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Regressar ao movimento dos retornados

A exposição Retornar - Traços de Memória abre uma iniciativa da EGEAC, que recorre à memória para lançar a reflexão sobre o movimento dos retornados, em vários espaços de Lisboa.

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Exposição Retornar – Traços de Memória Rui Gaudêncio
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Exposição Retornar – Traços de Memória Rui Gaudêncio
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Joana Gomes Cardoso, presidente da EGEAC, Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e Catarina Vaz Pinto, vereador da Cultura de Lisboa Rui Gaudêncio
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Exposição Retornar – Traços de Memória Rui Gaudêncio

A EGEAC inaugurou esta quarta-feira a exposição Retornar – Traços de Memória, na recente Galeria Av. da Índia, em Lisboa. A exposição está integrada numa iniciativa da Empresa Municipal de Cultura de Lisboa que marca os 40 anos do movimento dos retornados e, até dia 29 de Fevereiro, traz para o presente as memórias de um passado recente, em vários espaços da cidade.

A iniciativa parte da investigação da antropóloga Elsa Peralta, comissária da exposição, e tem como ponto de partida uma intervenção urbana com contentores junto ao Padrão dos Descobrimentos, que se serve de uma fotografia de Alfredo Cunha tirada em 1975. Como explica a comissária, a exposição “é sobre a memória” e apresenta “traços da memória do movimento que ficou conhecido por retorno”, reunindo documentos sobre os movimentos migratórios, testemunhos de quem viveu o acontecimento, jornais da época que contam a História à medida que ela foi acontecendo, documentos que mostram o apoio prestado aos retornados, álbuns de família dos retornados e objectos da época.

A presidente do Conselho de Administração da EGEAC, Joana Gomes Cardoso, esclarece que a exposição pretende “reflectir sobre o fim do império colonial português e o que ele representa hoje” e cruza “investigadores e artistas, coordenados por Elsa Peralta”. Da equipa fazem parte investigadores como Bruno Góis e Cláudia Castelo e artistas como Manuel Santos Maia e Bruno Simões Castanheira.

Para Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), a iniciativa significa o fim da “tendência para desvalorizar a memória colectiva" que se tem verificado, "talvez por ser um processo doloroso”. O responsável máximo do município diz que não se tem lidado bem com o tema dos retornados, lembrando que a memória e a História servem para "preparar o futuro” e reiterando o empenho da CML em “recuperar e preservar a História”.

Elsa Peralta destaca o papel que o objecto assume na memória e, em particular, na exposição. “A colaboração do artista plástico Manuel Santos Maia traz precisamente essa dimensão material dos objectos da recordação”, afirma. O mesmo se passa com a secção em que colaborou Joana Gonçalo Oliveira – “é composta por 56 molduras com cerca de 600 fotografias retiradas de álbuns de família [de retornados], e mostra como recuperamos e recordamos este passado, que está vivo, mesmo que ao longo destes 40 anos não tenha sido publicamente discutido e debatido”, acrescenta a comissária, que defende que, apesar de ser um tema “ideologicamente muito carregado, tanto à esquerda como à direita”, já devia ter sido discutido "há mais tempo, como um acto de cidadania”.

Elsa Peralta acrescenta que, do ponto de vista institucional, esta “é a primeira vez, com a excepção do Monumento ao Combatente, em Belém", que um organismo público "patrocina uma discussão sobre esta matéria, e isso é assinalável”, apesar de terem surgido, “nos últimos anos, algumas iniciativas sobretudo no campo artístico e literário, que sugerem uma reflexão”.

A par da exposição, com entrada livre e visitas comentadas programadas, o programa da iniciativa inclui, no Padrão dos Descobrimentos, debates com figuras como Eduardo Lourenço, Adriano Moreira e Dulce Maria Cardoso e a performance Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas, de Joana Craveiro.

O São Luiz Teatro Municipal, por sua vez, acolhe o espectáculo Portugal Não É Um País Pequeno, de André Amálio. Em parceria com o Centro de Estudos Comparatistas da Universidade Lisboa, será ainda publicado o livro de ensaios Retornar – Traços de Memória num Tempo Presente e será disponibilizado um site onde o público pode deixar fotografias e contributos, participando na reflexão que a iniciativa propõe.

Texto editado por Sérgio C. Andrade

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