Pancho Guedes, um arquitecto heterodoxo e desconcertante

Pancho Guedes foi muitas coisas numa vida só. Muitos arquitectos, sobretudo. Morreu neste sábado na África do Sul, aos 90 anos. Portugal perde, assim, parte da sua cultura arquitectónica do século XX. E uma parte exuberante, que desconcerta.

Fotogaleria
Pancho Guedes fotografado na sua casa da Eugaria, Sintra, em 2010 Rui Gaudêncio
Fotogaleria
Pancho Guedes com o pintor Malangatana no Leão que Ri DR
Fotogaleria
Pancho Guedes com o arquitecto inglês Peter Smithson numa visita à Escola de Enfermagem Clandestina, Caniço, Maputo DR
Fotogaleria
Leão que Ri, edifício construído em 1958 em Lourenço Marques, actual Maputo DR

O arquitecto Pancho Guedes morreu neste sábado, na África do Sul, acompanhado pela sua filha mais nova, Kitty. Tinha 90 anos. Nascera a 13 de Maio de 1925. A sua morte marca o fim de uma época. Sem Pancho, Portugal fica amputado de uma parte da sua cultura arquitectónica do século XX, precisamente a que é mais heterodoxa: desconcertante, propositadamente anti-racional, plástica e exuberante. O oposto da arquitectura portuguesa.

Em 2005, Jorge Figueira escreveu no PÚBLICO, um artigo que comunicava a ideia, aliás inspirada em testemunhos do próprio Pancho, de que este desenhava “uma arquitectura que negociava continentes”. É justo que se visse a si próprio deste modo. Pancho foi um pioneiro da “transnacionalidade”, um conceito, agora muito em voga, explorado pelos estudos coloniais e pós-coloniais que se dedicam à investigação e levantamento da arquitectura e do urbanismo nos antigos territórios colonizados e suas repercussões na contemporaneidade. Não que Pancho tenha inventado o processo de retomar soluções arquitectónicas testadas numa região para outra, o que, de modo muito simplista, “transnacionalidade”  significa. Muitos arquitectos que trabalharam no hemisfério sul, primeiro europeus e americanos, e depois africanos e asiáticos, o fizeram. Mas ao contrário dos seus colegas, Pancho não se focava nas questões técnicas, aquelas que informaram a chamada “Arquitectura Tropical” que marcou as décadas de 1950 a 1970, e que basicamente exploravam o modo como se poderia “desenhar com o clima”, potencializando as especificidades de cada lugar.

Pancho estava empenhado em negociar culturas – como se percebe pela sua obra –, factos plásticos, sensibilidades artísticas. Interessava-se pelo surrealismo europeu, do mesmo modo que abordava artistas “populares” africanos, como o sul-africano Tito Zungu, que pintava requintadas caligrafias em envelopes. Admirava os mestres do barroco italiano, com a mesma veneração que dedicava aos bordadores africanos ou aos pedreiros dos seus edifícios que pacientemente executavam os seus murais. Não era paternalista em relação às chamadas culturas populares. E embora arquitecto, movimentava-se no domínio da arte. Daí um dos seus “poemas visuais” mais reproduzidos: “I claim for the architects the rights, and liberties that painters and poets have held for so long.” Aliás, uma transcrição.

Entre Gaudí e Le Corbusier

Pancho Guedes era um dos múltiplos nomes de Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes, arquitecto nascido em Lisboa em 1925, e que em 1928 se muda para África. Primeiro, São Tomé e Príncipe, onde o seu pai exercia medicina, e cerca de dois anos depois Lourenço Marques, hoje Maputo. Pancho frequentou a escola primária em Moçambique, indo para a África do Sul, no tempo do liceu. Ingressou na Universidade de Witwatersrand no final da Segunda Guerra, onde conheceu a sua mulher Dori. Teriam quatro filhos: Pedro, Llonka, Kitty e Fredo. Em Joanesburgo, estudou com Heather Martienssen, viúva do famoso arquitecto sul africano Rex Martienssen, um conhecedor de Le Corbusier. Cruzou-se com futuras figuras da segunda metade do século XX, então estudantes, como Denise Scott Brown, beneficiando de uma formação moderna numa visão já filtrada pelo contexto africano.

