Crítica

Como eram lidos Os Lusíadas em Paderne

Uma obra fundamental para o estudo da épica de Camões e da sua recepção

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A parte principal dos comentários deixados em manuscrito aos três primeiros cantos do poema épico de Camões escritos pelo frade crúzio D. Marcos de S. Lourenço, também conhecido como D. Marcos da Silva, estão datados de 1631 a 1633, do Mosteiro da Torre de Paderne, no Alto Minho (terão sido obra de uma vida: continuava a fazer-lhes acrescentos depois da Restauração de 1640). Nascido em Coimbra, em data incerta, ainda vivia em Lisboa quando, em 1619, Filipe III de Castela veio a Portugal. Terá também passado por Santa Cruz de Coimbra, mas, ao que parece, foi nos cenóbios do Alto Minho que passou as décadas finais da sua existência.

Uma equipa orientada por Isabel Almeida editou e anotou, num português que dá gosto de ler, o manuscrito que é uma cópia tardia do comentário da autoria do referido frade crúzio. Um dos muitos tesouros dessa tão maltratada Biblioteca da Ajuda, onde D. Carolina Michaëlis tanto trabalhou. E, sem ser a benefício de inventário, mas de todos que prezam Camões e a literatura portuguesa, os autores de tão imenso trabalho, mobilizador de uma enorme erudição, são, além de Isabel Almeida, Filipa Araújo, Manuel Ferro, Teresa Nascimento e Marcelo Vieira. Em tempos de uma cultura dominante tão arredada do estudo de Camões e da prática humanista da erudição, será de colocar estes nomes numa genealogia de investigadores que remonte aos que estudaram Camões e os seus comentaristas de seiscentos, a saber, o Visconde de Juromenha e Teófilo Braga, sem esquecer, mais perto de nós, António Soares Amora, Eugenio Asensio, Jorge de Sena, Arthur Askins, Aníbal Pinto de Castro, Maria Lucília Gonçalves Pires e Hélio Alves. Frente a um trabalho tão imponente, limito-me a reconhecer algumas das lições, de filologia e história da literatura, do ramalhete composto por quem muito sabe acerca da literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII.

A primeira lição diz respeito ao modo de reconstituir o contexto da primeira metade do século XVII. Nele, insere-se uma intensa actividade não só literária, mas também de crítica ou comentário em torno de Camões e do seu poema épico. Em Évora, desde a última década de Quinhentos, polarizaram-se os grupos de letrados em torno quer de André de Resende, quer de Camões. O poema épico de Camões vai, no entanto, servir muitos outros propósitos nos meios literários peninsulares. Por exemplo, Eugenio Asensio reconstituiu, há muito, o modo como as traduções do poema corresponderam à rivalidade registada entre várias escolas ibéricas com uma forte identidade urbana. Jorge de Sena analisou como foi intensa a instalação de um outro grande comentador de Camões, Manuel de Faria e Sousa, em Madrid, entre os anos de 1624 e 1628; seguiu-se-lhe um silêncio editorial de 11 anos, até que o mesmo conseguiu publicar, em 1639, “um monumento máximo ao maior poeta português e a si mesmo como crítico”, capaz de esmagar, “com o seu peso de erudição e de análise estética, tudo o que de semelhante a Espanha havia produzido”. Na sequência do imponente comentário de Faria e Sousa, tiveram lugar várias polémicas na conjuntura da Restauração e da guerra de panfletos que dela decorreu. Enfim, a politização de que Camões foi alvo nessa mesma conjuntura continuou a cruzar-se com as polémicas mais propriamente literárias.

Impossível será desligar o “comento” de D. Marcos desse contexto que oscila entre a autonomização e a politização do literário. Ou seja, apesar das alusões à obra em causa na época tenderem a confirmar que se tratou de um trabalho desenvolvido na solidão do claustro, em Paderne ou mais provavelmente em Lisboa, à margem do que se estava a passar, será impossível separar o mesmo comento desse quadro suscitado pela poema épico e a figura de Camões, onde intervêm muitas outros agentes e se multiplicam as leituras de Os Lusíadas.

