteres Alfredo Cunha e Luís Pedro Nunes acompanharam muitas missões da AMI, que este ano comemora 30 anos. O álbum Toda a Esperança do Mundo junta várias dessas reportagens. Reproduzimos o prefácio de Adelino Gomes.

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Estrada Batticaloa, Sri Lanka, 2014 Alfredo Cunha
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Avenida Jacques Dessalines, Port-au-Prince, Haiti, 2015 Alfredo Cunha
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Estrada para Sakhtira, Bangladesh, 2014 Alfredo Cunha
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Calçada do Combro, Lisboa, Portugal, 2014 Alfredo Cunha
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Bandegaoun, Nepal, 2015 Alfredo Cunha
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Port-au-Prince, Haiti, 2015 Alfredo Cunha
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Bairro de lata Jessore, Bangladesh, 2014 Alfredo Cunha
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Camin Spital (orfanato), Bîlteni, Roménia, 1991 Alfredo Cunha
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Forno de pão em campo de refugiados, Duhok, Curdistão, Iraque, 2014 Alfredo Cunha
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Aldeia em Wato, Guiné-Bissau, 2014 Alfredo Cunha
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Serviço de urgências do hospital central de Niamey, Níger, 2014 Alfredo Cunha
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Idosa no Bairro das Fontaínhas, Porto, Portugal, 2013 Alfredo Cunha

O livro Toda a Esperança do Mundo (Porto Editora/AMI) reúne nove reportagens feitas por Alfredo Cunha (fotografia) e Luís Pedro Nunes (texto), que acompanharam um pouco por todo mundo o trabalho da Assistência Médica Internacional (AMI). Numa homenagem aos 30 anos de actividade da AMI, que este ano se assinalam, o livro dá-nos a conhecer os “escravos que lutam por recuperar a dignidade nas terras áridas do Níger, habitantes dos bairros de lata do Bangladesh que tentam assegurar um futuro aos seus filhos, pescadores no Sri Lanka a quem o mesmo mar que os alimenta tudo levou num tsunami apocalíptico, crianças que sobrevivem no limbo surreal do Haiti, meninas que lutam contra a tradição na Guiné-Bissau e curdos encurralados no Iraque pelo Estado Islâmico, resistindo à barbárie e à extinção”.

Um dos prefácios do livro - que hoje é lançado na loja da FNAC do Chiado, em Lisboa - é da autoria do jornalista Adelino Gomes, ex-director-adjunto do PÚBLICO. É esse texto que aqui reproduzimos.

"Em louvor do jornalismo do 'claramente visto'

Em Novembro de 1946, numa nota do editor, a Penguin Books sentiu a necessidade de explicar a razão pela qual se apressava a publicar o livro-reportagem Hiroshima, de John Hersey. Haviam passado 15 meses sobre o lançamento, pelos EUA, de uma bomba atómica sobre a cidade japonesa, mas as vozes que se levantavam eram ainda, e essencialmente, de celebração de um 'feito científico' e das suas 'fórmulas matemáticas'. Agora, pela primeira vez, sublinhava a editora britânica, o mundo tomava conhecimento dos efeitos da bomba através do testemunho daqueles sobre quem ela fora lançada, dos que haviam sido vítimas de uma das mais catastróficas experiências mundiais, e sobreviveram. 

Notícias sobre refugiados fugidos à guerra, às perseguições políticas, ao ódio étnico, à intolerância religiosa, à miséria económica compõem boa parte da dieta mediática do nosso quotidiano. Elas chegam-nos cada vez mais, porém, envoltas num celofane de pronto-a-consumir. Algo que as redações encomendam no mercado de notícias onde se adquirem formatos todo o terreno – caracteres contados, minuto e meio de duração (quase 'grande reportagem', nos dias que passam…), ou uns poucos segundos, apropriados ao cacharolete de breves da chamada actualidade internacional. 
Sim, a crise do modelo de negócio esmaga o princípio camoniano do ver claramente visto, pedra de toque do jornalismo 'do acontecido'. Ir, ver e perceber, para dar a ver e a entender são requintes jornalísticos a que os média tradicionais (jornais, rádio, televisão) cada vez menos se podem (e quererão?) dedicar. Aquando do tremor de terra que destruiu mais de dois mil anos de história na capital nepalesa, Katmandu, críticos norte-americanos dos média assinalaram que a abordagem jornalística da devastação estava a ser feita, essencialmente, através do uso de drones e de instrumentos informáticos, como o Google Earth. É bom, claro. Mas como complemento. Não como substituto.

