O que é que a favela tem? Tem literatura, tem

A FLUPP é uma FLIP nas alturas da favela carioca. A ambição não é pequena: uma reforma agrária da literatura brasileira. Encontro no Morro da Babilónia, na laje do chefe Júlio Ludemir.

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Há dois anos, Júlio Ludemir perdeu dinheiro, casamento e moradia e decidiu subir o morro Kathleen Gomes

“Com essa vista, não tem depressão que aguente”, diz Júlio Ludemir do alto da casa onde mora, encarando 180 graus de mar azul da praia do Leme. Até há dois anos, Júlio morava com a família num apartamento – “nada de extraordinário, mas uma boa casa de classe média”, o que no Brasil quer dizer classe alta – por trás do Copacabana Palace. Depois perdeu tudo ao mesmo tempo: dinheiro, casamento, moradia, exactamente por essa ordem. Foi no ano pré-Copa, o Rio de Janeiro já se tornara demasiado caro para morar. Júlio fez o que nenhum brasileiro de classe média imagina fazer: subiu o morro. “Para morar aqui tem mais o gringo do que o brasileiro. O brasileiro não é democrático.”

Por mais que este pernambucano de 55 anos conhecesse as favelas cariocas como repórter e escritor, por mais que tivesse fontes e livre-trânsito entre bandidos da “boca de fumo” [tráfico de droga], por mais que tivesse sido o dinamizador da Batalha do Passinho – dança antropofágica, incorporando funk, break, kuduro, capoeira, e tudo o mais –, Júlio não era “um cara” de dentro, como Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus. Podia ir embora a qualquer momento, se babasse ele metia o pé.

Mas agora Júlio Ludemir é um morador do Morro da Babilónia. Agora ele sabe o que é passar três dias sem água em casa. Ou catar balas do cimento da sua laje, espécie de terraço dos pobres, que é onde estamos agora, com o mar do Leme em frente, um labirinto de construções inacabadas de tijolo vermelho aos pés, e urubus sobrevoando a cabeça. Júlio aponta o dedo para um ponto no morro logo acima da sua laje. “Em algum momento a polícia pressionou isso aqui e o Comando Vermelho foi embora. Foi ocupado por uma outra galera que transformou isso aqui num posto de observação. Houve um dia que houve uma troca de tiro aqui. Aqui na minha laje, no meu telhado, entende?”

Quando Júlio Ludemir veio morar para aqui, ele já era um dos directores de um festival literário que desde 2012 acontece nas favelas cariocas e por onde têm passado autores como Hanif Kureishi, Dulce Maria Cardoso, Lydia Davis ou John Banville. A quarta edição da FLUPP – Festa Literária das Periferias – terá lugar na próxima semana, entre terça-feira e domingo, no Complexo Babilónia/Chapéu Mangueira. Pela primeira vez, os convidados vão ficar alojados na favela.

“Só tem um que eu não vou hospedar aqui, que é um alemão de 70 anos, Uwe Timm, um grande romancista. Mas é muito mais por uma questão etária. Eu estou preparado, tenho uma reserva ali no [hotel] Tulip para alguns que eventualmente fiquem insatisfeitos, que digam: ‘Pô, eu sou um puta de um escritor, mereço melhor tratamento.’”, diz Júlio. “Beleza, cara, vai para lá e fica descolado de uma possibilidade de convivência aqui que é uma coisa sensacional.”

A favela mudou

Há uma razão para alojar todo o mundo na favela: a Babilónia tem condições para receber essas pessoas, Júlio já perdeu a conta aos hostels que existem, “e eles estão-se sofisticando cada vez mais”. “Existe um turismo de jovem europeu, americano, duro [teso], que não ‘tá querendo pagar não sei quantos dólares ali”, diz, apontando para o Leme, para a cidade “formal” – “e que descobriu a favela”.

“O cara que vinha para a favela há algum tempo atrás vinha para se drogar, vinha para dar para bandido, vinha por um outro tipo de coisa que não é mais o público que vem para cá. O público está vindo para cá porque essa vista é sensacional, porque é mais barato, porque o pastel custa cinco vezes menos. Se você vier num final de semana aqui, tem uma noite maravilhosa. O Bar do Alto é sensacional, o Bar do David é sensacional. Eles não dependem de mim, eles têm o seu próprio público. Eu é que estou tentando criar sinergias com eles. Só estou criando esse evento aqui porque não preciso pagar a uma preta aqui para fazer comida para o autor. ‘Tá com fome, bicho? Vai no Bar do David.”

Tem uma noite aqui, tem uma turma aqui, tem uma vida aqui – que atrai tanto o morador como esse agente externo. Não faço favor nenhum. É um negócio feito com muita clareza. Não me sinto salvador de nada. Não foi por uma expectativa de salvar alguma coisa que eu vim para cá.”

Não é como se Júlio Ludemir tivesse antecipado fazer a FLUPP na Babilónia quando veio morar para cá. “Não queria fazer. Eu defini porque, porra, eu estou aqui.” Geralmente, ele chega “meio de playboy”, descomprometido, nas favelas que acolhem a FLUPP, mas no caso presente não tinha como não se envolver mais a fundo, até ao último cabelo branco.

“Todas as pessoas que estão aqui sabem quem sou eu. Aqui eu sou um vizinho. Não tenho sobrenome, não sou artista. Aqui eu sou o Júlio.”