Em 1952 e 53 quando, em Lourenço Marques, o seu edifício do Dragão estava pronto e o Prometheus em construção, Pancho percorreu a Europa do Sul, visitando Itália, França, Espanha e Portugal. Tratou-se de uma primeira viagem após anos de ausência. Desse périplo destacar-se-ia a visita à Unidade de Habitação de Marselha, onde Le Corbusier demonstrara os princípios da habitação colectiva aplicados num edifício moderno de escala colossal. Este edifício, a mais importante realização à época do Movimento Moderno europeu, estava a ser finalizado. Já como antecipação do que faria a seguir, Pancho interessou-se pela sua dimensão plástica: as texturas do betão, as formas puristas moldadas escultoricamente, o carácter expressionista que o edifício exponenciava. A sua obra posterior, haveria de comprovar como estava menos focado nos aspectos “ideológicos”, ou “sociais”, que o edifício igualmente promovia ao sugerir determinados modelos de vida comunitária, e que seriam extremamente caros a uma geração, a do Team 10, com quem aliás Pancho conviveu.

No itinerário pessoal de Pancho, Barcelona foi na época outra cidade fundamental. Aqui, contactou com a obra de Antoni Gaudí, o principal protagonista do modernismo catalão e tema recorrente entre os surrealistas da década de 1930 que tanto admirou. As referências que construiu nessa viagem juntavam-se às dos arquitectos sul-africanos cuja obra estudaria em profundidade, como Norman Hanson ou Martienssen, já mencionado. Entre Gaudí e Le Corbusier, Pancho fixou-se portanto nas experiências mais plásticas que foram moldando parte da história da arquitectura moderna.

É também em 1953 que viria a Portugal, obtendo assim equivalência do diploma de arquitecto tirado na África do Sul, o que lhe permitiria assinar os seus projectos de arquitectura em Lourenço Marques. Mais tarde afirmaria que a arquitectura portuguesa moderna era então ainda “incipiente”, e só em nova viagem ao país, já em 1960, encontraria obras que lhe causariam forte impressão: a Escola do Cedro de Fernando Távora e a Casa de Chá de Álvaro Siza. Mais tarde haveria de promover estes dois arquitectos junto de John Donat, editor da colecção World Architecture. Os dois edifícios portugueses seriam integradas na edição de 1964. Pancho funcionaria aqui como divulgador da arquitectura portuguesa, uma faceta de que pouco se fala, beneficiando da sua vasta relação com os círculos internacionais e que se intensificaria durante os anos de 1960.

Um "leão" fundador

De regresso a Moçambique, e provavelmente graças à sua formação anglo-saxónica, receberia encomendas de investidores estrangeiros com interesses económicos em Moçambique, afirmando-se como arquitecto liberal, facto que haveria de merecer a desconfiança de alguns dos seus colegas portugueses e moçambicanos. A prática liberal permitiu-se prosseguir com os seus vários ciclos criativos – em 1985, na edição da revista Arquitectura Portuguesa intitulada Vitruvius Mozambicanus, e que reunia alguns dos seus trabalhos mais importantes, contabilizou 25 estilos diferentes – distinguindo-se todavia o Stiloguedes, que se caracterizava pelos “dentes” modelados no betão. O Leão que Ri, Unidade de Habitação corbusiana de pequena escala (apenas com seis apartamentos), seria a obra prima deste período. Foi projectada para si. Em 2003, numa conferência da sua velha escola Witts, esclareceria: “O Leão tem agora 50 anos... Levou imenso tempo a pôr de pé, pois nós éramos também os clientes. O Leão era nosso, e de forma alguma faríamos compromissos.”

Daqui se depreende como o Leão que Ri representou o laboratório por excelência da sua arquitectura, entre os desenhos que o filho Pedro realizou, as intervenções artísticas, o molde dos dentes, a própria escultura do Leão colocada à porta. Aqui montaria o seu escritório, lugar que o pintor Malangatana também frequentou no arranque da sua carreira e onde todos pareciam felizes. Numa revisitação à cultura africana confirmaria depois como sendo “ a minha casa, o meu túmulo”.

