Adriana Queiroz revisita a canção francesa no CCB: “Uma música que toca a alma”

Em duas noites consecutivas, a 30 e 31 de Outubro, Adriana Queiroz (voz) e Filipe Raposo (piano) revisitam a canção francesa no CCB num concerto singular agora também em disco: Tempo.

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Adriana Queiroz numa apresentação de Tempo Rodrigo de Souza
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Adriana Queiroz numa apresentação de Tempo Rodrigo de Souza
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Adriana Queiroz numa apresentação de Tempo Rodrigo de Souza

Há quem a ache fora de moda, mas a canção francesa tem conseguido resistir ao tempo. E é precisamente com um espectáculo intitulado Tempo que Adriana Queiroz, bailarina que há vários anos abraçou o canto como extensão da sua arte, regressa às canções de Brel, Ferré, Trenet, Prévert, Boris Vian, desta vez em palco e em disco. “Este espectáculo estava no fim, e renasceu”, diz ela. E renasceu por causa do disco, gravado num repente, depois de mais um concerto com Filipe Raposo a acompanhá-la ao piano. “O espectáculo foi em Viseu, a um sábado, viajámos domingo e na segunda-feira dia 3 de Novembro de 2014, às 9 da manhã, estávamos em estúdio.” Gravaram tudo em três horas. Foi um desafio do Filipe, gravar tudo nessa manhã. E a maior parte das canções foi gravada à primeira.”

Com o disco na mão, e por causa dele, voltou o desafio dos palcos. Primeiro no CCB, em Lisboa, esta sexta-feira, 30 de Outubro, e sábado, dia 31 (no Pequeno Auditório, às 21h), depois em Loulé, Évora, Coimbra, Bragança e outros lugares que ainda virão. “Foi um prazer nosso, pôr isto em disco. Para mim, este espectáculo é a minha mudança de bailarina para cantora, para o Filipe é o primeiro espectáculo que fizemos juntos e desde aí evoluímos um com o outro, a nível musical.” Nascida em Novembro de 1963, filha dos cantores Tomé de Barros Queiroz e Mimi Gaspar, ele tenor e ela soprano, Adriana Queiroz estava no auge da carreira (chegou a ser primeira-bailarina do Ballet Gulbenkian, trabalhando depois com Olga Roriz) quando um acidente em ensaios a forçou a deixar o bailado. E ela, já imersa na música, arriscou o canto, em “concertos com uma linha dramatúrgica”. Weill, Brel, Nino Rota. E depois um disco, Ariadne, com direcção musical de Pedro Jóia.

Em “formato jazz”
Com direcção musical e arranjos de Filipe Raposo e misturas de Tó Pinheiro da Silva, Tempo, o disco, tem um alinhamento diferente do roteiro do espectáculo. “A minha ideia”, diz ela, “é sempre pôr-me no ponto de vista do ouvinte: quando começa uma nova música, nós queremos ouvi-la e esquecer a que está para trás. Faço sempre como me ensinaram: ouço sempre a última nota, para ver se a próxima está em acordo, se não há nenhuma crispação. O espectáculo vive dos vídeos, de tempos, mas o disco vive das canções. Foi minha vontade não gravar no disco os poemas e deixar só os temas.”

Na capa do disco há pequenos erros (como a atribuição de Est-ce ainsi que les hommes vivent apenas a Leo Ferré, quando o poema é de Louis Aragon) que Adriana Queiroz conta corrigir num livro de sala, muito completo, que será vendido como programa nas salas por onde o espectáculo passar. Mas a gravação foi, em si, foi mais que satisfatória. “Foi uma gravação em ‘formato jazz’, feita em estúdio mas como se fosse feita ao vivo.” Ne me quitte pas, de Brel, é o tema que fecha o disco, mas não era para entrar. “No palco, essa é a última música, o último encore, vive como um adeus. Gravei-a por gravar, mas o Tó Pinheiro gostou muito dela e convenceu-me a incluí-la também.”

No canto pela palavra
Porquê a música francesa? Adriana encontra explicação na memória. “Nunca me dissociei da música francesa. O Brel, para mim, é algo que me acompanha desde sempre. Essa geração, a do Brel, do Ferré, da Barbara, fascina-me pela maneira como utiliza a palavra, pelas mensagens que passa. As minhas memórias físicas de infância são de bailarina (comecei a dançar aos 3 anos), mas as musicais são destes autores. E se, como bailarina, eu só ouvia música clássica, esta acabava por ser a minha outra música. Em casa só podia ouvir isto, que era o que os meus pais ouviam, ou o que ouvia o meu irmão, mais velho do que eu: Genesis, Led Zeppelin, Yes, Jethro Tull.” Além disso, há a palavra. “Identifico-me com ela. Eu não chego ao canto pela voz, chego pela palavra.” E foi pela palavra que ela se ligou apaixonadamente à chanson. “Continuo a achar estes temas maravilhosos, é uma música que toca a alma, a emoção, aquilo que eu gosto.”