Crítica

No círculo mais íntimo das personagens

O desafio de Cidade em Chamas não são as suas mil páginas. O desafio é ver se a vontade de captar o espírito de um tempo - Nova Iorque, anos 70 - se cumpriu sem cedências fáceis.

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O primeiro e grande obstáculo a vencer é o das mil páginas. O que pode levar um leitor a dedicar tanto tempo a um romance de estreia de um escritor de quem mal se ouviu falar a não ser o facto desse romance antes de estar escrito ter sido disputado por 12 editores e recebido um adiantamento de dois milhões de dólares? Mas será isso garantia de qualidade? 

Cidade em Chamas, o romance de estreia de Garth Risk Hallberg situado na Nova Iorque dos anos 70, é grande mas não está isolado nessa categoria. Purity (Dom Quixote) de Jonathan Franzen, tem 700 páginas; O Pintassilgo (Presença), de Donna Tartt, tem quase 900, assim como Os Luminares (Bertrand) de Eleanor Catton, vencedor do Booker em 2013, e Litlle Life, um dos finalistas deste ano, da havaiana Hanya Yanagihara, tem quase 800. Em nenhum dos casos o volume de páginas terá sido um problema e há quem já defenda que existe uma apetência actual por livros grandes. Mas à excepção de Os Luminares — que foi legitimado pelo selo Booker, com toda as ressalvas sobre a avaliação —, Cidade em Chamas é a estreia de Garth Risk Hallberg no romance.

E é um livro ambicioso onde mais do que a sua extensão o desafio é o de ver se a vontade do escritor de captar num livro o espírito de um tempo se cumpriu sem cedências fáceis. O autor parte de uma trama aparentemente simples — a morte de uma rapariga em Central Park na passagem de ano de 1976 para 1977 — para desenhar um mapa complexo de relações a partir do qual pretende reconstituir a vida em Nova Iorque nesse tempo. Para isso, socorre-se de um núcleo alargado de personagens que tipifiquem a diversidade urbana naquele período.

Seria exaustivo nomeá-las. Muitas são personagens em ruptura com as origens, geográficas, familiares, sociais, ou tudo isso. Como Mercer, o rapaz negro dos sul dos Estados Unidos que chega a Nova Iorque com a vontade de escrever o Grande Romance Americano, tarefa que vai protelando enquanto assiste às derivas criativas do namorado, William Stuart Althorp Hamilton-Sweeney III, o herdeiro rebelde de uma família poderosa do Upper East-Side, que renega a herança, ex-músico e agora pintor “a tratar da sua própria magnum opera”.

Entre os solitários, destaque para Charlie, um judeu de 17 anos, que vive nos subúrbios com a sua “presunção de singularidade” e que sonha com a Nova Iorque cantada por Patti Smith em Birdland; ou Sam, vizinha de Charlie, a filha do pirotécnico abandonado pela mulher que o trocou pelo professor de Ioga, uma rapariga física e intelectualmente desenvolvida para a idade que se envolve com o submundo musical do Village e o apresenta a Charlie. “Greenwich Village numa sexta-feira à hora do almoço era o oposto a tudo o que Charlie detestava nos subúrbios. Havia gente em toda a parte, músicos, de rua, cheiros de quinze comidas diferentes a emanarem de portas abertas.” O espanto de Charlie é também o do jovem Garth. Com Mercer e Sam, é a personagens que denuncia mais traços autobiográficos. Mas salientes-se o jornalista Richard Groskoph, alguém com uma “fraca noção do eu” que parece fornecer a Hallberg o tom neutro, transparente, para escrever este romance, inspirado em Truman Capote e no seu A Sangue Frio, o narrador que sabe tudo e se ausenta, deixando passar através da “falta de uma personalidade fixa” a complexidade do que o rodeia.

É nessa aparente neutralidade que o escritor sustenta o realismo da sua narrativa. Ela evidencia, por vezes, contágio com obras mais experimentais, sobretudo nas imersões interiores de personagens em desespero, queda ou êxtase. Seja a depressão de Richard, uma trip de heroína de William, ou a descrição de um concerto num clube. O mistério do assassinato inicial parece apenas um pretexto para falar de tudo isso, e o encadear dos factos é o que mais falha. Por vezes há a sensação de que o livro se alonga demasiado com a trama que ora fica demasiado visível ora perde-se na voragem de tudo querer dizer.

Não é no enredo que reside a força deste livro, mas na capacidade de imersão do autor no círculo mais íntimo das personagens, no modo como usa a linguagem para revelar essa intimidade mas também para descrever ambientes - muitas vezes próxima da poesia, outras do cinema. Perde sempre que faz cedências ao entretenimento. Felizmente o bom de Garth Risk Hallberg sobrevive a isso.