Crónica Urbana

Cafés, cinemas e bifes

Havia cafés onde se vivia. Entrava-se de manhã e saía-se de madrugada, com o estômago aconchegado por um bom bife. No Monte Carlo era assim. Cinéfilos e outras tribos tinham ali a sua casa.

Que me desculpem os leitores se hoje não os levo a algum sítio lá fora, mas está um daqueles dias de temporal em que o vento assobia à volta da casa, as árvores perdem os ramos, que se lançam num voo descontrolado, e a chuva tenta entrar por todas as frinchas das janelas. É dia de fazer um café e enfiar a cabeça num livro. 

Por isso, troquei os planos para ir à exposição de orquídeas na Estufa Fria pelo livro, a que não me canso de voltar, Os Cinemas de Lisboa, de Margarida Acciaiouli, e, mais exactamente pelo capítulo sobre os antigos cafés da capital. 

Cafés havia muitos. Para além dos clássicos, na Baixa e no Chiado, a abertura de novas avenidas na cidade foi acompanhada pelo nascimento de novos cafés, alguns deles ligados, por cumplicidades várias, aos novos cinemas que iam também surgindo. Acciaiouli descreve como esses cafés “representam as referências a partir das quais se redefine a cidade e se estabelecem as fronteiras das incursões que se passam a fazer depois dos filmes”.

Era o que acontecia com o Café Império, por exemplo, que surgiu em 1955 junto ao Cinema Império. E, na Avenida Fontes Pereira de Melo, com o Café Monumental e o Café Monte Carlo, “em polaridades que permaneceriam quase imutáveis pelos anos fora”. Ambos desapareceram e no local do Monte Carlo existe hoje uma loja da Zara. 

Conta-me quem os conheceu que, se o Monumental se distinguia pela luminosidade do espaço e pelo brilho das estrelas (sobretudo figuras do teatro) que o frequentavam, o Monte Carlo — que nasceu, também em 55, como café, no local onde antes existia a Pastelaria Fradique — era território de artistas alternativos, surrealistas e outros, que se identificavam mais com o seu ambiente austero, de madeiras escuras — e, consta, excelentes croissants que tinham o seu contraponto nos mais vistosos (e efeminados) bolos do café vizinho. 

Nesse tempo vivia-se nos cafés. Não se entrava apenas para comer um dos célebres bifes ou beber uma bica. Eram locais para passar grande parte do dia — e da noite, por entre uma ida ao cinema. Neles habitavam escritores, poetas, cineastas, críticos, jornalistas, estudantes, pensadores e aspirantes a qualquer uma destas coisas. Falava-se de política, criticava-se o regime, discutiam-se as notícias que chegavam do que se via, ouvia e lia “lá fora”.

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O café era de tal forma uma segunda (ou, em alguns casos, primeira) casa que era habitual os clientes receberem telefonemas lá. O telefone tocava, um empregado atendia e perguntava para a sala: “O sr. X está? Chamam-no ao telefone.” O embaixador Francisco Seixas da Costa recorda num texto o dia em que no Monte Carlo alguém brincou e, ligando da cabine telefónica do próprio café, pediu para falar com o general Humberto Delgado. O empregado que atendeu era jovem e não sabia de quem se tratava, pelo que perguntou se o general estava na sala, recebendo de volta um coro de gargalhadas. Mas os telefonemas podiam também ser usados quando alguém queria tornar-se notado e pedia para lhe telefonarem para o café, garantindo que o seu nome seria gritado em alto e bom som. 

Um texto do crítico de cinema Eurico de Barros, citado por Margarida Acciaiuoli, descreve a vida no Monte Carlo: “Chegava-se de manhã, comprava-se a imprensa, tomava-se o pequeno-almoço, lia-se um livro, via-se quem estava ou passava.” E, entre um almoço no restaurante, mais leituras à tarde, “cavaqueira com quem tivesse chegado entretanto”, jantar, cinema e “serão no café até às duas da matina, hora de fecho”, passava-se o dia. 

A tabacaria ficava logo à entrada, convenientemente localizada para quem quisesse abastecer-se de jornais a qualquer hora. No interior, bastante amplo, havia uma sala de jogos, com bilhar, xadrez e damas, e ao fundo existia ainda, mais discreta, uma barbearia. A parte de restaurante estava separada do resto por uma grade e era aí que se podia comer o afamado bife.

Este hábito de comer bifes vem, diz-se, de influência inglesa e, inevitavelmente, do aumento do poder de compra. Antigamente, a carne de vaca não era coisa comum, mas na Lisboa dos anos 60 e 70, estabelecimento que se prezasse tinha o seu “bife à café”, geralmente com um molho generoso que podia levar natas e café, um ovo estrelado e batatas fritas (e o que mais se lembrassem de lhe juntar). 

E assim, entre discussões políticas de café, intensas análises do último filme em estreia e bifes mergulhados em calóricos molhos sem culpas, os dias passavam numa Lisboa que era ainda uma cidade pequena, levemente entediada. Com a chuva a cair lá fora, este parece-me, hoje, um bom programa de domingo.