O valor do sexo

Alguém que muda de sexo é exactamente a mesma pessoa que era antes.

Numa entrevista recente que deu à plataforma Maria Capaz, Leonor Beleza conta a história de uma neurocientista, Barbara Barres, que mudou de sexo, passando a ser Ben Barres. Quando lhe perguntam qual a principal diferença que notou com a mudança de sexo, a sua resposta é surpreendente: finalmente consegue terminar uma frase sem ser interrompido por algum homem. O caso é mesmo mais caricato: durante uns tempos havia quem comentasse que Ben Barres era bastante melhor comunicador do que a sua irmã Barbara Barres, desconhecendo que, de facto, se tratava da mesma pessoa.

Estudar se as mulheres são ou não discriminadas no mercado de trabalho é uma tarefa necessariamente difícil. E é difícil, porque é metodologicamente complicado destrinçar umas causas das outras. É um facto que, em regra, os homens ganham mais e progridem mais rapidamente na carreira do que as mulheres. Mas como ter a certeza de que isso se deve a uma discriminação no local de trabalho e não por qualquer outro motivo? Se calhar as mulheres dão mais importância à família e estão mais dispostas a sacrificar a carreira. Se calhar as mulheres são inerentemente menos competitivas. Pode haver até quem defenda que os homens são, simplesmente, profissionalmente melhores.

Há técnicas estatísticas que nos ajudam a diferenciar os diversos motivos que podem explicar o fosso salarial, mas todas elas são imperfeitas. O ideal seria mesmo conseguir comparar a performance profissional de duas pessoas que são iguais em tudo, excepto no sexo. Imaginem dois gémeos monozigóticos (verdadeiros, portanto) que, no entanto, têm sexos diferentes. É, evidentemente, impossível. Mas a existência de pessoas que mudaram de sexo ao longo da sua vida permite precisamente fazer esta comparação.

Alguém que muda de sexo é exactamente a mesma pessoa que era antes. Tem as mesmas capacidades, a mesma educação, as mesmas competências, os mesmos genes. É como se estivéssemos na presença de duas incarnações da mesma pessoa. Uma incarnação feminina e outra masculina e podemos compará-las.

Foi exactamente isso que Kristen Schilt (professora na Universidade de Chicago) e Matthew Wiswall (professor na Universidade de Nova Iorque) fizeram. Tendo tido acesso aos dados profissionais de diversas pessoas transgénero, puderam ver como a mudança de sexo influenciou as suas experiências no local de trabalho.

A que conclusões chegaram? Em média, um homem ao se transformar em mulher vê o seu salário cair 33%. Já uma mulher que se transforma em homem vê o seu salário aumentar 10%.

Deirdre McCloskey, professora de Economia na Universidade de Chicago, no seu livro Crossing: A Memoir, descreve as dificuldades que teve para se transformar numa mulher. Conta que, quando deixou de ser Donald e passou a ser Deirdre, falou com o presidente da sua universidade que, na brincadeira, lhe disse: "Para a universidade é óptimo que tenhas mudado de sexo, dado que agora podemos reduzir o teu salário." Deirdre não se riu.

Bibliografia:

Schilt, K., & Wiswall, M. 2008. "Before and after: Gender transitions, human capital, and workplace experience". The B. E. Journal of Economic Analysis and Policy, 8(1): 1–26.

Professor de economia na Universidade do Minho