Após vitória eleitoral, Erdogan lança nova vaga repressiva

Acção contra aliados de Fethullah Gülen e bombardeamentos a alvos curdos no Iraque e no sudeste da Turquia, os primeiros depois das eleições.

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Protestos contra as eleições, no domingo, em Diyarbakir BULENT KILIC/AFP

Os mais preocupados com os riscos do autoritarismo na Turquia parecem ter razões para apreensão. A polícia deteve nesta terça-feira 44 pessoas, incluindo três ex-governadores provinciais, e emitiu mandados de captura contra outras 13, no âmbito de uma investigação ao imã Fethullah Gülen, rival do Presidente Recep Tayyip Erdogan.

A acção policial contra partidários de Gülen ocorreu em Izmir e noutras 17 províncias. Entre os detidos estão também um ex-chefe de polícia e altos funcionários suspeitos de “actividade à margem das autoridades”, segundo fontes da agência Anadolu. Na sua posse teriam “documentos militares e documentos confidenciais”.

Fethullah Gülen, antigo aliado de Erdogan, está exilado nos EUA e dirige uma rede de escolas, organizações não-governamentais e empresas. Defensor da modernização do islão e do diálogo inter-religioso, é acusado pelo Presidente de ter criado um “Estado paralelo” para o derrubar. As operações policiais contra os seus interesses têm-se sucedido.

A desta terça-feira foi desencadeada pouco mais de 24 horas após as legislativas de domingo em que o partido do Erdogan, o AKP, islamo-conservador, recuperou a maioria absoluta com 49,4% dos votos, cerca dez por cento mais do que nas eleições de Junho.

Mas não foi o primeiro caso após a consulta eleitoral. Na segunda-feira, a polícia deteve os dois responsáveis da revista Nokta – que apresentou na primeira página a vitória do partido de Erdogan como “o início da guerra civil” – e apreendeu a edição. Esta terça-feira, um tribunal confirmou a prisão dos detidos.

“Na ausência de instituições capazes de fazer respeitar o equilíbrio de poderes num regime forte, é normal a preocupação sobre um eventual reforço das práticas autoritárias na Turquia”, disse à AFP Kemal Kirisci, analista da Brookings Institution, organização não-governamental de investigação com sede em Washington.

Ataques no Curdistão

Também esta terça-feira foi anunciado o bombardeamento pela aviação de bases de rebeldes curdos no Norte do Iraque e no sudeste da Turquia e a morte de três curdos.

As acções militares contra alvos do PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão, incluindo em Hakkari, no sudeste da Turquia, e em bases do outro lado da fronteira, nas montanhas do extremo Norte iraquiano, foram anunciadas pelo Estado-Maior. A organização curda é qualificada pelas autoridades de Ancara como “terrorista”.

Na província de Hakkari foram mortos dois jovens militantes do PKK, numa operação policial para desmantelar barricadas. Em Silvan, cerca de 60 quilómetros a Norte de Diyarbakir, onde no domingo houve protestos contra os resultados das eleições, foi morto um terceiro curdo, noticiou a Reuters.

Na campanha eleitoral, Erdogan defendeu um endurecimento da luta contra o PKK. Já esta terça-feira, o Partido Democrático do Povo (HDP), formação política pró-curda, apelou ao PKK para se abster do uso de armas e ao Estado para acabar com as operações militares e de polícia.

Os combates entre rebeldes e forças governamentais recomeçaram em Julho, pondo fim a um precário processo de paz iniciado no Outono de 2012 que não foi mais do que uma pausa num conflito que já fez mais de 40 mil mortos desde 1984, principalmente curdos.