Corpo do homem desaparecido durante as fortes chuvas foi encontrado em Boliqueime

Câmara de Albufeira admite condições para fazer um pedido de calamidade pública, depois do mau tempo de domingo. Dezenas de lojas ficaram destruídas e várias pessoas estão desalojadas.

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Albufeira foi o concelho mais afectado mas fortes chuvas também caíram sobre Loulé, Portimão, Olhão e Silves. Filipe Farinha

O homem que estava desaparecido desde a tarde de domingo em Areias de Boliqueime, em Loulé, foi encontrado esta segunda-feira sem vida a cerca de 100 metros do local onde estava o seu carro, submerso e sem ninguém no interior, disse à Lusa fonte da GNR de Faro. Loulé foi um dos concelhos do Algarve mais afectados pelas fortes chuvas e ventos, bem como Portimão, Olhão e Silves. Mas Albufeira foi o mais fustigado e onde se deram os maiores estragos.

O vice-presidente da Câmara de Albufeira admitiu esta segunda-feira que podem estar reunidas as condições para fazer um pedido de calamidade pública, após dezenas de lojas na baixa terem ficado destruídas pelas inundações de domingo. Em Albufeira, a Protecção Civil teve de retirar pessoas de habitações e estabelecimentos comerciais inundados. E ao fim do dia, várias pessoas tinham ficado desalojadas, sem que se saiba até ao momento quantas.

“Eventualmente, pela dimensão dos estragos causados pela chuva, podem estar reunidas as condições para fazer um pedido de declaração de calamidade pública”, disse o vice-presidente da autarquia, José Carlos Rolo. O autarca frisou, contudo, que ainda não foi feito o levantamento total dos estragos causados pela chuva intensa que inundou dezenas de estabelecimentos na baixa de Albufeira, situação que “ainda vai ser avaliada de forma criteriosa e objectiva”.

As buscas para encontrar o homem dado como desaparecido foram retomadas poucos minutos antes das 09:00 desta manhã em Areias de Boliqueime, disse à Lusa o comandante dos Bombeiros de Loulé. De acordo com o comandante Irlandino Santos, as buscas foram retomadas com uma equipa do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS) da GNR especializada neste tipo de ocorrências.

Segundo mesma fonte, a GNR encontrou durante a tarde de domingo uma viatura submersa e sem ninguém, mas era desconhecido o paradeiro daquele que seria o único ocupante, "um homem idoso que não voltou após ter saído de casa para fazer compras, encontrando-se incontactável". A viatura foi encontrada com um dos vidros partido, "desconhecendo-se se por força das águas ou de uma tentativa do ocupante de abandonar a mesma".

Rua transformada em ribeira

O pico mais intenso da pluviosidade nesta zona do Algarve deu-se entre as 14h e as 14h30. A rua dos bares de Albufeira transformou-se também numa ribeira. A chuva que caiu entre a madrugada e a tarde de domingo veio colocar a nu, de forma mais evidente, aquilo que já era conhecido: a baixa da cidade é uma zona de alto risco de inundações. Desta vez, a situação foi mais grave – a água entrou pelas lojas até quase ao tecto e a Praia dos Pescadores transformou-se num mar de lama, onde foram desaguar móveis, electrodomésticos, baldes e tudo o que a enxurrada apanhou pela frente.  

Em declarações à Lusa, o presidente da Associação de Comércio e Serviços da Região do Algarve (ACRAL), Victor Guerreiro, salientou que a situação provoca um duplo prejuízo aos comerciantes, já que durante um período indeterminado de tempo estarão impedidos de realizar receita.

“Além do prejuízo directo causado pelas cheias, os comerciantes ainda têm que limpar, fazer obras e comprar novas máquinas, o que implica um tempo de fecho e de inoperacionalidade que vai impedir a recuperação de receita”, afirmou. Segundo aquele responsável, os seguros nem sempre cobrem todos os estragos, pelo que aquela associação vai tentar obter apoios públicos para que os comerciantes possam fazer face aos prejuízos.

“O que aconteceu é impressionante e, sem dúvida, ruinoso para os comerciantes”, lamentou, lembrando, no entanto, que esta não é a primeira vez que a baixa de Albufeira sofre com as intempéries. O ribeiro que recebe as águas da zona norte de Boliqueime saltou das margens, não se distinguindo, durante a tarde, onde acabava a estrada e começava a linha de água. O túnel por baixo da linha de caminho-de-ferro da estação de Boliqueime funcionou  como um funil, tornando perigosa a circulação no local.

Santa Eulália destruída
Mal a precipitação deixou de se fazer sentir de forma mais intensa, centenas de habitantes saíram para a rua ver o espectáculo das águas em movimento. O miradouro do Pau da Bandeira foi dos locais mais concorridos. Uns recolhiam imagens, outros deixavam cair lamentos e críticas. “Já se sabia que, mais tarde ou mais cedo, isto iria acontecer”, observava o antigo pescador Orlando Neves, criticando a qualidade das obras da Sociedade Polis, levadas a cabo no tempo em que José Sócrates ocupava a pasta de secretário de Estado do Ambiente. O plano de requalificação da cidade transformou o local conhecido por ribeira numa área urbanizada, que hoje se chama Avenida da Liberdade. Mas o pior foi que em “em vez de aumentarem o diâmetro das manilhas das águas pluviais, reduziram-no”.

Não foi só na cidade que o mau tempo se fez sentir. A ribeira que entra na praia de Santa Eulália saltou do leito, partiu os pontões e a ponte de madeira de acesso à zona balnear ficou destruída. Na fonte de Boliqueime as águas que escorreram da zona do barrocal chegaram ao cruzamento da Estrada Nacional 125 e o local a que uns chamam poço e outros fonte de Boliqueime converteu-se  num lago, com a água a chegar a meio das portas das viaturas.

Na fronteira do concelho de Loulé com Albufeira, as canas que se juntaram nos pilares da ponte do Barão formaram uma espécie de barragem, e as águas inundaram os campos em redor.

 

Críticas à Protecção Civil
A Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Protecção Civil (Asprocivil) veio entretanto criticar a Autoridade Nacional por não ter alterado domingo o estado de Alerta Especial Azul no Algarve, que estava sob Aviso Vermelho por previsão de chuva forte. "A Asprocivil não entende como é possível que a ANPC, tendo conhecimento da previsão de condições de Risco Extremo (Aviso Vermelho, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera) tenha mantido inalterado o estado de Alerta Especial Azul para aquela região”, revela a Associação, num comunicado enviado à Lusa, já esta segunda-feira.

No documento, a Asprocivil refere que a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) devia ter subido o nível de alerta, já que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tinha colocado sob Aviso Vermelho – nível de situação meteorológica de risco extremo – o distrito de Faro, devido à previsão de chuva forte entre as 9h e as 15h de domingo.

Revela ainda a Asprocivil que a medida do IPMA alertou “o país e a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) de que haveria a previsão de Risco Extremo de períodos de chuva forte e persistente”. E explica que, para a estrutura da Protecção Civil, o que conta “é o risco (definido em alertas pela ANPC) e não o perigo (definido pelo IPMA)”, considerando que a “omissão de decisão certamente levou a que a organização de Protecção Civil (Agentes da Protecção Civil: Bombeiros, Autoridades, Serviços Municipais de Protecção Civil ) demorassem mais tempo a responder operacionalmente ao evento que se abateu no sul do país". com Lusa