The Librarians: os bibliotecários são os novos super-heróis

Uma série light para todas as idades para contrabalançar tudo o que vemos na televisão. Assim define Noah Wyle, numa entrevista ao PÚBLICO, o título que protagoniza e produz.

Noah Wyle regressa ao personagem que interpretou há dez anos em três telefilmes
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Noah Wyle regressa ao personagem que interpretou há dez anos em três telefilmes DR
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Quando personagens como Próspero, o mago de A Tempestade, de William Shakespeare, ou o Professor Moriarty, das aventuras de Sherlock Holmes, ganham vida, um bibliotecário não pode ser só um bibliotecário. Ele é um aventureiro, qual Indiana Jones em busca da arca perdida. Ele é Flynn Carsen, e não está sozinho. Afinal para salvar o mundo é preciso um trabalho de equipa. Isso e alguma magia. Sim, magia. Senão como é que personagens de livros saltavam para a vida real? Eis The Librarians. A segunda temporada da série estreia-se no Syfy, nesta quarta-feira (às 22h10), 24 horas depois dos Estados Unidos. O actor Noah Wyle, Flynn Carsen, sentou-se connosco, olhou para o que passou e para o que aí vem. Pelo meio, avaliou a situação actual da televisão e falou também de Serviço de Urgência, a série pela qual ainda hoje é lembrado.

Quando há um ano, pouco antes da estreia da primeira temporada de Librarians, falámos com a actriz norte-americana Rebecca Romijn, a protagonista da série dizia-nos que esta era uma produção muito querida a Noah Wyle. “É o bebé dele”, contava a actriz, destacando como o actor estava tão envolvido no projecto. E isso não acontecia apenas por Wyle ser também produtor executivo da série mas porque ele é na verdade a cara de Librarians, mesmo que não apareça em todos os episódios. Ainda a série não existia, nem sequer em ideia, e Noah Wyle já era Flynn Carsen na trilogia praticamente com o mesmo nome The Librarian feita há uma década para a televisão.

“É o meu bebé mas eu partilho a custódia”, brinca o actor norte-americano, numa breve conversa com o PÚBLICO em Londres, onde esteve a apresentar a série. “De várias formas sinto que lhe entreguei [a Rebecca Romijn] o meu bebé para que ela o possa criar, pelo menos metade do tempo”, continua.

Afinal é Rebecca Romijn, ou Eve Baird, uma agente especializada em contra terrorismo que ficou a saber na primeira temporada que o perigo ganha forma em lutas sobrenaturais, e que agora lidera os bibliotecários, ou a organização secreta que se esconde debaixo da Metropolitan Public Library de Nova Iorque. Os bibliotecários são quatro: Jake Stone (Christian Kane de Leverage), um historiador de arte que é uma espécie de enciclopédia ambulante; Cassandra (Lindy Booth de Cooper), uma mulher com o "dom" de sinestesia; e Ezequiel Jones (John Kim de The Pacific), o geek do grupo e um fã incondicional de crimes clássicos. E depois há Flynn Carsen, o aventureiro solitário, idolatrado pelos seus pares.

“Não estava interessado em ser protagonista de outra série porque estava a trabalhar em Falling Skies”, explica o actor, contando que foi o argumentista John Rogers “que desenvolveu o conceito de uma equipa de bibliotecários com missões”. Missões, essas, que passam por recuperar misteriosos e mágicos objectos para que estes não caiam nas mãos erradas. “E o meu personagem aparece às vezes.”

Na primeira temporada, Noah Wyle apareceu em quatro episódios, o que desagradou alguns fãs da saga. O actor diz compreender mas acredita que não fazia sentido que a trama se voltasse a focar em si novamente. “A verdade é que agora sou só mais um. Sou um de cinco. E assim está bem”, diz, revelando que na segunda temporada aparecerá em mais um episódio do que na anterior – são dez episódios no total. “E ainda realizei o quinto episódio.” Já em Falling Skies, série de ficção científica que protagonizou durante cinco temporadas e que este ano chegou ao fim, Wyle tinha realizado um episódio. “Era algo que queria fazer há muito muito tempo. É uma experiência completamente diferente porque quando estás a actuar és apenas uma fatia da pizza, mas quando realizas és a pizza inteira”, conta o actor. “É uma grande responsabilidade e ao mesmo tempo é a tua visão. Quando és actor, tens uma ideia, de vez em quando, que sugeres e que talvez aceitem ou não, talvez estejas certo ou não. Mas quando és realizador és tu que tens de perceber se estás certo. E eu gostei muito de ter esse tipo de controlo.”

