Aaron Sorkin contra o culto de Steve Jobs

O argumentista atira-se ao icónico patrão da Apple num filme que não foi pensado como uma biografia tradicional, mas que tem sido muito criticado por não o ser.

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Sorkin (à direita) é um dos raros argumentistas americanos contemporâneos com “marca” autoral reconhecível, de tal modo subordinada ao poder da palavra, do diálogo, ao ponto de ser ele o verdadeiro autor dos seus filmes Francois Duhamel
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Sorkin repete que não quis fazer um filme biográfico puro Francois Duhamel

“As coisas não se tornam diferentes só porque tu dizes que elas o são.” É uma das chaves do filme que o realizador Danny Boyle e o argumentista Aaron Sorkin dedicam ao visionário patrão da Apple, Steve Jobs (1955-2011): a existência de um “campo de distorção da realidade” que parecia rodear o patrão da Apple. Aproximem-se demasiado, e tudo começa a ser colorido pela sua “iVisão”.

Foi para lá desse “campo de distorção da realidade” que Aaron Sorkin quis olhar. O dramaturgo americano de 54 anos escreveu Uma Questão de Honra (Rob Reiner, 1992, baseado na sua peça teatral, com Tom Cruise e Jack Nicholson), Jogos de Poder (Mike Nichols, 2007, com Tom Hanks e Julia Roberts), A Rede Social (David Fincher, 2010, pelo qual ganhou o Óscar) e Moneyball – Jogada de Risco (Bennett Miller, 2011, com Brad Pitt) e criou as séries Os Homens do Presidente (1999-2006) e The Newsroom (2012-2014). É um dos raros argumentistas americanos contemporâneos com uma “marca” autoral imediatamente reconhecível, de tal modo subordinada ao poder da palavra, do diálogo, ao ponto de ser ele, mais do que o realizador, o verdadeiro autor dos seus filmes. (E tudo o que se tem dito de Steve Jobs tem literalmente marginalizado o realizador nominal do filme, o britânico Danny Boyle, apesar de tudo autor de Trainspotting ou Quem Quer Ser Bilionário?, e que assina aqui um dos seus melhores trabalhos.)

O crítico Richard Brody, numa coluna publicada na revista New Yorker, fala de Sorkin como “autor de excelentes cenas de confrontos cara-a-cara e justas dialécticas que remetem elas próprias para outros tempos, que não teriam a mesma garra ou o mesmo ritmo – e não existiriam muito provavelmente – se fossem conduzidas por e-mail ou pelas redes sociais”. Nem por acaso, tudo, neste filme que arranca em 1984, com a apresentação do Mac original, e termina em 1998, com o lançamento do célebre iMac azul translúcido e decorre antes da popularização do Skype e da video-chamada e da invenção do iPhone, decorre cara-a-cara. Steve Jobs é uma sucessão imparável de diálogos socráticos e conversas a dois (ou três) que fazem avançar a história. Num ensaio online, Brett McKay apontava que “as nossas conversas podem ajudar-nos a descobrir coisas sobre os outros, e sobre nós, que de outro modo teriam ficado escondidas; podem despoletar compreensões transformadoras ou mesmo revelações”. E é precisamente isso que Sorkin procura com o seu diálogo.

Há duas frases emblemáticas na carreira do guionista. Uma: o “walk with me” central à progressão narrativa de Os Homens do Presidente, onde os corredores da Casa Branca servem de metáfora para os labirintos da política por onde a equipa de assessores presidenciais no centro da narrativa procuram navegar pelas questões que enfrentam. Outra: o “you can't handle the truth” disparado por Jack Nicholson em Uma Questão de Honra contra um Tom Cruise farto dos labirintos esquivos da justiça militar. Todo o trabalho de Sorkin – verdadeiro “autor” por interposta pessoa dos filmes onde deixa a marca – é simultaneamente paciente e urgente: trata-se de usar o diálogo e as palavras para chegar à essência, à humanidade das figuras que põe em cena, inscrevendo-se abertamente numa tradição clássica da dramaturgia americana. Steve Jobs é mais uma prova dessa opção assumida de Sorkin por um artesanato do diálogo e da narrativa que, na Hollywood contemporânea, faz cada vez mais figura de “velho do Restelo”.

Mas, ao abalançar-se à figura literalmente larger-than-life do homem que fez de uma empresa de computadores a firma mais valiosa da economia contemporânea, o argumentista libertou um verdadeiro dilúvio de críticas. Sorkin tem sido alvo de ataques à esquerda e à direita por ter usado de “liberdade artística” no retrato que criou de Jobs, a um grau que não havia sido tão forte aquando da sua anterior incursão pela tecnologia com A Rede Social, a história de Mark Zuckerberg e do Facebook. Há cinco anos, a “presciência” de inscrever Zuckerberg num contínuo da história empresarial americana foi louvada (mesmo que o retrato do programador não tenha sido unânime); hoje, o retrato de Jobs como perfeccionista inseguro está a ser demolido, com os ataques mais virulentos a virem daqueles que privaram com Jobs (apesar de, por exemplo, Steve Wozniak, o programador da primeira hora , ter defendido Sorkin e o filme). A verdade é que o Steve Jobs de Sorkin e Boyle tem sido escrutinado de uma forma que, por exemplo, o filme de 2013 de Joshua Michael Stern com Ashton Kutcher não foi – e, no geral, quem entra no filme pelo lado da tecnologia, mais do que pelo lado do cinema, não gosta.