O argumento dos constrangimentos empresariais serve agora como álibi para todas as ausências. Sobretudo quando, a eles, se pode juntar, compreensivelmente, essa arma temível das ameaças que, do Estado Islâmico (EI) aos cartéis da droga e aos ditadores de todos os bordos, transformaram nos últimos anos a reportagem em zonas de conflito — perigosa por natureza — em prática jornalística cada vez mais arriscada.

O alerta chegou, no início de 2015. Feito por alguém com especial autoridade — a CNN Chief International Correspondent, Christiane Amanpour. Aqui, na qualidade de prefaciadora do (impressionante) relatório sobre ataques à imprensa no mundo, feito pelo Committee to Protect Journalists (CPJ).

Como era inevitável, o relatório fala das execuções de reféns diante das câmaras, semeando morte e decapitações em vídeo HD e slow motion (como tão bem assinala Luís Pedro Nunes). Christiane não se deixa ficar, contudo, pela lágrima, fácil em contexto tão cruel. Afigura-se-lhe, claro, que as ameaças já não se limitam a anos azarentos, nem são de molde a desaparecer, nem se confinam àqueles pontos quentes que se nos tornaram familiares, no Médio Oriente, África, América Latina. Envolvem países comparativamente estáveis na Europa, Ásia e América do Norte. O que está em jogo, por isso, já não são apenas as vidas de jornalistas, mas também a possibilidade das pessoas conhecerem o que se passa à sua volta.

É verdade, a opinião pública ficou a conhecer os riscos que os repórteres correm quando se deslocam para certas partes do mundo. Mas, ao mesmo tempo, inúmeros outros jornalistas eram assediados, atacados, raptados, presos, mortos no meio de uma indiferença quase geral. A maior parte deles eram/são freelancers, isto é, trabalhadores à peça, cuja condição implica, por natureza, recursos financeiros limitados, menor acesso a treino específico para o exercício profissional em zonas de conflito, nulo apoio no terreno por parte das empresas. 

A grande ameaça não impende sobre um ou dois repórteres, nem se confina a um determinado país, nem a um específico ano, prossegue a jornalista: 'Uma batalha pela informação está em curso no mundo, e trava-se de formas extremamente perigosas. E como sempre, os repórteres encontram-se na linha da frente'. 

Não podia/pode deixar de ser de outra forma, se entendermos que os cidadãos precisam de saber o que se passa à sua volta através de relatos técnica e deontologicamente competentes e credíveis. Porque, como gosto de recordar, citando uma velha jornalista do El País (Soledad Gallego-Díaz, numa conferência proferida em Março de 2012, perante os alunos da Escuela de Periodismo do El País), se os 140 caracteres do Twitter bastassem para sabermos o que se está a passar nos sítios mais perigosos do mundo, por que é que Marie Colvin havia de ter ido morrer à cidade cercada de Homs, na Síria? 

Nesse dia, tornou-se claro para a comunidade dos repórteres que alguma coisa tinha mudado, observa no mesmo relatório Nicole Giannini, editora internacional da Newsweek. À semelhança do que aconteceu na morte de outro repórter lendário, Kurt Schork, da Reuters, na Serra Leoa, em Junho de 2000, parecia agora que se uma jornalista tão enormemente experiente podia morrer (Marie estivera nos últimos anos em todas as frentes, da Chechénia ao Sri Lanka, onde perdeu um olho, ao Kosovo, a Timor), qualquer um podia morrer. 

