Os livros são alimento para a mente, mas a música também

Boa música, pessoas interessadas, público limitado e uma noite de muitas surpresas. Foram estes os ingredientes da segunda edição do Sofar Sounds Porto, que desta vez se realizou na Livraria Lello, e que promete novas sessões em breve.

Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta

Nove e meia da noite. As luzes da Livraria Lello, surpreendentemente, continuam acesas. Pessoas à porta. O cenário é tudo menos o habitual. E está prestes a melhorar. Três concertos intimistas, para um público pré-seleccionado, em que o objectivo será o de proporcionar aos amantes da música uma experiência única. No Sofar Sounds, as pessoas candidatam-se para o evento, de acesso limitado, sem saberem onde será e quem actuará. É a magia da “música pela música”, como não se cansa de referir João Afonso, o representante da organização.

A toda a mística de um evento limitado, juntou-se na noite de quarta-feira a grandiosidade da livraria Lello, um espaço que leva o seu nome além-fronteiras. As portas demoram a abrir para quem conseguiu o bilhete dourado e foi convidado para o evento. A impaciência começa a notar-se, a curiosidade a aumentar a cada minuto. A livraria, que foi já considerada uma das mais belas do mundo, acolhe no fundo das suas escadas os músicos convidados da segunda edição do Sofar Sound no Porto. O público sente-se em casa, senta-se no chão, nas escadas, encosta-se às estantes. Numa das prateleiras, lê-se: Books are food for the mind [os livros são comida para a mente]. Numa noite distinta, a música provou, mais uma vez, que também o é.

Às dez horas, João Afonso abre a segunda edição, contando a origem do conceito, desta vez numa casa cheia de história e de histórias: “Reza a lenda que no primeiro Sofar se ouvia o relógio de parede”. Já com o público preso ao que ainda não começou, aproveita para pedir desculpa pelo atraso, mas promete: “Vai valer a pena”.

E vale. O primeiro convidado, Guilherme Órfão, veio da Madeira para o Porto para estudar, mas não deixa as suas raízes, antes as homenageia. Acompanhado do braguinha, da viola de arame e do rajão, alterna entre originais e músicas que todos conhecem. O público surpreende-se com a versão de Bohemian Rhapsody, dos Queen, inteiramente tocada com cordofones e com recurso a tecnologia, como pedais, loop station e stompboxes. O repertório, que nestes concertos tem cerca de 30 minutos, tem ainda espaço para um dueto com Daniel Pereira, um conterrâneo, e para o seu cavaquinho, que segundo Guilherme Órfão “é o pai do braguinha”. No final, Daniel elogia o jovem madeirense: “Este rapaz tem 19 anos e já é um grande músico, imaginem daqui a uns anos!” e prossegue:  “Ainda bem que temos um militante destes. Esta é a nossa cultura, e em vez de termos vergonha dela temos de trabalhar para que seja cada vez melhor, para que os nossos instrumentos, a nossa identidade, sobreviva “.

Depois de um intervalo, é a vez de Emmy Curl se instalar no fundo da escadaria. De guitarra na mão, ar dócil, com Vanessa a acompanhá-la no teclado, dispensa as apresentações iniciais e começa imediatamente com Birds among the Ocean, um dos vários originais que apresenta, entre música portuguesa e estrangeira, novos singles ou músicas já apresentadas, homenagens à terra natal [Vila Real] ou transcontinentais. Em Sand Storm, Emmy procura as raízes africanas, naquilo que define como “Uma música do contacto do ser humano com a natureza. Uma música feminista, também”. O público deixa-se levar pelo repertório. Quando se esgota o tempo, fica o desejo de mais.

A noite não pode, contudo, parar. Há ainda um outro espectáculo, mais 30 minutos de intensidade que mais uma vez deixam o público de olhos fixos nos artistas. Rui Oliveira actua com DJ Deão, no âmbito do projecto Andarilho 2.0. As raízes desta iniciativa são, mais uma vez, inteiramente portuguesas. Rui define-se como “um cantor de canções”, mas surpreende todos aqueles que não conheciam o projecto. À sua potência vocal, junta-se a arte da electrónica do Dj Deão, que Rui explica: “Senti necessidade de fazer esta junção. As canções tradicionais por vezes parecem música anacrónica". "Esta vertente electrónica faz-me sentir que estamos em cima do tempo de hoje”, sintetiza.

