Crítica

Venham ver Pacino a fazer coisas com as mãos

O Senhor Manglehorn assume o inevitável solo de Pacino. Como se dissesse: “venham ver Pacino a trabalhar, a fazer coisas com as mãos”.

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Mais um episódio, este razoavelmente feliz, do “drama Pacino”, muito semelhante ao “drama de Niro” mas mais desesperado ainda: faça o que fizer, mascare-se como se mascarar (aqui cabelo comprido e oleoso, barbicha, óculos), já ninguém consegue ver uma personagem, esquecer-se do actor, acreditar no “primeiro grau”. O que se vê é o actor (e, para citar um crítico americano, a “bagagem da sua iconografia”) a trabalhar, a tentar fazer coincidir a sua grandeza “aurática” com o recorte de uma personagem específica. O que é astuto da parte de David Gordon Green é aceitar isto, integrá-lo como parte determinante do filme, em vez de fazer de conta que não percebe o fenómeno (erro em que incorrem quase todos os filmes com Pacino feitos nos últimos anos).

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O Senhor Manglehorn assume o inevitável solo de Pacino, até na maneira como a voz off do actor toma frequentemente conta da banda de som por cima da sua imagem, enche o filme com ele como se tivesse um lado documental: venham ver Pacino a trabalhar, a fazer coisas com as mãos (chaves, por exemplo, trata-se da personagem de um chaveiro), a mastigar os diálogos e os solilóquios, a cuidar dum gato (como se, ironia que não pode ser casual, um ser inconsciente da tal “bagagem iconográfico” fosse o partenaire ideal de Pacino), venham ver os outros actores a tentar estabelecer algum tipo de relação com ele (e sobretudo a tão desaparecida Holly Hunter, num registo alegremente abandonado, até o consegue). A partir daqui, o filme move-se entre esse carisma, completamente artificial e permanentemente “em construção”, da personagem do velho Manglehorn, um misantropo fragilizado em busca de redenção, e os flashes de um mundo real (as ruas de Austin, Texas, os rostos da gente comum convocada como figurante em diversas cenas). Por vezes, o cocktail rebenta em apartes surrealistas: o acidente de automóvel filmado como uma “instalação” e temperado com melancias esmagadas, que parece uma citação em simultâneo de Godard e de Tsai Ming-liang (e citação por citação, o mimo com que o filme acaba também podia vir do Blow Up de Antonioni). Mas mesmo isso contribuiu para o peculiar gosto a irrisão que o filme exibe e que lhe está na massa do sangue, com resultados moderamente bem sucedidos.<_o3a_p>