Crítica

O mais desejado dos príncipes está aqui

São os momentos cómicos deste Hamlet que valem a pena e é quando se filiam na tradição satírica de rir da morte que os actores mais brilham.

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O anúncio de que será a última peça em que Luis Miguel Cintra actua torna mais pungente a cena

Sentado na plateia em frente a um palco, cada um vê a sua peça de teatro. Nesta, a primeira coisa que chamou a atenção do crítico foi a armadura pousada à beira da tumba, evocando aquela mesma do retrato famoso de D. Sebastião. Claro, pode ser que não, mas largados os símbolos no mundo, quem vai dizer o que eles podem fazer? Eu vi a armadura de D. Sebastião naquele palco do Teatro Municipal Joaquim Benite, no cenário de Cristina Reis, mal se dissipou o fumo com que começa o espectáculo. (Armadura e nevoeiro juntos reforçam a ideia.)

O espectáculo abre, assim, o seu caminho no imaginário, mais ou menos colectivo, dos espectadores. E tal como a cultura visual ou a história determinam a leitura do que vai sendo apresentado perante os nossos olhos, também as circunstâncias envolvendo o espectáculo entram no cômputo geral. O anúncio de que será a última peça em que Luis Miguel Cintra actua torna mais pungente a cena. O facto de ser uma tradução longamente acalentada por Sophia de Mello Breyner que chega finalmente aos palcos dramatiza esta produção para lá dos elementos dramáticos do texto e do espectáculo propriamente ditos. É como se houvesse uma dramaturgia literal, subjacente ao teatro, pressuposta na encenação. O toque final é dado pela anunciada passagem de testemunho a um jovem actor, reconhecido pelo decano dos actores e encenadores como tendo passado com brilhantismo o tirocínio. Juntar estes elementos e tentar uma interpretação possível do modo como se cruzam com os materiais da peça é indispensável para compreender o seu significado. Encontrar a relação entre esses elementos, os materiais da peça e a sociedade portuguesa, nos 40 anos do 25 de Abril, à beira de uma mudança política histórica, dar-nos-á uma medida da inscrição deste espectáculo nos tempos que correm.

Hamlet tem que se libertar da sua consciência para poder agir. Os seus esforços nesse sentido atingem um pico quando contracena com a trupe de actores que representará, perante o rei, o crime duplo de incesto e usurpação. Terminada a função, é chamado aos aposentos da Rainha, sua mãe, onde consuma dois actos: um sexual, com a mãe, outro de sangue, com Polónio (que Hamlet toma pelo Rei). Só falta libertar-se do amor à vida, o que parece acontecer quando se depara com o coveiro e, de imediato, com o funeral de Ofélia. As caveiras passam a dominar a cena, postas no palco e no rosto dos actores. Hamlet está pronto.

A referência a encenações passadas da Cornucópia completam a cena, pondo em linha o contexto de produção, a forma teatral e o processo histórico. Este espectáculo é uma grande montagem teatral com o propósito de libertar a geração que há-de vir do peso da geração anterior: a geração de novos actores, a geração de novos Hamlets, a geração de portugueses nascidos depois do 25 de Abril.

A passagem de testemunho, feita com a tradução consagrada de Sophia, é oficiada pelos três actores da Cornucópia, primeiro enquanto trupe, depois enquanto coveiros. São os melhores momentos do espectáculo, em que Luis Miguel Cintra, Luís Lima Barreto e José Manuel Mendes actuam com leveza e rigor ao mesmo tempo, mostrando que se sabem divertir e rir de si próprios. A par dos veteranos, Duarte Guimarães faz um Polónio impagável, que leva e traz recados para nada, visto que é o primeiro a morrer às mãos de Hamlet. Não por acaso, Polónio é outra das personagens que declara o seu amor pelo teatro e se delicia com jogos de palavras. As tentativas que Polónio faz de resolver a crise são vãs, mas o modo como se mantém fiel a si mesmo é admirável. São os momentos cómicos deste Hamlet que valem a pena e é quando se filiam na tradição satírica de rir da morte que os actores mais brilham. Talvez por isso a armadura esteja vazia.