No final dos espectáculos, respira-se a sensação de uma noite única. Artistas, organização e público partilham do sentimento de magia que as paredes da livraria viveram. Emmy fixa a montra do espaço, ainda decorada pelo vestido dos Storytailors, enquanto reflecte: “senti as coisas a conjugarem-se. Quando o ambiente é bonito, o artista também se inspira, e hoje senti uma constante inspiração”. O local onde o evento se realizou também não lhe foi indiferente: “Senti que tinha de fazer justiça à maravilha desta arquitectura, estava com medo de não estar à altura, mas superou as minhas expectativas”.

Rui Oliveira destaca também “o peso da mística da casa”, e resume o evento: “As pessoas respeitaram o conceito, fizeram silêncio, desfrutaram. Foi fantástico!”. Guilherme Órfão partilha desta opinião: “a atitude da plateia foi muito acolhedora, muito interessada. É o principal”.

Sobre o conceito, Emmy considera que “[estas iniciativas] incitam à espontaneidade, não há nada mais honesto que isso,  as pessoas vêm, mesmo não sendo um concerto marcado, decidido. Não há nada mais bonito que isso”. Esta opinião é partilhada por Rui Oliveira, que destaca a proximidade com o público: “acho muito interessante quando as pessoas procuram este tipo de concertos, mais especiais, escondidos. São pessoas que têm muito interesse pela música, têm paixão, e o ambiente que se cria é diferente”. Rui afirma também que é este público “quem partilha, quem divulga, quem fala sobre o que viu”, motivo pelo qual considera este tipo de iniciativa uma vantagem também para os artistas que neles actuam.

Também no que aos projectos que ambicionam diz respeito, a opinião é unânime: continuar a fazer música. Em tom de brincadeira, Rui Oliveira afirma: “Quero continuar a viver a minha vida de forma honesta, a fazer música e a viver disso”. Já para Guilherme Órfão, o desejo é “continuar a tocar quanto possível em bons palcos”, salientando que o seu objectivo é “a divulgação dos instrumentos”. Para Emmy Curl, que acabou de lançar o seu primeiro cd, Navia, o futuro passa, se possível, “por dar muitos concertos”. “É o que um músico mais deseja”, declara, acrescentando: “Gostava de tocar noutras cidades. É das coisas mais gratificantes que um músico pode receber”.

O relógio, que nesta noite não estava na parede e só por isso não se ouviu, tinha já há muito dado as doze badaladas quando se fecharam as portas. Mas naquele dia não era o livro da Cinderela que se lia na casa de todas as histórias. Na noite de quarta-feira, contou-se uma outra história – a do dia em que a Lello abriu para que todos os cantos respirassem boa música. E em que havia uma certeza – quem ali estava, estava pelo prazer de ouvir aquilo que a Sofar Sounds tivesse para lhes dar.

Sobre o Sofar Sounds
O Sofar Sounds surge em Londres depois de os fundadores se sentirem frustrados com a forma como a música era tratada. Decidem criar um conceito intimista, onde o público está interessado genuinamente na música. Organizam assim concertos secretos, onde o público só sabe o local 24 horas antes e só conhece os artistas na hora do concerto. Procuram sempre a diversidade das bandas apresentadas, para conseguirem chegar a todos os estilos musicais. Desde 2009, já se espalhou por mais de 170 cidades, incluindo o Porto, onde decorre desde 2015.

Sobre a segunda edição, João Afonso afirma “as inscrições duplicaram”. Para dar uma noção do impacto, refere a cidade de Istambul: “Num concerto para 100 pessoas, houve mais de 5000 inscrições”. O objectivo passa agora por alargar pontualmente a outras cidades, como Braga, Barcelos ou Guimarães, como refere a título de exemplo. Para já, confirmam-se mais duas edições no Porto, a 23 de Novembro e 20 de Dezembro, esta última num outro registo: “Vamos tentar experimentar a adesão do público ao final da tarde”, refere. Texto editado por Ana Fernandes

Sugerir correcção