Adolescentes: e se eles percebessem melhor como funciona o seu cérebro?

É um livro escrito por investigadores e por adolescentes que vai ser apresentado neste domingo, em Lisboa. Uma das teses é esta: “Aumentar os conhecimentos dos jovens sobre as bases neurológicas dos seus comportamentos” pode ajudá-los a lidar melhor consigo próprios.

Uma boa mensagem para os pais, nesta senda do que se sabe agora das neurociências”, é que devem evitar discutir com os miúdos “a quente”
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Uma boa mensagem para os pais, nesta senda do que se sabe agora das neurociências”, é que devem evitar discutir com os miúdos “a quente” Ricardo Silva

Considera-se que um adolescente está em privação de sono se dorme, em média, mais três horas ao fim-de-semana do que durante a semana — ou seja, se aos sábados e domingos tenta recuperar o que não dorme nos dias úteis. Dados: quase 20% dos estudantes portugueses do 8.º e 10.º ano sofrem de privação de sono. E o uso dos telemóveis tem algo a ver com isso

Noutro estudo realizado recentemente “cerca de 16% dos jovens referiram que a primeira relação sexual foi com um amigo ou amiga”. A forma como a sexualidade tem vindo a transformar-se passa também por aqui: “Os jovens estão a diminuir o número de relações sexuais com estranhos, estão a aumentar o número de relacionamentos de amizade colorida” e “o número de relacionamentos estáveis” que se inicia dessa forma também se encontra a subir.

E o que dizem os mais recentes estudos das neurociências sobre o comportamento de alguém que tem 15 ou 16 anos? De tudo isto fala o livro Dream Teens — adolescentes em navegação segura, por águas desconhecidas. Numa linguagem simples, são passados em revista algumas das mais recentes investigações feitas em Portugal e no mundo, nos últimos anos, sobre a adolescência. É apresentado neste domingo, na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, no segundo encontro nacional Dream Teens, onde participam 300 jovens entre os 11 e 19 anos, de todo o país.

O livro tem uma característica especial: foi escrito por investigadores séniores e por adolescentes. A psicóloga Margarida Gaspar de Matos, que integra a equipa do Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial de Saúde (OMS), é a coordenadora da obra e a mentora do projecto Dream Teens — criado no ano passado pela associação Aventura Social, em parceria com a Fundação Gulbenkian e a Sociedade de Psicologia da Saúde, e que resultou na constituição de uma rede nacional de “adolescentes consultores de saúde” com 126 membros.

Por debaixo dos lençóis
Um dos artigos da obra agora concluída é escrito por Teresa Paiva, neurologista especializada em doenças do sono. Diz que a privação de sono “atinge 18,9% dos estudantes do 8.º e 10.º ano, sem diferenças entre sexos”. Que “o uso de telemóveis aumenta muito na privação de sono” tal como “o uso de computador, Internet e redes sociais”. E que “os comportamentos de risco (álcool, drogas, violência, actividade sexual precoce e sedentarismo) são mais frequentes” entre estes jovens, para além do excesso de peso e obesidade, diabetes tipo II e perturbações do comportamento alimentar.

“Antigamente os miúdos tinham os computadores e a televisão e isso influenciava os hábitos de sono”, explica Margarida Gaspar de Matos. “Só que agora o telemóvel tem televisão, tem Facebook, é pequeno, e vemos os miúdos na cama, com os lençóis em cima da cabeça e a luzinha por debaixo. Com os computador os pais diziam ‘Vai-te deitar, desliga isso’. O telemóvel dá menos nas vistas e os miúdos estão pela noite fora a conversar uns com os outros.” Resultado: passam a semana cansados, desconcentrados, estão numa fase “em que, pela própria maturidade do sistema nervoso, que é menor, têm mais dificuldade em se regular do que os adultos”.

A OMS reserva o termo “adolescentes” para os rapazes entre os 10 e os 19 anos e para as raparigas entre os 9 e os 19. Mas as coisas são mais complexas.

“Antigamente achava-se que estávamos maduros aos 15 ou 16 anos”, diz Margarida Matos. “Mas descobriu-se entretanto que há um hiato entre o desenvolvimento cognitivo e o desenvolvimento emocional, o que significa que aos 15, 16 anos um adolescente está perfeitamente apto para dizer coisas sensatas, para decidir a sua carreira, para tomar uma posição de cidadania, quando está ‘a frio’, como nós dizemos no livro, mas quanto se fica com uma tentação à frente, sobretudo quando não está a ser monitorizado por adultos — e ainda mais quando está na presença de amigos na mesma idade —, a tendência para o risco mais do que duplica.”

Mensagem aos pais
Com estes conhecimentos das neurociências, há quem tenha passado a defender uma “estratégia educativa proibicionista”, conta Margarida Matos. A tese é esta: se os adolescentes “ainda não têm maturação cerebral para tomar conta deles, então não interessam para nada programas de promoção de competências sociais”, como o Dream Teens, exemplifica, “porque eles não são capazes" e "o que é preciso é ter políticas mais restritivas, proibir coisas, ser mais disciplinador”.

Mas muitos outros entre os quais Margarida Matos, dizem que não funciona assim. O livro explica: “O cérebro desenvolve-se em interacção com o ambiente e seus desafios. Por isso mesmo, infantilizar os jovens e desresponsabilizá-los até à idade da maturidade biológica não parece uma estratégia de saúde pública eficaz.” O que se defende é algo diferente: “Por um lado, aumentar os conhecimentos dos jovens sobre as bases neurológicas dos seus comportamentos e do seu desenvolvimento; por outro , aumentar as suas competências de tomada de decisão, resolução de problemas, auto-regulação.”

A psicóloga diz que “o que é uma boa mensagem para os pais, nesta senda do que se sabe agora das neurociências”, é que devem evitar discutir com os miúdos “a quente” — “os adolescentes discutem mal”, descontrolam-se.

“As regras lá em casa têm de ser estabelecidas ‘a frio’, tem de ser explicado o que acontece se as coisas não forem feitas, mas isto quando as pessoas estão tranquilas. Para que, quando a coisa aquece, em vez de haver uma discussão, o adulto dizer: ‘Não foi nada disso que combinámos, vamos ver o que combinámos.’ Depois, estes trabalhos recentes sobre a maturidade cerebral são coisas que os adolescentes conseguem perceber e se lhes for explicado, eles próprios conseguem gerar estratégias para lidarem com eles mesmos, quando estão ‘aquecidos’, digamos assim.”

Há um ano, no primeiro encontro Dream Teens, os jovens entregaram ao então secretário de Estado da Saúde, Leal da Costa, um conjunto de recomendações. “Manter os 16 anos como idade mínima para a compra de bebidas alcoólicas como o vinho e a cerveja” era uma delas. Em Julho entrou em vigor a lei que proíbe a venda de qualquer tipo de álcool a menores de 18. Neste domingo, Leal da Costa deverá voltar a fechar o encontro dos “teens”, desta feita como ministro da Saúde.