Crítica

Cair na real

Fiadeiro criou uma regra performativa muito inteligente onde corredores acossados pela urgência demonstram o funcionamento de sistemas cognitivos.

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O que fazer daqui para trás dr

Nesta nova criação de João Fiadeiro o protagonista imediato é um microfone. Com este objecto só, no centro do palco e sob iluminação geral, estão presentes a ausência e o silêncio. Fiadeiro retoma aqui uma pesquisa mais antiga sobre o que os objectos inanimados podem dizer de uma realidade humanizada, pondo em marcha um modo operativo eficaz: um copo meio cheio de água sobre uma mesa, por exemplo, indica um acontecimento que se deu, ou que se dará, e desencadeia especulações e impulsos afectivos no espectador.

Fiadeiro exercita no palco algo que é mais comum encontrar no meio da fotografia; aqui testemunhamos o estado de latência do significado de um objecto até que uma intervenção humana - motriz, do gesto ou da voz - transforme o potencial em real. Esta incursão filosófica é bastante interessante e, por ser discreta, pode passar despercebida;  mas ela é basilar - não só justifica tratar a questão da virtualidade no terreno de uma arte temporal e corporal como também informa o que os intérpretes dizem na peça. 

Na contribuição de Carolina Campos, geralmente descritiva de situações no espaço público que circunda o teatro,  sublinha-se a ligação entre factos, objectos e pessoas que o sistema cognitivo produz gerando uma rede de interpretações e histórias da realidade. Já Márcia Lança debate-se com a tarefa de explicar o que as coisas são e o que ela sente, procurando expressões e alegorias para definir a realidade. A reflexão em curso torna-se óbvia com Ivan Haidar cujas perguntas e afirmações são sempre em torno do corpo como depósito, projecto, motor ou presença; ele demonstra muito bem a sua possível amplitude no espaço e no tempo usando o telemóvel – esse pequeno e banal dispositivo electrónico que tão bem reflecte a complexidade da nossa percepção.

Em O que fazer daqui para trás há uma regra performativa, inteligente e constante, com implicações decisivas e valiosas. Além do microfone e da luz o palco será apenas preenchido, em intervalos, pela entrada dos intérpretes que, após correrem durante todo tempo que estiveram ausentes, falam ofegantes; é uma aparição individual e sucessiva de pessoas que andam numa correria ou acossadas pela urgência, cujo tempo é curto e agitado. Para além do vigor e da originalidade, que esta opção estrutural confere, reside também aqui uma relevante incursão crítica: esta peça foi feita num ano em que Fiadeiro vive na pele a precariedade que assola muitos membros da sua comunidade, uma maioria de portugueses noutros sectores profissionais e muitos mais refugiados no mundo.

O palco despido, a rarefacção de objectos e o recurso a um só princípio coreográfico são indícios de um ‘tempo sem’ - sem dinheiro, sem coisas, sem direitos... – e talvez do equilíbrio esgotante da corrida pela sobrevivência. Vemos o impacto da prova de esforço no discurso de Daniel Pizamiglio, que se vai consumindo em dúvidas, e no seu corpo realmente exausto, apesar de resistente.

Cair na real implica porém um confronto bem mais profundo do que aquele que chega ao público neste espectáculo. A ténue relação entre os assuntos de cada um, a primazia de questões e perspectivas egocêntricas ou, a falta de uma linha de coerência  individual, desmultiplicam a intensidade prometida pelos corredores. O coração pode ceder a qualquer momento mas, no ‘tempo sem’, é preciso deixar o conforto do laboratório e avançar mais depressa e para a frente.

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