José Eduardo dos Santos quer Angola longe do "saudosismo" do colono português

No discurso dos 40 anos da independência de Angola, o líder do MPLA deixa recados a Portugal e aos 15 activistas detidos. "Os jovens querem tudo resolvido de um dia para o outro", diz.

O Presidente angolano, em 2012.
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O Presidente angolano, em 2012. Siphiwe Sibeko/Reuters

José Eduardo dos Santos celebrou os 40 anos da independência de Angola do poder colonial português com alertas para os perigos da interferência externa em assuntos do país e, num discurso transmitido esta quarta-feira pelos canais oficiais, disse que espera que as relações com Portugal avancem “dando cada vez menos espaço ao saudosismo e o espírito de vingança e de reconquista de pessoas de má-fé”.

“Na política não vale tudo”, afirmou José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola há 36 dos 40 anos de independência do país. Falou ao país à meia-noite, a mesma hora em que Agostinho Neto proclamou a independência de Angola, em 1975.

No seu discurso, José Eduardo dos Santos apontou várias vezes aos movimentos de protesto que se geraram em torno da prisão, em Junho, de 15 activistas que o regime acusa de terem estado a planear um ataque ao Presidente e um golpe de Estado. “Sabemos que os jovens querem tudo resolvido de um dia para o outro. Assim foi em todas as gerações anteriores”, disse.

Os órgãos oficiais do Estado e o MPLA, o partido do Governo, relacionam o grupo dos 15 detidos a um movimento de pressões externas sobre o poder angolano. Sobretudo depois das denúncias internacionais às violações dos direitos humanos em Angola, muitas delas vindas de Portugal.

“O egoísmo e o desrespeito das normas do direito internacional e particularmente a ingerência nos assuntos internos de outros Estados por países mais fortes são factores que geram instabilidade, tensão e conflitos armados com consequências políticas e sociais graves, pondo em risco a segurança internacional”, afirmou José Eduardo dos Santos no seu discurso.

A detenção dos 15 activistas ganhou notoriedade internacional com a greve de fome de Luaty Beirão, que durou 36 dias. Agora, a apenas cinco dias do início do julgamento dos “revús” – termo derivado da palavra “revolucionários”, como ficaram conhecidos em Angola –, e já depois de a polícia ter interrompido movimentos de solidariedade com os 15 detidos, José Eduardo dos Santos sublinhou nesta quarta-feira o princípio da separação de poderes no país.

Falou da Constituição angolana, que “consagra a independência dos tribunais e a legitimação do poder político através de eleições livres, periódicas e multipartidárias, baseadas no sufrágio universal, e consagra também o respeito pelos direitos humanos, pelas liberdades fundamentais, pelo direito de participar em actividades políticas e associativas”.

“Vantagens recíprocas” com Portugal
O dirigente angolano salientou que o poder colonial português, cuja estratégia foi “dividir para reinar”, “não teria durado tanto tempo se os angolanos fossem mais coesos”. Mas, apesar de referir várias vezes no seu discurso que o país deve muito do seu estado de desenvolvimento actual ao antigo colonizador, José Eduardo dos Santos diz esperar um futuro próspero nas relações com Portugal.

“Estamos certos de que quer em Angola quer em Portugal as pessoas de bem vão continuar a desenvolver com confiança as relações privilegiadas que existem entre os dois povos e Estados, fundadas numa amizade sincera, solidariedade exemplar e cooperação com vantagens recíprocas”, afirmou.

O dirigente do MPLA agradeceu a ajuda externa no momento da tomada da independência de Angola. Para além dos países africanos vizinhos, o Presidente louvou a “ajuda de Cuba, cuja solidariedade combativa foi decisiva para a resolução do conflito regional da África Austral”, assim como a da Rússia “herdeira da União Soviética, que colocou a sua pedra na construção de uma grande epopeia nesta parte de África”.