O novo edifício de habitação no Cinema Europa vai dar tecto à cultura

A proposta de construção de um espaço cultural com biblioteca no Cinema Europa foi financiada por Orçamento Participativo. O espaço é inaugurado em 2016.

Foto
A escultura de baixo-relevo da Deusa Europa do escultor Euclides Vaz foi mantida Enric Vives-Rubio

O novo edifício do Cinema Europa – agora dedicado à habitação depois de o antigo ter sido demolido em 2010 – terá no seu piso térreo uma área cultural que integrará uma biblioteca e uma sala polivalente. Este novo local pretende servir a população e “preservar a memória do Cinema Europa do ponto de vista cultural”, refere Pedro Cegonho, presidente da junta de freguesia de Campo de Ourique. O protocolo de delegação de competências para a utilização do espaço foi assinado esta segunda-feira.

A assinatura do protocolo passa a gestão do espaço para a Junta de Freguesia de Campo de Ourique e serve como contratualização para realizar a obra de instalação do espaço cultural. O protocolo foi assinado no Edifício Cinema Europa, localizado no gaveto da Rua Francisco Metrass e da Rua Almeida e Sousa. Estiveram presentes o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, e a vereadora da cultura, Catarina Vaz Pinto.

“Nesta zona não há nenhuma biblioteca que sirva a população”, afirma Pedro Cegonho, acrescentando que existe uma grande comunidade escolar nas redondezas e uma grande parte da população está reformada, razão que torna este equipamento uma mais-valia. “O principal objectivo é que todos possam usufruir deste espaço”, acrescenta.

O presidente da junta explica que a biblioteca será “a âncora do projecto” pretendendo-se que seja “moderna, com acesso a novas tecnologias”, com wi-fi público, uma zona de estar, um espaço de leitura para adultos e outro para crianças. O espaço também terá uma sala polivalente com uma “estrutura muito flexível para programas de tipologias diferentes”, refere o autarca. “Pode albergar uma exposição de pintura, concertos, actividades de formação ou mesmo uma reunião de condomínios se não tiverem espaço onde reunir”, exemplifica. O equipamento será inaugurado em 2016.

Uma história atribulada
A própria história do Cinema Europa dava um filme: foi projectado pelo arquitecto Raúl Martins e inaugurado no final de 1930. Encerrou passado pouco tempo e em 1936 é reaberto depois de uma remodelação do arquitecto José Carlos Silva.

Em 1958, o edifício é demolido e é construído no mesmo local o novo Cinema Europa, inaugurado em 1966 com o projecto de Antero Ferreira e escultura de baixo-relevo da Deusa Europa do escultor Euclides Vaz. Nesta altura, funcionou como cinema mas também como estúdio para concursos televisivos.

Fechou portas em 1981 mas só em 2004 se fez a desafectação do espaço, como se pode ler na proposta de programa funcional do Espaço Cinema Europa, cedida ao PÚBLICO pelo presidente da junta.

Em 2010, foi demolido e no seu lugar é construído um novo edifício de habitação, a cargo da construtora Granvale, que manteve a figura de baixo-relevo na fachada do edifício. O piso térreo foi adquirido em Dezembro de 2013 pela Câmara de Lisboa, um processo feito no âmbito de licenciamento no valor de 1,4 milhões de euros. Pedro Cegonho diz que “a memória do cinema continuará a existir” no Espaço Cinema Europa.

O movimento cívico SOS Cinema Europa surge em 2005, mobilizado com o objectivo de criar um equipamento cultural no rés-do-chão do novo edifício. O grupo apresentou uma proposta no âmbito do Orçamento Participativo de 2009/2010 da CML, tendo sido a segunda proposta mais votada.

Foi atribuída uma verba de 690 mil euros para a concretização do projecto: 498 mil servirão para a obra de execução e 176 mil para a aquisição de bens móveis e de mais de 8000 livros. Qualquer valor restante será utilizado na compra de mais livros.

O grupo SOS Cinema Europa também participou na elaboração da memória descritiva e justificativa do projecto e ajudará na gestão do plano cultural. Apesar de ainda não haver um plano de actividades definido, o presidente da junta acredita que vão conseguir apresentar “uma grande oferta cultural”.

O projecto de construção do novo edifício gerou alguma polémica pois previa-se inicialmente a total demolição do Cinema Europa e a construção de um edifício unicamente residencial. O movimento SOS Cinema Europa denunciou a situação que se resolveu com a reserva do rés-do-chão para eventos culturais.

Texto editado por Ana Fernandes