Crítica

Il quattrocento

O século XV europeu, numa análise mais centrada nos pequenos Estados italianos, é o objecto deste IV volume

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O interesse de Eco pela Retórica e Filosofia medievais é conhecido. O que mais lhe agradou na sua popularidade, enquanto escritor de ficção, foi ter chamado a atenção para essa parte, mais recôndita, da sua obra

Meio século depois da publicação de A Civilização do Ocidente Medieval (1964) de Jacques Le Goff e de O Tempo das Catedrais (1966-1967) de Georges Duby, Umberto Eco organizou uma nova síntese sobre a Idade Média. E, se as duas primeiras obras reflectem a personalidade de dois grandes historiadores franceses, a obra colectiva, cujo quarto e último volume acaba de sair em português, parece ser mais uma resposta à solicitação feita por um editor a um muito inteligente intelectual público e autor de best sellers – Umberto Eco. 

Claro que se poderá sempre argumentar que o interesse de Eco pela Retórica e a Filosofia medievais é bem conhecido. Ele próprio chegou a dizer que aquilo que mais lhe agradou na sua popularidade, enquanto escritor de obras de ficção, foi ter conseguido chamar a atenção para essa parte, porventura mais recôndita, da sua obra. Enquanto representante de uma espécie de star system da literatura, disponibilizou-se a servir de chamariz para que outros investigadores italianos da época medieval pudessem divulgar os seus trabalhos de investigação, junto de um público mais alargado. Mas o mais importante é que uma obra desta vastidão sobre a Idade Média, sem trazer propriamente novidades, ajuda a romper com os riscos de fixação obsessiva no presente e de inevitável perda de memória histórica, de outras épocas e de outros lugares, características que pesam sobre as sociedades em que vivemos e que são partilhadas por um jornalismo cultural bacoco e obsessivamente preocupado com o presente.

Recuar, ganhar distância e perspectiva – muitas vezes para encontrar as raízes do que temos à frente, outras para perceber o que mudou e é diferente – com base no estudo da Antiguidade, da Idade Média, do Renascimento ou do Iluminismo, parecem ser tarefas obrigatórias do cidadão, crítico e humanista, dos dias de hoje. E o resultado em vários volumes desse esforço, numa tradução tão boa quanto a que José Saramago fez da referida obra de G. Duby, também serve para contrariar os que se deixaram embalar pelos circuitos da comunicação electrónica e já não acreditam na centralidade da leitura do livro em papel, acompanhado de muitas ilustrações, que incluem desenhos, pinturas, iluminuras, esculturas e tantas outras obras de arte, em excelentes reproduções a cores, bem como tabelas cronológicas por temas.

O século XV europeu, numa perspectiva mais centrada na análise dos pequenos Estados italianos, constitui o objecto do volume. Os temas seleccionados privilegiam a cultura literária, artística e intelectual – com as suas inovações filosóficas, científicas, mas também tecnológicas. Apenas, um terço da obra é dedicado às mudanças sociais e políticas, sendo muito reduzido o espaço dedicado à economia. A obra foca-se, pois, nas grandes mudanças culturais do Humanismo e do Renascimento quatrocentista, com certeza mais importantes que essa abertura do mundo suscitada pelas expansão europeia em que portugueses e espanhóis ocuparam lugar de relevo.

Das alterações políticas e sociais, atente-se nos processos de construção do Estado moderno, em que D. João II se insere, bem como na interrogação céptica sobre o sentido da burguesia, com base na experiência dos mercadores e banqueiros italianos. Mas, sobretudo, repare-se no  processo de confinamento e de institucionalização das massas de pobres, vagabundos e errantes. Desde as pestes e epidemias de meados do século XIV que uma nova ordem política, cada vez mais apartada da fragmentação feudal  dos poderes, passou a concentrar e centralizar os seus esforços em vigiar e punir os miseráveis, tantas vezes impedindo-lhes os movimentos e procurando delimitar as fronteiras. Claro que a mesma ordem política também procurou integrar as mesmas massas de pobres e vagabundos,  através de programas religiosos e de formas de sociabilidade fundadas na assistência. Foi o que sucedeu com o modelo da Misericórdia florentina que se veio a difundir e a ser adoptado em Portugal, por influência da rainha D. Leonor.

Por sua vez, entre as mudanças culturais, é de realçar a interpretação da invenção e dos usos da imprensa por Gutenberg em meados do século XV: terá esta contribuído, desde o início, para estabelecer rupturas e inovar  ou apenas para intensificar a difusão de mensagens, da Igreja e dos poderes laicos, de sentido tradicional? As próprias correntes do Renascimento e do Humanismo, voltadas para a recuperação textual da Antiguidade mostraram-se avessas a essa nova tecnologia e  foi necessário esperar pelo século XVI, já bem entrado, para ver como é que a imprensa passou a divulgar novos conteúdos.

Estas e muitas outras questões, com elevado sentido analítico e problematizador, surgem expostas com clareza nesta obra, onde os erros são poucos (p. 23, corrija-se: Portugal passou a condado, não a reino, em 1094 e, no século XV, já tinha alcançado um milhão de habitantes e não metade, como se refere por lapso). Uma leitura que se recomenda, a realizar em paralelo com a das obras de um conjunto muito importante de historiadores que, entre nós, se tem dedicado ao estudo do século XV: Armando Carvalho Homem, Bernardo Vasconcelos e Sousa, Cristina Pimenta, Helena da Cruz Coelho, José Augusto de Sotomayor-Pizarro, Luís Adão da Fonseca, Luís Miguel Duarte, Lurdes Rosa, Rita Costa Gomes e Saul Gomes.