Rodrigo Leão com Orquestra, para melhor esculpir o silêncio

Nunca tinha estado acompanhado de tantos músicos – os mais de cem que compõem a Orquestra e Coro Gulbenkian – mas no novo álbum o retiro o objectivo de Rodrigo Leão é o mesmo de sempre: a procura do recolhimento no limiar do silêncio.

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É talvez o conjunto de temas mais melancólicos que alguma vez Rodrigo Leão compôs

Já andou pela pop, pelo minimalismo, pela música contemporânea, pelas electrónicas, pelas bandas-sonoras para filmes ou pela música clássica, mas na verdade nunca deixou de ser ele próprio. Independentemente das tipologias e dos projectos, por norma expõe simplicidade e procura criar música melódica que conforta. Agora lança um álbum com a Orquestra e Coro Gulbenkian e essa essência mantém-se. É verdade que o cenário é outro e é sem dúvida o seu trabalho mais clássico, mas reconhecêmo-lo. “Todos os músicos receiam repetir-se e eu não sou diferente, mas tenho noção que ao longo destes trinta e tal anos continuo, em grande parte, à volta das mesmas coisas – o mesmo tipo de estrutura e a exposição de uma certa inocência”, confirma.

O álbum chama-se o retiro e, como o título já indicia, contém música que procura o silêncio, encarando-o como algo envolvente, síntese de três décadas de experiência como compositor e instrumentista, numa espécie de suite predominantemente instrumental que existe como um todo, algures entre o popular e o erudito, o orquestral e o electrónico, no contexto de uma música de ambientes depurados e tranquilos. 

É talvez o conjunto de temas mais melancólicos que alguma vez compôs, marcados pelo sentido da ausência, mas também pela ideia de renascença. A ideia surgiu há anos pelo amigo e manager António Cunha. “Quando ele me falou disso ainda não sabíamos se iriam ser originais ou arranjos para temas antigos, mas existia essa noção de se fazer um disco de raiz com orquestra.” Há dois anos existiram os primeiros contactos com a Gulbenkian e o ano passado deu-se o encontro. “Houve receptividade e fiquei logo muito entusiasmado, tendo combinado as gravações e concertos que vamos fazer nos Coliseus, dois em Lisboa e um no Porto.”

Depois da feitura, o ano passado, do discreto projecto A Vida Secreta das Máquinas, à volta de linguagens semi-electrónicas, lançou-se para a nova aventura, tendo estado seis meses em torno das novas composições, entre Lisboa e Avis, no Alentejo.

Foi naturalmente um trabalho que envolveu, ao nível do método e das rotinas, novos desafios. “Nunca tinha participado num projecto que envolvesse tantos músicos e uma logística de grandes dimensões”, ri-se, acrescentando que o facto de saber que as suas composições iriam ser interpretadas pela orquestra Gulbenkian e pelo coro não condicionou as suas ideias.

“Não caí naquela tentação de fazer algo muito diferente ou de grandioso. Procurei a simplicidade que está sempre presente na minha música, tendo reunido trinta ideias, metade das quais acabaram por ficar naturalmente para trás.”  No total são treze temas, maioritariamente instrumentais, havendo seis cantados pelo Coro Gulbenkian com frases em latim e apenas uma canção em português, Melancolia, com a voz de Selma Uamusse – “era para terem existido mais canções, mas essas experiências acabaram por não me satisfazer totalmente”, acaba por confessar.

O álbum encerra com Florestas submersas, com quase treze minutos, longa digressão instrumental que foi concebida inicialmente para a exposição no Oceanário de Lisboa do japonês Takashi Amano, falecido em Agosto. “Conhecemo-nos em Maio, no âmbito da exposição, da qual gostei muito e acabei por incluir esse tema porque se prestava muito à orquestração.”

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Durante o processo de feitura do projecto teve uma preocupação central: a escolha da equipa de trabalho. “Tivemos muita sorte, porque revelaram-se todos excepcionais. O director técnico, o alemão Thomas Lehmann, que grava orquestras há mais de 30 anos, mesmo sabendo que iríamos gravar no magnífico cenário acústico do Grande Auditório da Gulbenkian, não se poupou a esforços, trazendo da Alemanha uma carrinha cheia de material, e o maestro Rui Pinheiro que conduziu a Orquestra e o Coro Gulbenkian também foi inexcedível.”

Papel importante tiveram os arranjadores, o americano Steve Bartek e o português Carlos Tony Gomes. “Com o Steve havia trabalhado há cerca de três anos e é um arranjador com muitos anos de actividade, enquanto o Carlos é um violoncelista com quem trabalho há muito tempo. Ele começou por fazer arranjos para o quarteto de cordas – para um disco com o cantor Scott Matthew que será editado no próximo ano – e depois acabou por fazer também, pela primeira vez, arranjos para uma orquestra.”

