Este homem de 76 anos foi o new kid in town do cinema americano dos anos 70 – uma versão mediática do autor-estrela que hoje é Quentin Tarantino

Old kid in town

Foi o new kid in town do cinema americano dos 70s. Cinéfilo e estrela como ele, hoje, talvez só Tarantino. Conheceu a glória e a queda. Ela é Mesmo... o Máximo mostra que Peter Bogdanovich está vivo.

Isabella Patterson, prostituta de irreprimível fantasia – a verdade vale muito pouco perante uma boa história –, dirá que é preciso esquecer o passado, largá-lo, ou ele mais cedo ou mais tarde sufoca-nos. É assim que Izzy, que sabe histórias sobre Lana Turner, Marilyn Monroe e Holly Golightly (genealogia, claro - e ainda fala com a voz de Judy Holliday), reinventa a sua moral: vê-se como musa, oferece-se ao interesse dos outros sem se deixar derrotar pelo olhar dos outros, porque o sonho - ser estrela de cinema - é maior do que um julgamento.

Um dia Imogen Poots (a intérprete de Isabella) encontra Owen Wilson (Arnold Albertson, um dramaturgo), que lhe oferece 30 mil dólares se ela se comprometer a usar a cama só por amor. O dramaturgo é ainda mais útil, dá caução à filosofia da call girl citando-lhe várias vezes o último Lubitsch, Clunny Brown (1946), aquele em que Charles Boyer diz a Jennifer Jones que é normal dar nozes aos esquilos, tudo bem, mas se quisermos dar esquilos às nozes ninguém terá nada a ver com isso, o lugar que escolhemos para a felicidade é só nosso. Peter Bogdanovich começou com um suspiro uma recente entrevista para falar desta sua primeira longa-metragem para cinema em 13 anos, Ela é Mesmo... o Máximo/She’s Funny That Way. O suspiro de quem nunca conseguirá escapar ao passado. “Back among the living!”, então.

Homem com passado
O argumento tinha sido escrito, com a ex-mulher Louise Stratten, entre 1999-2000, para tentar iludir dificuldades económicas. Na altura o par vivia dependente da bondade de amigos, falido, saltitando de casa em casa. Toca a imaginar uma screwball comedy a partir de dois motivos: um, Lubitsch; o outro, a ideia de alguém pagar a uma call girl para ela deixar de ser call girl, o que Bogdanovich fizera em Singapura em 1979, na rodagem de Noites de Singapura/Saint Jack (John Ritter e Cybill Shepherd seriam os intérpretes, mas Ritter morreu e o projecto foi suspenso). Peter Bogdanovich, 76 anos, é, portanto, um homem com passado.

Foi em nome dele que Wes Anderson e Noah Baumbach se ocuparam da produção quando o projecto foi reanimado, retribuindo ao “papá” (é assim que se tratam, um é o papá os outros os filhos) a devoção que Bogdanovich dedicara às velhas glórias de Hollywood naquele momento, idos de 60 e 70, em que a Nova Hollywood entrava pelos estúdios adentro e tomava o poder. Poética reprise!

Em vez do esgar de ameaça, “estás feito!”, que Dennis Hopper escancarara a George Cukor, Bogdanovich velara pelos últimos suspiros dos primitivos, metaforica e literalmente - o livro Who the Devil Made it - Conversations with legendary film directors é mesmo isso, a transcrição das conversas que teve com Allan Dwan, Cukor, Hawks, Hitchcock, Preminger, Sternberg, Walsh, e outros, e em alguns casos – o de Leo McCarey, por exemplo, com quem conversou em várias sessões num hospital – o esforço de fixar memória foi mesmo uma luta entre a vida e a morte.

Bogdanovich está vivo, e a primeira coisa a dizer sobre Ela é Mesmo... o Máximo é que, para além de tratar por “tu” a mitologia do cinema clássico, esmera-se para mostrar que é ainda coreógrafo das várias possibilidades de um copo se estatelar no chão. Há nesta utilização dos corredores de hotéis e dos mal entendidos gerados por cruzamentos de conversas telefónicas uma sabedoria – está ali nos corredores e nas portas que se abrem e fecham por engano todo um património da comédia física que fez a glória do cinema americano – que Bogdanovich exerce de olhos fechados.

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Ela é Mesmo... o Máximo assume o confronto com outros filmes do passado glorioso de Bogdanovich, como They All Laughed

Imogen Poots, Owen Wilson, Jennifer Aniston ou Rhys Ifans, a prostituta, o amante dela, a mulher dele e o amante desta, são atirados uns contra os outros com a precisão de um mecanismo que prevê as suas próprias surpresas - isso talvez lhe confira aridez, talvez seja por isso que frases promocionais, em alguns países, anunciam este como um filme que não fica atrás das mais divertidas comédias de Woody Allen, algumas das quais parecem ter sido filmadas de olhos fechados. Mas Ela é Mesmo... o Máximo seria um filme parecido com os de Woody Allen - mas Allen nunca saberia filmar as várias sequelas da queda de um copo – se não se abrisse a fantasmas do passado. É o véu de melancolia que o cobre e é o que o individualiza e humaniza.