A segunda lição diz respeito ao contexto de exacerbado nacionalismo e patriotismo onde se inserem os “comentos” de D. Marcos. Trata-se de um tema com duas implicações, do ponto de vista historiográfico. Por um lado, a sua evocação põe em causa a ideia de que a cultura literária portuguesa teria declinado durante a dominação espanhola, quando pelo contrário demonstrou sinais de uma reconfiguração e enorme vitalidade, tal como procuraram demonstrar, desde o último quartel do século XIX, Rebelo da Silva, na História de Portugal nos séculos XVII e XVIII, Camilo Castelo Branco, no Curso de litteratura portugueza, e Sousa Viterbo, na Litteratura Hespanhola em Portugal. Por outro lado, a insistência em tratar, a partir das representações seiscentistas, os modos de pensar os sentimentos nacionais no século XVII impõe-se, ainda mais, neste momento, que é de um descrédito generalizado das histórias nacionais, manifestado sem razão por parte dos que a elas se dedicam . Ora, os “comentos” de D. Marcos incluem diversas manifestações desses sentimentos nacionais, em parte confundidos com uma espécie de patriotismo monárquico, potenciados pelo poema épico de celebração de monarcas, nobres capitães e heróis portugueses. Pode até argumentar-se que, se existe um sentido de conjunto nos comentários de D. Marcos, é na expressão desse mesmo nacionalismo que ele se encontra. Claro que existem, sobretudo à luz de padrões de aferição posteriores, contradições nesse mesmo nacionalismo.

Uma terceira e última lição que se retira da introdução e das notas de Isabel Almeida diz respeito ao método de abordagem fragmentada seguido por D. Marcos nos seus comentários. Que tal método de comentário erudito, no que respeitava às fontes clássicas, muito em especial às referências mitológicas, se baseava no recurso a essa espécie de compilações, enciclopédias ou compêndios em que o Renascimento foi fértil é uma constatação que a crítica tem posto a descoberto. Claro que as compilações de temas e personagens da cultura clássica eram quase sempre completadas pelo recurso à Bíblia, à historiografia portuguesa, a começar por João de Barros, e à espanhola, com Juan de Mariana à cabeça, com quem D. Marcos pretende polemizar. Seria impossível reconstituir, aqui, o trabalho aprofundado de verificação de todas estas fontes. Mais discutível parece ser que, da introdução e das notas aos comentos de D. Marcos, esteja ausente o que aparentemente se encontrava nos antípodas da erudição, constituindo uma das bases do processo de criação literária, tal como o entenderam Camões e os seus comentadores seiscentistas. Refiro-me ao conjunto dos registos capazes de deleitar ou de divertir, incluindo os que são da ordem do jocoso, da paródia, da sátira ou do burlesco. É que a própria erudição classicizante, tal como a praticaram antiquários como André de Resende, continha em si uma margem, nem sempre evidente, porque remetida para sentidos textuais duplos, em muitos dos casos escondidos ou mesmo à clé, em que o recurso à construção fantasiosa ou à prova de falsário era expediente corrente. O mesmo se diga da epopeia, através da qual se celebravam heróis, a qual se confrontava, quase sempre, com um registo divertido. E o mesmo sucedia com as cerimónias da monarquia, que quase sempre se confrontavam com o registo da facécia ou da paródia, capaz de insinuar formas de uma ordem política e social de pernas para o ar.

Claro que os sinais de tais registos antinómicos em relação à seriedade da epopeia tanto podiam surgir no interior das próprias obras como em confronto com elas. O modo mais corrente de acentuar essa mesma dicotomia, em tempos de ortodoxia católica tridentina, estaria nas referências mitológicas, pagãs, e no jogo de significados que elas introduzem em relação ao que é considerado canónico e ortodoxo. Jorge de Sena mostrou particular sensibilidade em relação a essa mesma dimensão burlesca, presente nas letras portuguesas desde o Cancioneiro geral. Enfim, admitamo-lo, nem que seja como se de um jogo se tratasse, a constatação dessa lacuna não deixa de ser discutível, à luz dos ensinamentos desse outro comentador de Os Lusíadas da época que foi Manuel Pires de Almeida. Pois, conforme prescrição deste último, “talvez admitta a Epopeia o estilo florido, e quase sempre grave, mas nunca o jocoso, e assi de nenhum modo abraça tres estillos, por lhe não serem convenientes”.