Walt Mossberg, veterano jornalista de tecnologia, escreveu no site The Verge que o filme, por bom entretenimento que seja, presta um péssimo serviço à memória de Jobs. Compara Steve Jobs com o Mundo a Seus Pés: onde Welles tinha pelo menos o bom senso de “esconder” o seu ataque ao magnata William Randolph Hearst por trás da personagem ficcional de Charles Foster Kane, o filme de Boyle seria um travesti do Jobs que ele conhece, ao focar-se na recusa de Jobs em perfilhar Lisa, nascida da sua relação com Chrisann Brennan, e no “trauma” de ter sido filho adoptivo, ignorando o seu casamento em 1991 com Laurene Powell. Tim Cook, o sucessor de Jobs à frente da companhia, deu a entender que Steve Jobs seria “oportunista” - no mínimo estranho, quando passaram quatro anos entre os primeiros esboços do guião e a estreia do filme, adaptado da aclamada biografia oficial e autorizada de Walter Isaacson. (E o filme está longe de ser um sucesso: mesmo que ninguém esperasse um êxito de bilheteira como os Mínimos ou o novo Bond, as receitas estão significativamente aquém das expectativas.)

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No entanto, muitos dos pormenores com que Sorkin articula o andaime narrativo de Steve Jobs são confirmados pelo registo histórico – o site CNET.com propôs até um exercício “descubra as diferenças” - mesmo que reorganizado em nome da liberdade criativa para efeitos dramáticos. Numa entrevista concedida ao veterano jornalista de tecnologia Steven Levy, observador de longa data do universo Apple e que – também ele – não reconhecia no Jobs do filme o Jobs real, Sorkin explicou que não lhe interessou, nunca, fazer uma biografia tradicional do homem da Apple. Para isso, já existiam muitas alternativas – desde o livro de Isaacson ao recente documentário de Alex Gibney, The Man in the Machine (cuja estreia foi completamente afogada pela cobertura do filme de Boyle). “Um filme biográfico seria uma história do nascimento à morte, estaria muito mais próxima de uma página da Wikipedia dramatizada,” disse Sorkin a Levy, sublinhando que uma biografia narrativa não é uma reportagem jornalística. “Este filme não é A História de Steve Jobs e nunca foi pensado como uma relação de todos os factos importantes da vida dele”.

O dramaturgo usa um exemplo pertinente na mesma entrevista: ninguém olha para A Rainha, de Stephen Frears, como uma transcrição fiel à realidade do que aconteceu no seio da família real britânica após a morte trágica de Diana de Gales, e o argumento de Peter Morgan foi aceite como um trabalho de invenção dramática a partir de factos reais concentrado numa semana na vida da rainha Isabel II. Sorkin defende, então, que Steve Jobs seria o equivalente dessa invenção dramática, usando como ponto de partida os factos reais: as três conferências de apresentação que dividem o filme em três actos (o lançamento do Mac original em 1984, o lançamento do malfadado NeXT em 1988, e o regresso à Apple com o lançamento do iMac em 1998), e as relações crispadas com Chrisann, Wozniak ou o presidente que Jobs foi “roubar” à Pepsi, John Sculley.

A questão do filme biográfico é, por isso, o ponto central na resposta a Steve Jobs. Sorkin diz repetidamente que não quis fazer um filme biográfico puro. Richard Brody (que não gosta do filme) defende, na coluna da New Yorker, que o problema que possa existir com Steve Jobs não reside nas diferenças factuais, porque a tendência e tentação de qualquer filme biográfico é a de limar as arestas todas para que uma vida possa encaixar na perfeição numa gaveta dramática e narrativa pré-definida, quase heróica.

O modo como a reacção ao filme se divide tão ardentemente, entre aqueles que conheceram Jobs sem o reconhecerem no filme e aqueles que nunca o conheceram mas vêem no filme um olhar tão legítimo como outro qualquer sobre a personagem, revela como o que Sorkin quer não é limar essas arestas, antes devolver a dimensão falível, contraditória, inerente ao ser humano. O Steve Jobs que Sorkin escreveu e Michael Fassbender interpreta é um gémeo do seu Mark Zuckerberg: um homem longe de perfeito escondido por trás de um “campo de distorção da realidade”. Se Aaron Sorkin o penetrou ou se apenas criou um outro ficará ao critério de quem veja Steve Jobs.