Dois candidatos para a Casa Rosada

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Daniel Scioli, o candidato sucessor de Cristina Kirchner JUAN MABROMATA/AFP
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Mauricio Macri baseia a sua política económica num melhor acesso aos mercados internacionais

Daniel Scioli: Um político "ambíguo" para renovar o kirchnerismo

Daniel Scioli, o governador do estado de Buenos Aires, de 58 anos de idade, é descrito como um homem “pragmático e tenaz”, um político moderado e com “sentido de oportunidade”, mas também “alguma ambiguidade”. Talvez seja por isso que os seus aliados mais próximos garantam que só depois das eleições os argentinos “ficarão a conhecer o verdadeiro Scioli”.

Nos últimos dias, o candidato da Frente para a Vitória fez de tudo para contrariar os principais traços da sua personalidade e moldar-se à expectativa popular de como deve comportar-se um verdadeiro líder peronista: em vez de um homem que evita conflitos e gere tensões, quis mostrar-se duro e determinado, à imagem da actual Presidente, Cristina Kirchner. Tanto os seus apoiantes como os críticos concordam que Scioli tem a ingrata tarefa de preservar o legado kirchnerista, com ligeiras correcções – o desafio está explícito no slogan da sua campanha, “continuidade com mudanças”.

Daniel Scioli foi um famoso piloto de motonáutica na década de 80, com oito títulos de campeão do mundo, até ter sofrido um acidente no rio Paraná que obrigou à amputação do seu braço direito (dois anos antes, quase morrera num incêndio que deflagrou durante a noite no seu apartamento em Buenos Aires). Além de uma carreira empresarial, na área do comércio a retalho, tem já um largo passado político de quase duas décadas: foi deputado, secretário de Estado, vice-presidente e governador da província de Buenos Aires. A sua entrada na política foi apadrinhada por Carlos Menem, mas a sua inscrição no Partido Justicialista (peronista) levou-o mais tarde a aproximar-se de Néstor Kirchner, e a construir uma colaboração fiel com Cristina.

Em declarações ao The Wall Street Journal, Pablo Ibáñez, autor da biografia Scioli Secreto, descreve o candidato peronista – e favorito à vitória – como um “enigma”. “Com ele, tem de se interpretar tudo, tentar adivinhar o que quer dizer cada palavra ou o que indicam os seus gestos”. Para os seus críticos, essas são as marcas de um homem sem ideologia, que nunca se compromete e beneficia sempre da proximidade do poder (Scioli ocupou cargos nas administrações de Menem, um neoliberal, de Eduardo Duhalde, um moderado, e dos dois Kirchner, populistas de esquerda). “O único departamento do seu governo que funciona é o da publicidade e relações públicas”, criticou o seu adversário Sergio Massa.

Mauricio Macri, o rosto do anti-peronismo

Mauricio Macri, de 56 anos de idade, é o rosto do anti-peronismo nestas eleições, e a grande esperança do centro-direita para uma viragem política na Argentina. O seu programa é abertamente liberal no sentido da abertura do mercado e da limitação do papel do Estado na economia; e também inequivocamente conservador no que diz respeito à oposição ao aborto ou à mão dura contra o crime. Apesar de ser a voz mais crítica contra o actual Governo, Macri comprometeu-se a manter várias das suas políticas sociais, nomeadamente no sector habitacional e na educação, e ainda a trabalhar para a meta de “pobreza zero” na Argentina.

No entanto, a sua biografia muitas vezes impede-o de passar a sua mensagem: Macri, que provém de uma das famílias mais ricas da Argentina, tem dificuldade em desfazer a percepção de que é um representante de uma elite que nunca experimentou – e por isso nunca compreendeu – os dilemas quotidianos da classe trabalhadora e dos grupos mais desfavorecidos.

As primeiras referências a Mauricio Macri nos jornais argentinos apareceram nas páginas dedicadas aos mexericos do “jet set”. A sua carreira profissional iniciou-se numa das inúmeras empresas da holding familiar – no caso, uma construtora, uma vez que a sua formação é em engenharia civil --, que deixou para experimentar o sector financeiro, onde trabalhou até ser chamado a ocupar o lugar cimeiro no grupo empresarial fundado pelo pai. Mas foi em 1995, quando assumiu a presidência do Boca Juniors, um dos maiores clubes de futebol argentinos, que se tornou conhecido em todo o país: quando saiu, em 2008, era o dirigente desportivo com mais títulos (17) no país.

A entrada na política aconteceu em 2003, com a criação de um novo partido, Compromisso para a Mudança, e uma candidatura falhada à presidência de Buenos Aires. Em 2005, Macri transformou o partido numa nova aliança, a Proposta Republicana, pela qual foi finalmente eleito chefe do Governo (autónomo) da cidade de Buenos Aires, em 2007 – e reeleito em 2011. A sua gestão é popular mas também marcada por escândalos, nomeadamente de financiamento eleitoral.

Segundo o próprio, a decisão de entrar na vida política esteve a germinar mais de uma década, e foi motivada por uma difícil experiência pessoal, em 1991, quando foi sequestrado e mantido em cativeiro durante 12 dias, até ser pago um resgate de seis milhões de dólares. Para alguns dos seus críticos, esse “trauma” explicará a sua postura política de alguma inflexibilidade: dizem que a sua gestão é feita dentro de um círculo restrito de aliados, que gosta de ouvir mas em quem quase nunca delega uma decisão.