Um século de rivalidades e conflitos entre os “grandes” de Lisboa

O primeiro derby, há 108 anos, também foi jogado em ambiente muito tenso. Muitos outros se seguiram numa história de altos e baixos nas relações entre as direcções de Benfica e Sporting.

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Há muito tempo que não se disputava um “derby” tão escaldante em Lisboa. O clima de guerra aberta entre os presidentes dos dois clubes contagiou a massa adepta e transformou o jogo desta tarde em muito mais do que uma simples partida de futebol. Jorge Jesus estará no centro da discórdia, após a polémica transferência da Luz para Alvalade, mas os focos de tensão extravasam a figura do actual treinador “leonino”. Entre denúncias de prendas a árbitros e processos milionários na justiça, tudo tem servido de arma de arremesso no conflito. Mas esta não é uma situação inédita na história deste clássico português, que se estreou também sob o signo da discórdia, há 108 anos.

O primeiro capítulo desta rivalidade centenária foi escrito numa tarde chuvosa do dia 1 de Dezembro de 1907, no campo da Quinta Nova, em Carcavelos, numa partida da terceira jornada do extinto Campeonato de Lisboa. Tal como agora, as direcções dos dois clubes estavam de costas voltadas e os ânimos extremados. Tudo porque, escassos meses antes da partida, oito jogadores haviam trocado a águia pelo leão, atraídos pelas melhores condições financeiras e desportivas oferecidas pelo clube fundado pelo visconde de Alvalade, no ano anterior. Entre eles estava José da Cruz Viegas, nada menos que o responsável pela adopção da cor encarnada pelo Sport Lisboa (que iria fundir-se em 1908 com o Grupo Sport Benfica, dando origem à actual designação de Sport Lisboa e Benfica). A desfeita custou a digerir.

Para aumentar a indignação dos adeptos adversários, o Sporting entrou em campo com todos os dissidentes e chegou à vantagem com um golo de Cândido Rosa Rodrigues, um dos fundadores do Sport Lisboa, em 1904. Os “encarnados” chegariam ao empate, através de Eduardo Corga, mas acabariam por perder da pior forma, com um autogolo de Cosme Damião, figura mítica da história benfiquista, que empresta hoje o nome ao museu do clube.

Os anos seguintes são marcados por altos e baixos nas relações entre os dois emblemas, voltando os ânimos a exacerbarem-se na temporada de 1910-11, quando o Sporting se recusa a receber o Benfica para a competição regional de Lisboa, a 18 de Julho de 1911, alegando que o adversário não era digno de pisar as suas instalações. Um comportamento motivado pelas incidências do jogo anterior entre as duas equipas, que redundou numa autêntica batalha campal, levando o árbitro a anular a partida. A Associação de Futebol de Lisboa não concordou, numa fase inicial, mas acabou por mandar mesmo repetir o jogo. Sem aviso prévio, os “leões” não abriram as suas instalações no dia marcado e acabaram por ser punidos com uma falta de comparência.

O caso Alberto Rio
Seguiu-se um novo período de acalmia, mas as relações voltariam a azedar na temporada de 1918-19, tal como o ambiente político e social em Portugal. Para esta nova crise contribuiu Alberto Rio, um dos melhores jogadores do Benfica na altura. Depois de ter falhado alguns jogos ao serviço das “águias”, sem justificação, o jogador foi suspenso por seis meses, em Junho de 1918, acabando por ser recrutado pelos “leões”. Os “encarnados” protestaram, mas o futebolista acabou mesmo por estrear-se com a camisola verde e branca a 7 de Julho desse ano.

O incidente levou ao rubro os encontros disputados nessa época entre as duas equipas. Ambas terminaram a época empatadas no primeiro lugar do Campeonato de Lisboa, levando a decisão para uma finalíssima a duas mãos. A tensão entre os jogadores era tão grande que o árbitro nomeado para a primeira partida, a 14 de Julho de 1919, não compareceu, sendo substituído já em cima da hora do jogo. O Sporting acabaria por vencer os dois encontros (0-1 e 2-1), conquistando o seu segundo título na competição, mas as partidas ficaram marcadas por distúrbios dentro e fora do terreno de jogo. Alberto Rio não alinhou em nenhum e acabou por ter uma passagem efémera pelo Sporting, nunca atingindo o nível que o fez brilhar com as cores rivais.