Em casa, Rodrigo Leão compôs com sintetizador, sugerindo linhas melódicas para violoncelo, violino ou sopros, mas “os arranjos seria um trabalho que seria incapaz de fazer”, admite, apesar de antes já ter trabalhado com  a Sinfonieta de Lisboa e com uma orquestra da Macedónia, “se bem que eram arranjos para temas que já existiam enquanto aqui foi feito tudo de raiz.”

A queda do muro
O álbum é editado no prestigiado selo erudito Deutsche Grammophon que, nos últimos anos, não se tem coibido de desafiar músicos da cultura pop (Herbert, Carl Craig ou Jimi Tenor) a recriarem Mahler ou Vivaldi, ajudando a derrubar os muros que ainda separam a clássica da pop. Uma barreira que está mais na imaginação, e nas construções sociais que criam hierarquias e diferenças artificiais, do que na realidade. No desmoronar dessas trincheiras são fundamentais os agentes que se movimentam nos interstícios das duas direcções e eles têm surgido com grande fulgurância nos últimos anos. Falamos de Nils Frahm, Peter Broderick, Hauschka, Nico Muhly, Francesco Tristano ou Max Richter, gente que se situa numa terra híbrida e que possui formação clássica, mas que tenta outro tipo de aproximações.   

Habitar esse território híbrido abre ou fecha portas? Rodrigo Leão sorri quando lhe lançamos a questão. “As duas coisas são verdadeiras”, reflecte. “Fazer coisas um pouco diferentes impede-me de ir a festivais de pop, por exemplo. Se bem que posso pegar em 50 minutos de música que fiz ao longo destes anos e fazer um concerto pop, com canções para baixo e bateria. Mas não me preocupo, nem racionalizo muito esses aspectos.”

Em relação aos nomes que compõem essa nova vaga de músicos, acaba por assinalar uma diferença. “Já trabalhei com o Ludovico Einaudi ou Olafur Arnólds, e gosto muito do Nils Frahm, e grande parte deles tem formação clássica o que não acontece comigo.  Eles são capazes de fazer um concerto só com piano e eu seria incapaz. Mas sem dúvida que me sinto identificado com essa corrente e com o trabalho de muitos desses compositores.”

O grande desafio agora é a transposição para o palco. No dia 18 de Novembro no Coliseu do Porto e 20 e 21 no Coliseu de Lisboa, lá estará ele com a Orquestra e Coro Gulbenkian, prevendo-se que depois seja possível expor o disco fora de portas, recorrendo nessa ocasião a orquestras locais. “Vou fazer uma coisa que nunca fiz que é tocar o disco do inicio ao fim, com o mesmo alinhamento, e depois no fim tocamos três ou quatro temas antigos. O facto de termos as partituras deste trabalho, permite-nos pensar em tocá-lo em qualquer parte do mundo com orquestras e nos próximos tempos vamos tentar fazê-lo.”

Há dois anos muito se falou do facto de ter composto a música para a produção de Hollywood, O Mordomo, mas daí não adveio nada de especial. “Foi uma experiência importante, mas em termos de carreira não aconteceu nada de mais”, afirma. “Pela primeira vez tive consciência do que era uma grande orquestra tocar peças minhas, mas não houve mais nenhum pedido para fazer música para um filme americano”, acrescenta, revelando que se encontra a criar música para um documentário brasileiro.

Trabalho, aliás, não lhe falta. Parece ser dos músicos portugueses mais activos, desdobrando-se por projectos, e pelas viagens entre o Alentejo e Lisboa. “Nos últimos quinze anos é aí que tenho passado parte da minha vida” diz, relatando que acorda de manhã para ir comprar pão a Santo António do Alcôrrego, depois toma o pequeno almoço, ao final da manhã regressa à vila para comprar ingredientes para o almoço e à tarde entrega-se às tarefas à volta da casa. É à noite, no silêncio quase absoluto, que compõe.

Num mundo ruidoso, onde a música se tornou omnipresente nos espaços públicos, o silêncio tornou-se num bem raro. “Perturba-me e faz-me confusão esse ruído contínuo”, confessa. Daí também um álbum que se aproxima do limiar do silêncio, como se nos dissesse que é preciso reaprender a ouvir. “Há uma grande unidade no disco – apesar da canção com a Selma quase se aproximar do fado – mas é sem dúvida um disco que apela à meditação, à reflexão, ao recolhimento, ao viver com o silêncio.”