Olhando para trás, o actor confessa ter ficado nervoso com a ideia de voltar a um personagem há muito esquecido no tempo. “Pensei que talvez já nem me lembrasse mas a verdade é que tive imensas saudades”, diz, contando que só agora foi possível voltar a pegar em The Librarians porque os direitos da saga tinham sido perdidos. “Foram precisos sete anos para os recuperar e, nessa altura, o canal que tinha feito os filmes [o TNT] já não estava a fazer filmes mas séries de televisão.”

É uma tendência não se apostar mais em telefilmes? “É uma questão de custo. Não acho que agora se consiga recuperar o investimento de uma forma tão fácil. O jogo está a mudar tanto que se está a tentar perceber como é que os novos modelos vão ser”, diz Wyle. “É entusiasmante porque há tantos canais diferentes e uma procura por conteúdo de uma forma que há muito tempo não acontecia”, continua, defendendo que “as pessoas estão a ter a oportunidade de ter pontos de vista distintos com produções como Mr. Robot [estreia sexta-feira no TVSéries], que é uma série muito interessante que provavelmente nunca teria ido para o ar há cinco anos”.

Mas alerta: “Não se pode ter tanto conteúdo por aí, esta procura de conteúdos e de audiências a certa altura vai explodir, colapsar e só alguns é que poderão continuar”.

The Librarians onde é que fica no meio disto, perguntamos. Como é que se consegue desmarcar da concorrência? “É incrivelmente difícil”, responde Wyle. “Mas se estamos a fazer o nosso trabalho correctamente The Librarians é uma série mais light. É entretenimento, no sentido de ser divertido, o que vai um pouco na contracorrente de muitos dos programas que são mais tensos, muito cínicos, negros, sexualizados. The Librarians é uma série ao estilo antigo, é entretenimento para toda a família”, continua, explicando que esta “é uma série de adultos que é feita para miúdos”. “E até agora tem resultado. Não há garantia de renovação, é uma decisão que se toma ano a ano”, diz, realçando como a série foi renovada para esta segunda temporada numa altura em que a direcção do TNT mudou com a intenção de dar uma nova orientação ao canal, “para que se aproxime mais do AMC ou do FX”. “Acho que de uma forma estranha esperavam que tivéssemos uma prestação fraquinha para que pudessem cancelar. Mas tivemos bons resultados e obrigámo-los a parar e a pensar. Estou curioso para saber se haverá uma terceira temporada. Se o público estiver lá, são quase forçados.”

Noah Wyle fala com o conhecimento de quem anda nisto há já muito tempo. Tem 44 anos, metade dos quais passado à frente das câmaras. Ele que ainda hoje é lembrado pelo seu papel em Serviço de Urgência, a série que passou na televisão entre 1994 e 2009. É o actor com mais episódios na aclamada série. Foram 254 na pele de John Carter. “Nunca imaginei isso, nem num milhão de anos. Sinto-me grato mas mesmo quando consegui o trabalho na série achei que teria seis, sete episódios e seria cancelada e em vez disso foram 15 anos da minha vida”, diz, vendo em Serviço de Urgência o início de uma nova era na televisão. “Tinha um ritmo mais rápido, fomos a primeira série que realmente utilizou a steadicam, que permite mais takes ininterruptos. Além de que fomos a primeira série a não seguir a tradicional história de A, B ou C”, defende.

Se fosse director de programas, diz o actor, “quereria uma variedade de séries, algo que desse para todos”. E aí entra The Librarians. “Mas há uma coisa estranha a acontecer agora, muitos destes canais são detidos por um conglomerado de empresas de média, cujas receitas não tem nada a ver com o sucesso ou o falhanço dos programas televisivos. E como o lucro não é mais o incentivo principal, mas sim o prestígio, que vem na forma de capas de revista e troféus, temos uma situação onde estes canais pela primeira vez não estão tão interessados em fazer dinheiro como em parecerem bem”, afirma. E defende: “Breaking Bad é uma série fixe mas não foi pensada para ser fixe mas para ser diferente, com um ponto de vista original, sobre algo que nunca tinha sido falado na televisão. Aconteceu que funcionou muito bem e portanto é fixe. Mas se disseres que queres fazer uma série como Breaking Bad, uma série fixe, estás a olhar para o lado errado. Estás a procurar um resultado antes de teres começado sequer o processo.”

O PÚBLICO viajou a convite do SyFy