Deixara de ser uma questão de experiência, de preparação, de valentia. “Cobrir a Síria”, disse-lhe a também muito experiente fotojornalista Nicole Tung, 'significa enfrentar um conjunto multifacetado de problemas, de bombardeamentos a snipers, a raptos pelo governo, por extremistas islamitas, por criminosos'. Pior: implica arriscar a vida num local onde 'já nenhum dos lados acredita nos benefícios de contar a verdade'. 

Já este livro ia entrar no prelo quando Alfredo Cunha e Luís Pedro Nunes decidiram partir para o Nepal. Para verem, ouvirem, cheirarem, sentirem a tragédia e dela darem testemunho. São da escola Gallego-Díaz. Não se conformam com esta espécie de secondhand journalism2 que prolifera por aí. Insistem em ir ao local da notícia. Querem oferecer-nos, em primeira mão, o que veem, ouvem e sentem, por palavras e imagens suas. 

Fui acompanhando a primeira versão pública do seu trabalho no Expresso e no Público. Senti-me companheiro de viagem de ambos naquela incursão ao Níger, naquele vislumbre de Mossul (a das portas de Nínive, agora à mercê das machadadas do EI), na tangente à Síria, na revisitação do Haiti, da Guiné-Bissau. Em cada peregrinação, uma caixa, um boneco, uma figura para a galeria de personagens, maná só disponível para eleitos: a aldeia de escravos, a uma hora da 'caótica ‘normalidade’' de Niamey, capital do Níger; a ameaça diluviana sobre os bengalis; as quatro mulheres em palácio de nababo indiano; a árvore-personagem do planalto do Himalaia; a dupla surpresa, dos bem-amados budistas a perseguirem muçulmanos protegidos por católicos no longínquo Ceilão. 

As fotografias (será necessário sublinhar o óbvio?) são magníficas. À altura do melhor que Alfredo Cunha já fez (e fez muito, nestes mais de 40 anos que lhe conheço de repórter). 

Mas não se deixe levar apenas por esse apelo encantatório das histórias que as imagens fotográficas lhe contam. Leia as frases que as acompanham. Porque, se só conhece o perfil Eixo-do-Mal-Inimigo-Público do Luís Pedro Nunes, espera-o uma surpresa. Ainda não havia televisão privada em Portugal e já ele (meia dúzia de meses de profissão) tinha deixado impressas em letra de forma as suas qualidades de repórter. Promissora estreia no Público. E premonitória: ele a acompanhar Alfredo à Roménia que quer esquecer Ceausescu. Vão na senda de uma equipa de voluntários…da AMI. As histórias dessa reportagem, já com 25 anos, abrem esta viagem superlativa da dupla jornalistas/AMI pela 'geografia humana do sofrimento, da dor e da esperança'. 

Não espere o leitor que lhe deixe aqui a papinha jornalística toda preparada para uma digestão mais fácil e rápida do que o aguarda. O caminho, as paragens, as descobertas hão-de ser suas e não necessariamente as mesmas. 

Sobre o trabalho do Alfredo faço apenas uma confidência. Ele e o Luís Pedro queriam saber a minha opinião sobre a reportagem do Nepal no Expresso. Não estava em Portugal. Do aeroporto de Barajas, enviei-lhes um SMS. Desafiador. 

Parti ontem de manhã de Díli. (…) Do Nepal, estes dias, só me chegaram [via Time] um texto (fracote) e 4 ou 5 fotos (uma delas magnífica, na capa) do enorme James Natchwey. Prepara-te Alfredo, é com ela na retina que os meus olhos vão chegar ao teu trabalho. 

Agravei a provocação, quando eles retorquiram com as condições (tempo e meios) de que Natchwey e quejandos dispõem: 

Não era 1, eram 2, as [fotos] magníficas. E ele foi às aldeias. E não se queixem, poucos conseguem condições como as vossas. 

Guardei a minha opinião sobre as fotos e os textos do Nepal para quando visse as selecções deste álbum. Compare-as. E diga-me se as do Alfredo não podiam figurar naquela edição de 25 de Maio da revista Time. E se os textos do Luís Pedro não pedem meças às magras duas colunas da p. 18 na mesma edição. 