Pode-se considerar aqui que, com o Leão que Ri, se inaugurava a arquitectura moçambicana contemporânea, independentemente de ter sido ou não construído durante o período colonial. É necessário reafirmar-se que o distanciamento de Pancho ao regime do Estado Novo garantiu sempre a autonomia da sua prática profissional.    

O regresso à África do Sul

O Stiloguedes, que descreveria como a sua “maneira indiossincrática” – “como se fosse a minha família real”, dizia –, marcaria algumas das obras mais inquietantes da arquitectura luso-africana dos anos de 1950. Durante a década seguinte, seguem-se outros estilos pessoais. A arquitectura de Pancho evoluiu assim de um primeiro moderno, expressionista e surreal, para outros planos, principalmente norte-americanos, caso de Frank Lloyd Wright, mas principalmente Louis Kahn ou Robert Venturi. A igreja da Machava, nos arredores de Maputo, é normalmente associada a esta nova incursão. A propósito desta igreja – que mais tarde descreveria como “uma casa com paredes enroladas virando-se e revirando-se em cantos, fendas e concavidades” – declararia: “Somos todos coleccionadores de antiguidades. Não podemos sobreviver sem o passado.”

A partir dos anos de 1960, Pancho relacionou-se com o mundo anglo-saxónico, principalmente com os arquitectos que integravam o Team 10 e entre estes Alison e Peter Smithson. A Architectural Review, onde na época escrevia o crítico inglês Reyner Banham, foi a primeira revista fora do mundo português a publicar projectos seus, ainda em 1961. Nesse mesmo ano participou na Bienal de Arte de São Paulo, uma oportunidade para atravessar o Brasil e conhecer pessoalmente a obra de Oscar Niemeyer, que revisitaria ocasionalmente.

No final da década, Pancho desenharia alguns projectos recorrendo às técnicas construtivas tradicionais africanas, cuja plasticidade exploraria no mesmo plano da arquitectura erudita. A Escola Clandestina do Caniço, em Maputo, construída à margem do poder colonial, apesar da técnica ancentral africana, não abdicaria de uma espacialidade contemporânea evocando as referências estruturalistas que animavam os circuitos internacionais, designadamente os seus companheiros no Team 10. Peter Smithson haveria de a visitar, a quando da viagem do casal a Moçambique, como provam imagens da época.

Com a Revolução de 1974, Pancho retornou a Witwatersrand, desta vez como professor. Ensinaria ainda em Los Angeles, na UCCLA (1981), ou na Technion de Israel (1988). Representou Moçambique na Bienal de Veneza de 1975. Em 1980, expôs em Londres na Architectural Association. E em 1987, a galeria Cómicos de Lisboa apresentavaI.

Regressou a Portugal em 1990, para outras aventuras enquanto professor de arquitectura, designadamente na Faculdade de Arquitectura da então Universidade Técnica de Lisboa. O interesse pela obra de Pancho, a partir de então, seria também reflexo dessa condição em algumas universidades portuguesas. Com Ricardo Jacinto, representou Portugal na 10.ª Mostra Internacional de Arquitectura de Veneza,  intitulada Lisboscópio, em 2006. O Museu de Arquitectura de Basileia promoveu em 2007, a exposição An Alternative Modernist e, o Centro Cultural de Belém reuniu, em 2009, a mais importante exposição antológica realizada em vida, retomando a ideia do Vitruvius Mozambicanus. Em 2010, mostraria a sua colecção privada de arte africana em Lisboa – As Áfricas de Pancho Guedes.  

Pancho Guedes Nunca foi ao Japão, um livro e exposição, dedicados às suas viagens, foi um dos últimos projectos realizados em torno do seu percurso, já em 2014. Numa das suas últimas entrevistas, questionado sobre a sua heterodoxia, esclareceria, sempre de forma desconcertante: “Opto por uma via em que há alternativas não ortogonais para a espacialidade... Interessa-me o esquisito e teatral.”