Já na era do campeonato nacional, na temporada de 1947-48, disputou-se um outro “derby” electrizante, com muita polémica à mistura. A 25 de Abril de 1948, as duas equipas encontram-se, em casa dos “encarnados”, na 22.ª jornada, numa partida que viria a ser decisiva para a atribuição do título. O Sporting partia com uma desvantagem de dois pontos e com uma derrota na primeira volta da competição frente aos “encarnados”, por 3-1. Tinha pela frente uma missão complicada. A tensão era tamanha, que um dirigente do clube chegou a acusar o seu próprio treinador, Cândido de Oliveira, benfiquista assumido, de estar a delinear uma estratégia suicida para provocar a derrota dos “leões”.

O técnico respondeu no dia do jogo. Sob a batuta dos “Cinco Violinos” e com Peyroteo em dia inspirado, os “leões” venceram por 4-1, com quatro golos do avançado centro. As duas equipas acabariam a prova juntas no topo da classificação, mas com uma vantagem de um golo para o Sporting no confronto directo.

A polémica Eusébio
No início dos anos de 1960, seria Eusébio a contribuir para um novo extremar dos ânimos. Desejado pelos “leões”, o moçambicano acabou por assinar pelo Benfica, numa história com contornos rocambolescos, que ainda hoje motiva discussões acaloradas entre adeptos. A 27 de Maio de 1962, o jogador entrou no Estádio de Alvalade para disputar o primeiro “derby” da sua carreira, perante uma enorme plateia de adeptos “leoninos” não propriamente amistosos. Estava-se na última jornada da temporada 1961-62, com o Sporting em igualdade pontual com o FC Porto, mas com o campeão europeu Benfica já afastado da luta pelo título.

O conjunto da casa venceria, por 3-1 - aproveitando ainda a derrota dos “dragões” no terreno do Vitória de Guimarães -, garantindo a conquista do campeonato. Mesmo assim, o “Pantera Negra”, haveria de marcar o primeiro golo ao eterno rival. E muitos outros se seguiriam, somando um total de 23 frente aos “leões” com a camisola do Benfica.

O último grande conflito institucional entre os dois adversários lisboetas ocorreu no defeso da temporada de 1993-94 e ficaria conhecido como o “Verão quente de 93”. Aproveitando as dificuldades financeiras do Benfica, os responsáveis “leoninos”, liderados pelo presidente Sousa Cintra, contrataram os jogadores Paulo Sousa e Pacheco, que haviam rescindido com o clube da Luz alegando ordenados em atraso. Tentam ainda atrair, mas sem sucesso, Rui Costa e João Vieira Pinto.

Os “encarnados” iriam vingar-se no campeonato. Na primeira volta, vencem, no Estádio da Luz, por 2-1, mas reservariam uma resposta mais contundente para a segunda fase da prova, em Alvalade, na 30.ª jornada. Um triunfo da equipa da casa, colocava os “leões” na liderança da competição, ultrapassando o Benfica, mas o que aconteceu foi um dos mais memoráveis triunfos da “águia” no “derby”. Numa tarde de muita chuva, uma exibição notável de João Vieira Pinto (que estivera meses antes muito perto de Alvalade) contribuiu para a goleada dos visitantes, por 6-3, abrindo definitivamente o caminho para o título.

Esta longa história de rivalidade e conflito entre os “grandes” da capital teve também intervalos pautados por grande desportivismo. Raras excepções, como aquela que ocorreu nos primórdios deste clássico, na temporada de 1908-09, na segunda volta do Campeonato de Lisboa. Numa visita ao recinto sportinguista, no Lumiar, o Benfica venceu por 2-1, com o golo decisivo a ser apontado na transformação de uma grande penalidade mal assinalada. Os “leões” protestaram e a própria direcção “encarnada”, reconhecendo a injustiça, apelou à organização da prova para repetir o jogo. O pedido não foi atendido, mas ficou a intenção.