Dezasseis crianças morreram no Egeu, o mar da “vergonha” europeia

Refugiados contam que traficantes exigem menos dinheiro a quem fizer a travessia com mau tempo. Tsipras denuncia as "lágrimas de crocodilo" e a inércia dos parceiros europeus.

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Uma mulher segura o corpo de um dos bebés que morreram num naufrágio ao largo de Lesbos ARIS MESSINIS/AFP
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Um catamarã afundou-se nesta sexta-feira à vista da ilha de Lesbos ARIS MESSINIS/AFP
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Nadadores-salvadores e habitantes resgataram as 150 pessoas que seguiam a bordo Giorgos Moutafis/Reuters
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Entre elas viajavam muitas crianças e bebés Giorgos Moutafis/Reuters
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Os fotógrafos das agências internacionais captaram na manhã desta sexta-feira o desespero de 150 refugiados que foram salvos de um catamarã prestes a afundar-se à vista da ilha grega de Lesbos. Mas ninguém ouviu os gritos de outras 16 crianças que morreram afogadas durante a noite nas águas do Egeu, um mar cada vez mais frio, cada vez mais agitado. “Tenho vergonha”, disse o primeiro-ministro Alexis Tsipras no Parlamento grego, repudiando uma Europa que derrama “lágrimas de crocodilo” pelos que morrem no Mediterrâneo, mas que recusa receber as que se salvam.

Perdeu-se já a conta aos naufrágios que desde o início do ano tiraram a vida a mais de 3845 pessoas – os números da Organização Internacional das Migrações referem-se apenas àqueles cuja morte foi possível confirmar –, mas a rápida aproximação do Inverno ameaça torná-los ainda mais frequentes. E não é por falta de informação que tanta gente continua a arriscar a vida no mar.

Refugiados que chegaram à Grécia contaram à Reuters que os contrabandistas oferecem descontos de 50% sobre o dinheiro que cobram pela viagem nas lanchas de borracha – entre os 1100 e 1400 euros – a quem aceitar fazer a travessia com más condições atmosféricas. Percorrer as escassas milhas que separam a costa turca das muitas ilhas gregas do Egeu nos velhos barcos de madeira que os traficantes arrebanharam custa um pouco mais, entre 1800 e 2500 euros por cabeça. Nem uns, nem outros garantem segurança alguma aos refugiados que saem da Turquia, quase sempre a coberto da noite, sempre empilhados uns nos outros, na esperança de não ser já demasiado tarde para fazer a travessia.

A manhã descobre a miséria transformada em tragédia. Nesta sexta-feira, a polícia marítima grega encontrou 19 corpos ao largo da ilha de Kalymnos. Seis eram de mulheres, dez de crianças, duas ainda bebés. Outras 138 pessoas que viajavam no mesmo barco foram resgatadas no mar. Mais a sul, uma outra embarcação afundou-se junto à ilha de Rhodes. Uma mulher, uma criança e um bebé morreram afogados. Seis pessoas foram resgatadas e outras três estão desaparecidas. Quarta-feira um naufrágio ao largo da ilha de Lesbos fez pelo menos 24 mortos – 11 eram crianças.

Para outros a viagem é ainda mais curta. Os corpos de quatro crianças, que teriam entre um e quatro anos, foram encontrados no mar ao largo da costa turca, noticiou a agência turca Dogan. Tinham a mesma idade de Aylan Kurdi, o pequeno sírio que em Setembro foi arrastado para uma praia da estância balnear turca de Bodrum – a fotografia do seu corpo despertou consciências em todo o mundo, mas nas últimas semanas o número de mortos voltou a aumentar. Dos 68 cadáveres que a polícia grega tirou do mar desde o início do mês, mais de metade eram menores, adianta a AFP.

Muito longe dali, ao largo de Almeria, a polícia espanhola procurava na manhã desta sexta-feira 35 desaparecidos no naufrágio de um barco que partira na véspera de Marrocos. Quinze sobreviventes, 13 homens e duas mulheres, foram encontrados na véspera agarrados aos restos da embarcação, naquele que terá sido o pior incidente nas costas espanholas desde o início do ano.

Revolta grega
Das 700 mil pessoas que chegaram por mar à Europa desde o início do ano, 560 mil entraram pela Grécia, primeira etapa de uma longa caminhada até aos países ricos do Norte. Dali ouvem-se constantes críticas a Atenas, por registar apenas uma pequena parte dos refugiados, por não estar a proteger como devia as fronteiras externas da Europa.  

“Sinto vergonha, enquanto membro desta liderança europeia, tanto pela incapacidade da Europa para lidar com este drama humano, como pelo nível do debate entre os dirigentes, onde cada um passa as responsabilidades para o outro”, disse Tsipras nesta sexta-feira em Atenas, acusando os responsáveis “de alguns países europeus” de ignorarem que a lei marítima internacional obriga ao salvamento das pessoas em dificuldades no mar – foram quase 600 em apenas dois dias. “Há lágrimas hipócritas, de crocodilo, que estão a ser derramadas pelas crianças que morrem nas margens do Egeu. A morte de crianças gera sempre pena. Mas e as crianças que estão vivas e que chegam aos milhares e se acumulam nas ruas? Ninguém se importa com elas.”

No fim-de-semana, na mesma cimeira em que os países atravessados pelos refugiados que tentam chegar à Alemanha prometeram criar canais de comunicação entre si, Atenas aceitou criar centros de acolhimento para mais 50 mil pessoas. Questionado por um deputado da oposição sobre quem iria pagar por este acolhimento, que o ministro da Imigração admitiu que teria de ser subsidiado, o líder do Syriza foi contundente: “A Grécia está em crise. Somos um povo pobre, mas não abdicamos dos nossos valores e da humanidade e não estamos a pedir um único euro para cumprir o nosso dever em relação às pessoas que estão a morrer no nosso quintal”. E virando-se para o deputado, Tsipras acrescentou: “Não estou a falar para si. Estou a falar para os líderes europeus que gostam de apontar o dedo à Grécia”.

Não apontou nomes, mas no seu discurso pediu à UE que “condene oficialmente” a construção de muros nas fronteiras, numa referência à Hungria, o primeiro Estado-membro a vedar o seu território aos refugiados. O Governo de Viktor Orbán respondeu a Tsipras negando estar a “criticar ou a denegrir a Grécia”, mas insistiu que “a Europa, no seu conjunto, deve reencontrar a sua capacidade para controlar as fronteiras”.  

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