Lenine: "Vou mostrar as canções praticamente nuas”

Em duas noites do Misty Fest, Lenine quer mostrar as canções como as criou, a voz e violão. Este sábado no CCB, em Lisboa, e dia 10 na Casa da Música, no Porto. Às 21h.

Foto
"Todo o trabalho está muito entrosado no que é uma extensão do meu corpo, o violão" Flora Pimentel

Lenine, para todos os que seguem a música brasileira que em Portugal se apresenta, é já um velho conhecido. Já muitos entoaram as suas canções ou dançaram no balanço dos seus ritmos. Desta vez, porém, o cantor e compositor pernambucano (nasceu a 2 de Fevereiro de 1959, no Recife) apresenta-se em solo absoluto, em duas noites do Misty Fest. Este sábado no CCB, em Lisboa, e terça-feira, dia 10, na Casa da Música, no Porto. Às 21h.

“É uma oportunidade”, diz ele ao PÚBLICO, de apresentar as canções como as compus, porque no fim de contas, quando você está ali somente a voz e no violão, dá a conhecer a canção como ela foi feita. No que respeita a repertório, eu vou dar um passeio geral por um pouco de tudo o que fui fazendo nestes trinta e poucos anos. Duas ou três músicas de cada um dos dez projectos que fiz. Vai ser um pouco de tudo, do Carbono inclusive.”

Carbono é o seu mais recente disco, que ainda não teve lançamento em Portugal. E onde ele retoma velhas parcerias: Carlos Rennó, Dudu Falcão, Lula Queiroga. “Cada mergulho é um mergulho diferente. O que difere agora é ter feito simultaneamente disco e show. Em 2014 eu estava na estrada com o espectáculo do disco anterior, Chão, que de alguma maneira dialogava com a música concreta, e dei-me conta que ainda continuaria este ano com ele. E resolvi amputá-lo. Tive um convite para fazer uma temporada num teatro de São Paulo, aceitei, e decidi que queria fazer um projecto novo. E decidi também que o ingresso desse show devia ser o próprio disco.” O espectáculo era a 30 de Abril e um mês antes ainda não tinha o disco. Então teve que apressar o processo para poder tê-lo pronto.

“Na verdade, Carbono completa uma trilogia. Porque a mecânica do fazer é semelhante à dos dois discos anteriores, Labiata e Chão. Antes do Labiata, fazer um disco, para mim, significava primeiro abrir o baú das canções acumuladas. Mas tinha a sensação de estar fazendo uma foto de mim ontem, não hoje. Porque parte desse repertório tinha sido feito ao longo do tempo. A partir do Labiata decidi não mais fazer uma colectânea de contos, para usar uma analogia com a literatura. E comecei a perseguir o romance sonoro. Imagino primeiro uma ambiência e um título, o título do romance, e só a partir daí é que faço os capítulos, as canções. É uma narrativa, uma história que eu estou contando.”

Íntimo e ínfimo
Nestes tempos, ele tem andado em tournée com uma orquestra holandesa clássica (a de Martin Fondse) mas tem tocado também com outras orquestras e grupos. “Eu trabalho com muitas pessoas. E gosto dessa quinta possível do encontro. Gosto desse diálogo da rua com a música académica, é muito interessante. E é uma outra hipótese de vestir as canções de uma maneira diferente. O que difere desse meu outro trabalho com as orquestras, é que nos shows em Portugal eu vou mostrar as canções praticamente nuas.”

Voltando às canções: “Muito do processo de fazer a música é solitário, mesmo quando é em parceria. E as pessoas só têm possibilidade de conhecer as canções já arranjadas e gravadas nos respectivos discos, o que significa vestir de maneira definitiva cada uma dessas canções. Então um espectáculo como este permite à audiência conhecer a canção como ela foi feita e a mim permite-me um exercício do íntimo e do ínfimo. A síntese. Nesse sentido, todo o trabalho está muito entrosado no que é uma extensão do meu corpo, o violão. O foco é esse: um diálogo com o cantautor que usa o violão para se expressar.”

Este processo, sobre o qual ele reflecte, não é definitivo. Talvez o repita, talvez não. “Por mais que exista um processo de pensar o que eu faço, na hora em que estou fazendo eu me liberto desse pensar. É intuitivo. Sou um ser volátil. E sou muito fiel ao desejo.”