Balada de câmara
Por exemplo, confrontar-se com as ruas de They All Laughed (1981), ali algures perto do Algonquin. Esse foi o filme com que Bogdanovich enviou a Nova Iorque um cartão de namorados musicado a country music, filmando a cidade como estúdio a céu aberto para a tusa de Ben Gazarra, Audrey Hepburn, John Ritter e Dorothy Stratten – o seu filme glorioso, desapareceu em 1981, foi o seu “deastre” como foi Do Fundo do Coração para Coppola ou As Portas do Céu para Cimino. Foi agora redescoberto, por culpa de Quentin Tarantino (falaremos mais vezes dele aqui...) que o colocou numa lista dos melhores de todos os tempos. (They All Laughed é o filme que se redescobre e homenageia em One Day Since Yesterday: Peter Bogdanovich & The Lost American Film, documentário deste ano de Bill Teck).

E mais ainda: por trás de Imogen Poots/Isabella está a mãe, interpretada por Cybill Shepherd, actriz que em 1974 foi Daisy Miller na adaptação que Bogdanovich fez da novela de Henry James - um filme de época, desafiadoramente a contra-corrente do que se fazia, antes da “moda” Merchant/Ivory. Tal como Daisy Miller, Izzy é afinal “rapariga às direitas” - vertical na moral que definiu para si. Isso passou da mãe Cybill para a filha Imogen.

Comparado com a forma como o realizador conquistou Nova Iorque em They All Laughed (ou como depois dos mal entendidos num hotel Barbra Streisand e Ryan O’Neal destruíam São Francisco como se a cidade fosse um adereço em What’s up Doc, 1972), Ela é Mesmo... o Máximo vai à luta com uma balada de câmara - é mais doméstico e trôpego o bando de detectives que se atropela aqui, se compararmos com a forma como esvoaçavam, mesmo se depois caíam sobre as suas conquistas, no filme de 1981.

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Na rodagem de Ela é Mesmo... o Máximo, com Jennifer Aniston

É um arsenal, o de Ela é Mesmo... o Máximo, que já não pode ter a petulância que fez a glória (e a seguir a miséria) de um new kid in town: actor aos 15 anos, aluno de Stella Adler; encenador aos 19, com uma versão de The Big Knife, de Clifford Odets, para alguns mais gloriosa do que a de Strasberg com John Garfield; convidado pelo MoMA, aos 22 anos, para escrever uma monografia sobre Orson Welles - seguir-se-iam Hawks e Ford; em 1968, o encontro em Hollywood com Roger Corman e com mais uma velha gloria na sua vida, Boris Karloff, em Targets; em 1971, The Last Picture Show, o mais interessante filme de um jovem cineasta, como se escreveu, depois do Mundo a Seus Pés, de Welles.

Quando se vê o trailer de What’s Up Doc (o sucesso do ano depois de O Padrinho), percebe-se com espanto: o que se queria saber, naqueles anos em que o autor era a estrela, não era que filme fazia Barbra Streisand; o que o trailer mostrava era o que estava a fazer em São Francisco Peter Bogdanovich. Como quando hoje se anuncia o que faz... Quentin Tarantino (cá está ele outra vez). Quem conta isso, em One Day Since Yesterday: Peter Bogdanovich & The Lost American Film, é Quentin. Como se para explicar à memória recente quem foi o homem com passado fosse necessário um “ele foi uma anterior versão de mim”.

É verdade que é difícil antecipar qual dos dois venceria o supremo quizz show de cinefilia - falámos aqui várias vezes de Tarantino, é verdade, mas é preciso ver Ela é Mesmo... o Máximo até ao fim. É verdade que cada um manda mimos a outro. Quentin sabia que as vozes radiofónicas que se ouvem nos filmes de Bogdanovich eram as vozes do próprio realizador e convidou-o para fazer a voz do DJ em Kill Bill. Bogdanovich, homem dos 70s que só gosta dos velhos do passado, já foi considerado o patrono de uma esclarecida cinefilia pastiche dos nossos dias - a forma como a ele acudiram Quentin, Wes e Noah parece institucionalizar uma filiação. Pode ser interessante notar, contudo, que a forma como Bogdanovich cuidou da sua aprendizagem – em convivência directa com os velhos, antes do fim deles mas respirando o fim deles, enquanto Tarantino se alimentou com o vídeo - transporta para o seu cinema uma experiência diversa da mero cinema sobre outros filmes: dificilmente as solitárias e sôfregas olimpíadas de Quentin poderiam desvendar a chave da sua paixão ao espectador, como Bogdanovich faz no final de Ela é Mesmo... o Máximo, como quem entrega o segredo de um truque. Na verdade, os grandes filmes de Bogdanovich - Daisy Miller, They All Laughed, Saint Jack, estes mais do que o mais icónico The Last Picture Show - são obras de abandono generoso. São livres de fetichismo e do coleccionismo “à maneira de..”, vivem o fôlego dos últimos suspiros. Ela é Mesmo... o Máximo faz-se com o que já não é mais possível. The old kid is back in town.