Permito-me sinalizar por fim, já que falo do Luís Pedro, estes três momentos onde poder e estilo narrativos, capacidade de observação, transparência, cinismo auto-reflexivo e cortina entreaberta para o making of da operação 'Toda a esperança do mundo' se aliam num quanto baste que tenho por crucial na mediação jornalística. 

Níger (pp. 44 e 45) 
Aqueles seres humanos que estão aqui à nossa frente e que existem — já lhes tocámos, têm textura, pele e vida e estão a sorrir — são escravos. E não se trata de uma expressão retórica. Pertencem, como uma cadeira ou uma vaca, a outros seres humanos. (…) Não há marcas nem sinais, grilhetas ou correntes. Não há feições orgulhosas como nos escravos dos filmes de Hollywood. Não há nenhum heroico Espártaco. Apenas a árida e burocrática inexistência de direitos de ser um humano acomodado há muito a este facto. (…) O que não sabia, e soube-o só depois, é que também esta era uma aldeia de escravos. (…) Lição jornalística número um: devemos suspeitar do que vemos e como vemos. Mesmo o que conto é parte de parte de uma teia. Não se percebe uma mistura de culturas centenárias numa semana. 

Iraque (pp. 194 e 195) 
O que é que se imagina quando se pensa em 80 0 mil refugiados e deslocados a afluir em massa e desespero, em apenas três dias, a um pequeno território autónomo dentro de um Iraque a desintegrar-se numa guerra de barbárie? O que é um campo de tendas com 30 mil pessoas fugidas ao mais terrível movimento terrorista de que temos memória na história recente? Que imagem de caos, gritos, desespero? Faça esse exercício mental. Então como explico este silêncio, esta ordem geométrica aparentemente calculada com régua que estou a ver, esta calma que se estende até ao horizonte e termina num findo de montanha, esta falta de gente, esta aparente ausência de dramatismo, esta quase higienização sensorial? (...) 


Sri Lanka (pp. 190 a 193) 
(…) Imagine que há dias e dias só ouve cingalês ou tâmil, duas das línguas dominantes do Sri Lanka. Não se pesca nada, uma palavra para amostra. Agora, quando se despede daquelas senhoras, diz no inglês costumeiro 'bye bye'. 
E elas dão um passou-bem em que agarram com as duas mãos cuidadosamente e respondem no seu dialeto: 
— Andando te vi, vossa mercê. 
Dois meses depois de a onda ter devastado parte da comunidade, Fernando Nobre chegou a Batticaloa. O padre Dias, um Portugal People, olhou para ele e disse: 'Onde estiveram nos últimos 350 anos?'. 

Além de Gallego-Díaz, de cuja oração de sapiência me servi para evocar Marie Colvin, gosto de parafrasear também Heidegger e de, na senda de José Luís Garcia, colar os jornalistas aos professores, na parte em que o filósofo alemão apontava estes últimos como verdadeiros 'funcionários da Humanidade'. Este livro, pelo simples acto de ter ido ver e ouvir, para nos dar a ver e ouvir, exalta um outro ramo profissional, pioneiro, desde os primórdios da História, desse lado heróico da vida colectiva — o da Medicina (em termos mais latos, da Saúde). E se forem voluntários, ainda por cima… 

Obrigado Luís Pedro, obrigado Alfredo, obrigado Fernando Nobre e todos os que o acompanharam nesta jornada de 30 anos. Andando os vimos, aos nossos irmãos por esse mundo espalhados. De Portugal até muito para além da Taprobana. Graças a esses outros 'funcionários da humanidade', que são os voluntários da AMI ao serviço das vítimas de todas as tragédias. Venham outras iniciativas. Salvem-nos de um dia num futuro não muito longínquo, um leitor/ouvinte/espectador/internauta, saudoso de reportagem, se vir obrigado a perguntar aos nossos editores de secondhand journalism (se não tiverem sido já substituídos por esses outros platform editors que já se veem por aí em anúncios): 

— Onde está a reportagem, onde estão os repórteres portugueses, que já não os vemos no terreno desde aquele livro dos 30 anos da AMI?

Adelino Gomes, jornalista