No cinema de Wenders tudo fica pior

Tudo Vai Ficar Bem é um testemunho aflitivo de quão incaracterístico se tornou o cinema do alemão.

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Deixando de parte a presença, num pequeno papel, de Patrick Bauchau, actor que muito directamente nos reenvia para o Wim Wenders dos melhores tempos (era o protagonista de O Estado das Coisas), dávamos um doce a quem conseguisse, sem consultar o genérico, encontrar algum sinal material, palpável, de que Tudo Vai Ficar Bem é um filme do mesmo realizador de Paris, Texas. Francamente, parece-nos impossível: Tudo Vai Ficar Bem é um testemunho aflitivo de quão incaracterístico se tornou o cinema do alemão, e a o pé dele mesmo alguns dos vários filmes medíocres que assinou nos últimos anos parecem animados por, pelo menos, algum sentido de propósito (caso dessa coisa que se chamava Estrela Solitária, que encontrava algum interesse na forma como revia, em auto-paródia, a “miragem americana” de Wenders, consubstanciada nesse Paris, Texas que ainda é, e por certo será sempre, o mais emblemático dos seus filmes americanos).

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Nada distingue Tudo Vai Ficar Bem das dezenas de filmes “indie” que desaguam todos os anos, com o seu olhar soturno sobre a América suburbana ou rural e as figuras mais ou menos marginais que a povoam – e isso é justamente o mais incompreensível, esta diluição de Wenders num mar de clichés (a utilização da música, por exemplo, do mais banal e redundante que é possível imaginar), a envergar a pele do “independente americano” sem lhe trazer qualquer olhar especial, sobre esta narrativa em particular ou sobre essa entidade, factual ou mitológica, que é o “cinema americano” (a menos que concedamos que alguns efeitos de iluminação pretendem aludir por exemplo ao Sirk de Tudo o que o Céu Permite, que também tinha, como Tudo Vai Ficar Bem, muita neve).<_o3a_p>

Encafuado numa narrativa psicológica e, passe a redundância (que não é nossa mas do filme), “psicologizante” - o trauma de um escritor, o inexpressivo James Franco, que no princípio do filme atropela um miúdo, e depois carrega um peso que se revela na relação com a namorada, com a mãe do garoto, com a vida profissional - Tudo Vai Ficar Bem avança leve levemente, depositando o essencial da sua (nula) potência dramática em muitos grandes planos de actores com rosto de quem se encontra em grande sofrimento interior, em cenas de diálogos absolutamente banais, esvoaçantes e explicativas, e numa timidez contemplativa onde não há um rasgo nem um pingo de imaginação. Para esquecer - e depois ir mas é rever os diálogos envidraçados de Nastassja Kinski e Harry Dean Stanton no Paris, Texas.<_o3a_p>

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