Crítica

Um coro de refugiados em pleno Bairro Alto

Esta montagem de A Tempestade é exemplar: Bruno Bravo cortou e limpou a peça original até chegar o mais perto possível do osso da acção.

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Um bando de desterrados, em fato de viagem, tendo por bagagem um livro com encadernação gasta e uma mera mala de cartão, esperam pelo público no chão nu do Teatro do Bairro como quem espera o instante irreversível do embarque para o exílio. Cada um deles é uma ilha. No todo, são um coro de actores que, por um lado, parecem despedir-se do seu público, e por outro, estando abandonados à sua sorte, estão prontos para dizer de vez, em voz alta, aquilo que parecia poder ficar calado para sempre.

É nesse tom e atmosfera adoptados pela trupe do Teatro Griot que os pedidos de libertação feitos por Ariel e por Caliban, os dois escravos de Próspero, ganham grande contundência. O enamoramento de Miranda e de Ferdinand ou o desespero dos restantes náufragos na ilha mágica são igualmente ampliados pela sensação de despojo e isolamento que a simplicidade da cena dá. Todos querem ver reconhecida a sua dignidade e ser vistos como iguais. Mas o senhor da ilha está em todo o lado, em cada corpo de cada actor, como velho profeta mediterrânico que é. Só descansará quando o seu sonho de vingança se tornar real. A palavra de Próspero pode tudo e durante o espectáculo aguardamos que ela nos deixe partir para a felicidade futura.

Qualquer peça de Shakespeare tem muito por onde se lhe pegue. Difícil é definir para quê fazer um dos seus textos e de seguida montar o espectáculo seguindo esse rumo até ao fim. Esta montagem de A Tempestade é, quanto a isso, exemplar. Bruno Bravo cortou e limpou a peça original até chegar o mais perto possível do osso da acção. No osso estão as falas shakespearianas que narram, comovem e interpelam ao mesmo tempo. Os discursos das várias personagens foram recompostos em vários andamentos para um coro de actores, a que não faltam ponto e contraponto, e onde se destaca, quando é necessário, um ou outro solista.

Os arranjos musicais desta récita, em complemento com o desenho de som e o desenho de luz, conseguem fazer os efeitos mágicos da narrativa, pelos quais Próspero é afamado. O jogo das vozes faz avançar a história e esse teatro sonoro encanta o espectador, de modo a levar a plateia para os vários lugares da acção, da mesma maneira que Próspero determina que Ariel leve as demais personagens, manipuladas a seu bel-prazer.

A orquestração da vozearia e a contenção de movimentos físicos dos atores criam na imaginação do espectador um espaço virtual, dado por coordenadas auditivas. Esse espectro sonoro reverbera, por sua vez, nas imagens quase fixas, escolhidas a dedo, dos corpos destes actores migrantes em cena. É a mesma massa sonora de que são feitos os sonhos. E, no momento preciso, é o apelo do injustiçado que se faz ouvir bem alto. A coincidência dessa teatralidade com o mundo mágico da peça faz com que se ajustem também, sem esforço, a vida real dos actores, por um lado, e o universo ficcional da peça, por outro. O clamor dos desterrados junta-se à voz de Próspero, para reclamar justiça. Só ouvido.