Havia magia no ZX Spectrum... e talvez alguma droga

Ninguém perdia muito tempo a pensar se uma sanita, podia realmente andar ali aos saltos, ou se salvar uma galinha seria mesmo um bom argumento

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Há muitas coisas fabulosas no passado dos videojogos. Uma das mais famosas é o ZX Spectrum, da Sinclair Research — o pequeno computador, ou aliás, microcomputador, que marcou, talvez até com alguma magia, gerações nos anos 80, e algumas nos anos 90.

O som tão característico do Spectrum é sem dúvida nenhuma parte do seu encanto. Aqueles breves minutos duma tão nobre sinfonia, provavelmente ficou registada para todo o sempre na memória de muitos. E não, não dava tempo para ir almoçar ou dar uma volta, ou fazer os TPC. Bem sei que a memória por vezes prega-nos partidas, mas, na verdade, aquele período de espera era pequeno.

E, para tirar todas as dúvidas, eu próprio fui fazer a experiência. Peguei no velhinho 48K, nas cassetes dos meus jogos preferidos, no monitor Neptune, e num cronómetro (obviamente já estão a ver onde quero chegar). Ora bem, isto foi o que registei: “Chuckie Egg” (uns fantásticos 2:03 minutos), “Manic Miner” (3:11), “Dan Dare” (3:56), “Bubble Bobble” (3:50), “Dizzy” (4:34), “Paperboy” (4:57), “Jet Set Willy” (2:47)... Por isso, estamos bem longe da lenda das dezenas de minutos, que muitos afirmam. Mas, pronto, vá lá, quase cinco minutos, sempre dá para ir a casa-de-banho e voltar.

Talvez hoje estejamos todos mal habituados. Se algo demorar uns miseráveis dois minutos, provavelmente vamos ver as noticias nas redes sociais, colocar algum pequeno vídeo a correr, consultar o telemóvel, fazer “zapping” na televisão e, se calhar, até ler algum pequeno artigo nalguma revista, que ficou por acaso na sala. Por outras palavras, o tempo é agora medido de forma diferente.

Honestamente, não troco essa magia por outra qualquer. Ainda hoje, sei bem que posso usar um leitor digital, invés do eterno companheiro do Spectrum - o leitor de cassetes - mas, não o faço. Prefiro ouvir aquela sinfonia e, já agora, deslumbrar-me com aquele espectáculo de cores, digno de um concerto dos Pink Floyd — evidentemente alguém estaria sob efeito de várias substâncias suspeitas. Todo este ensemble, faz parte do encanto de jogar videojogos há quase 30 anos. E será que valia a pena? Oh, meus amigos, então não valia! Só para ter a oportunidade de jogar com um agricultor, que tem de salvar uma galinha, ou andar em túneis a fugir de sanitas, ou quiça, jogar contra camelos cuspidores de fogo! Afinal, quem precisava de realismo? Aquilo tudo fazia sentido, nas mentes colectivas dos anos 80 e 90. Ou então, havia mesmo demasiadas substâncias suspeitas (tantos nos autores, como no público).

Olhando bem para trás, reparo igualmente que ficamos mal habituados. Agora, os novos jogadores perdem tempo a discutir se os jogos deviam ter mais personagens femininas, se é mesmo “real” apanhar com tantos tiros no lombo ou ainda se aquele título está historicamente correcto. Para quê? Jogadores como eu, aceitavam qualquer coisa, por muito ridículo que fosse. Ninguém perdia muito tempo a pensar se uma sanita, podia realmente andar ali aos saltos, ou se salvar uma galinha seria mesmo um bom argumento, ou mesmo se um ovo gigante com dois olhos gigantes, aos saltos em piruetas, faria sentido.

Por vezes ainda penso, será que me estou a tornar num velho do Restelo? Como será o apelo nostálgico destas novas gerações? Vão andar ainda mais preocupados com todo o discurso politicamente correcto? Qual será a sua magia? A minha, para o melhor, e para o pior, já está cravada na minha mente. Um pequeno microcomputador preto, com teclas em borrachas, jogos em fita magnética e períodos de “loading” lindos, fantásticos, de uma beleza infinita, acompanhados pelo maior espectáculo multimédia alguma vez visto num pequeno quarto nos arredores de Lisboa, durante os anos 80. Essa sim, era a minha droga mágica.

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