Morar na favela é uma vantagem na hora de montar uma FLUPP? “Sim. Mas não é uma vantagem na medida em que eu entrei no jogo político daqui. Acompanhei uma eleição para a associação de moradores com o cu na mão. Porque ali eu era duas coisas. Eu era um morador e claramente me posicionaria de um lado como morador. Só que se o grupo que eu apoiasse perdesse a eleição, eu ia ter de fazer a FLUPP com o outro lado. Aí eu entro nesse jogo...Desde o começo eu tive o que eu chamaria de uma sabedoria do Lula [da Silva, ex-presidente do Brasil]. O Lula não faz inimigos. Eu não me meti nos embates políticos daqui.”

Subindo a ladeira, onde se cruza com mulatos tatuados – “E aí? Tudo tranquilo?” – e onde passam moto-táxis com a declaração “Deus é fiel” no farol dianteiro, Júlio explica que a favela reage com desconfiança a tudo o que chega de fora. “Houve um momento, na história das favelas cariocas, que as ONGs, os projectos sociais, as políticas públicas tinham uma certa pureza – que se perdeu. Faz algum tempo que a favela tem uma relação fisiológica com tudo o que chega de fora – uma relação de clientelismo, num jogo bruto de toma-lá-dá-cá. Em que as comunidades sempre têm uma sensação de que estão sendo usadas e estão saindo perdendo.”

Júlio achava que ia ser mais fácil organizar a FLUPP na Babilónia, que o iriam receber de braços abertos por ser um morador, ainda para mais legitimado pelo seu historial de “coroa do passinho”, assim conhecido por ter sido um dos criadores da Batalha do Passinho, um projecto que lhe deu visibilidade em tudo o que é favela – e que o deixou “quebrado”, com uma dívida de 100 mil reais (23,5 mil euros), um dos motivos por que acabou por vir morar na Babilónia.

“A pergunta era sempre: ‘Qual é o legado? O que é que você vai deixar aqui?’ No tempo inteiro, aquela suspeita. À mesma, a gente partiu do zero e, da mesma forma, precisámos ter uma interlocução muito privilegiada de um ou dois actores dentro da favela que se tornaram nossos porta-vozes.”

Mais exactamente, o escudo foi Tatiana, negra e lésbica, com a mesma idade que o filho de Júlio, 36, dona da casa que ele alugou no morro. “Eu devo a FLUPP aqui a ela. Uma facilitação das relações políticas. Até pregar esse cartaz do festival”, diz, apontando para um poste. “A Tati comprou o meu barulho e isso deu uma pureza que sem ela não teria. Pureza no sentido: ‘Ele não é um escroto, ele não é um Eduardo Cunha [presidente da Câmara dos Deputados envolto em suspeitas de enriquecimento ilícito e corrupção] que está aqui para ganhar dinheiro.’”

Literatura na rua

A FLUPP 2015 vai ter como convidados Glenn Greenwald, o jornalista norte-americano, morador no Rio de Janeiro, que revelou Edward Snowden em primeira mão, Jean Wyllys, vencedor do primeiro Big Brother brasileiro, o primeiro deputado assumidamente homossexual do Congresso, eleito pelo partido de esquerda PSOL, e vários autores internacionais. A FLUPP pode ter nascido como uma FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty - das favelas, mas não é esse tipo de festival que vive de um cartaz de escritores-estrela.

“O que é fazer um festival na favela? O barato desse festival não é ele ser, geograficamente, numa favela. Nós somos um festival associado à ideia de produzir novos autores. Que produzam novas narrativas. Isso já é uma coisa que nos faz um festival muito particular. Já publicámos oito livros e estamos publicando mais dois. Já revelámos ou localizámos mais de cem autores.” Em Setembro, a Casa da Palavra, editora pertencente ao grupo LeYa Brasil, associou-se à FLUPP e iniciaram uma colecção conjunta, com curadoria de Júlio. Os primeiros três títulos são o romance de uma ex-chefe do tráfico de drogas da Rocinha (A Número Um, de Raquel de Oliveira), o livro de um jovem gay da periferia carioca (Sobre Garotos que Beijam Garotos, de Enrique Coimbra) e uma ficção que mete zombies na favela (Cidade de Deus Z, de Júlio Pecly).

A ambição da FLUPP não é pequena: “O que a gente está propondo não é só um festival. Você vai precisar ter um novo livro no Brasil”, diz Júlio Ludemir. Uma espécie de “reforma agrária da literatura brasileira”.

“Os grandes clássicos brasileiros são produzidos num momento em que o Brasil era um país rural. Porque era um momento em que a elite convivia com as classes populares nas grandes fazendas. Quando o Brasil se torna um país urbano, o novo autor vai ficar distanciado de 70% do país.” Um autor macho, de cabelo branco e pele branca, resume Júlio. “A literatura brasileira tem de se reencontrar com o seu país.”

A FLUPP quer dar um empurrão, fazer a literatura descer do seu castelo e ir para a rua – ou, no caso do Rio de Janeiro, subir a ladeira.

Todo o mundo topou – por ora.

“É, está topando até subir o morro”, diz Júlio Ludemir, rindo. “Quero ver na hora que eles entrarem ali.”