ONU encara intervenção militar para travar atrocidades no Burundi

A acção das Nações Unidas surge perante o receio de uma réplica do genocídio que varreu o Ruanda, em 1994, naquele país

A violência rebentou no Burundi em reacção à candidatura do Presidente, Pierre Nkurunziza, a um terceiro mandato consecutivo
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A violência rebentou no Burundi em reacção à candidatura do Presidente, Pierre Nkurunziza, a um terceiro mandato consecutivo AFP/CARL DE SOUZA

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou esta quinta-feira uma resolução que impõe sanções a todos os envolvidos em crimes de violação dos direitos humanos no Burundi, numa tentativa de travar a escalada de violência que assola aquele país.

ONU, União Africana (UA) e a União Europeia (UE), aprovaram por unanimidade uma declaração, condenando as atrocidades contra civis e afirmando a urgência de diálogo entre o Governo actual e a oposição, num encontro que deverá ser mediado pelo Presidente ugandês, Yoweri Musevini.

A ONU pondera ainda o envio para o Burundi de capacetes azuis actualmente destacados na República Democrática do Congo, caso as conversações de paz não mudem a situação.

“O Conselho de Segurança tem reunido no decorrer desta semana para assegurar que faz os possíveis para pressionar as autoridades de Bujumbura e alertar para os perigos de atrocidades em massa”, afirmou Mathew Rycroft, embaixador britânico e actual presidente do conselho.

Uma onda de violência estalou no país em Abril, depois de o Presidente Pierre Nkurunziza apresentar a sua candidatura a um terceiro mandato, à revelia da Constituição do país, que prevê apenas dois mandatos consecutivos. O conflito com a oposição já levou à morte mais de duzentas pessoas e à fuga de milhares para países vizinhos.

A decisão da ONU surge numa altura em que o discurso de Nkurunziza se radicaliza. Segundo o Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o Presidente lançou a semana passada um ultimato para a entrega de armas, informando que todos aqueles que se recusassem seriam considerados “inimigos da nação”. As autoridades receberam ainda ordens para “identificar elementos dissidentes” e reportar às forças militares.

“Frases como esta lembram um discurso que esta região já ouviu antes, e não deveria ouvir de novo”, declarou o alto-comissário para os Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra’ad Al Hussein, referindo-se ao genocídio no Ruanda em 1994. Esse conflito étnico entre tutsis e hutus provocou a morte de 800.000 pessoas de origem étnica tutsi, numa acção extremista do Governo radical de maioria hutu.

O Governo de Nkurunziza, também de maioria hutu, traz agora ao confronto civil o recrudescimento de tensões de origem étnica. O Burundi viveu uma guerra civil de doze anos entre rebeldes hutus e o Exército dominado por tutsis. O conflito terminou em 2005 com Nkurunziza, rebelde hutu, a vencer as primeiras eleições democráticas do país.

“Como governa ele este país?”, questionou o Presidente do Ruanda, na semana passada em Kigali. “Eles deviam tirar uma lição da nossa História”, acrescentou.

Pelo seu lado, o chefe do gabinete de Direitos Humanos da ONU em África, Scott Campbell, afirmou recentemente que as forças das Nações Unidas – que não conseguiram evitar o genocídio em solo ruandês – ainda estão “menos preparadas para responder a uma crise hoje do que estavam em 1994.”

Texto editado por Rita Siza