Design

Morreu o designer Ricardo Mealha

O designer gráfico morreu aos 47 anos. Foi responsável pela imagem de várias marcas nas últimas décadas, como a discoteca Lux e o BES.
Foto
Ricardo Mealha, numa fotografia de 2009 Miguel Manso

O designer gráfico Ricardo Mealha morreu este domingo de manhã aos 47 anos, soube o PÚBLICO. Mealha morreu na sequência de um cancro no cérebro.

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Mealha foi responsável pela imagem gráfica de várias marcas nas últimas décadas, cruzando desde instituições mais tradicionais como o Ministério da Cultura ou o Banco Espírito Santo (BES) com outras mais vanguardistas como a discoteca Lux e o restaurante Bica do Sapato, em Lisboa.

Bárbara Coutinho, directora do MUDE - Museu do Design e da Moda, em Lisboa, diz que a sua morte "é uma perda para o design português, é um dos grandes designers gráficos nacionais das últimas décadas.” Trabalhou de perto com Ricardo Mealha em 2007, quando o designer criou o logotipo da instituição e recorda "a sua criatividade, a sua jovialidade e a sua alegria, o ímpeto que dava a todos os projectos que desenvolvia". Defende que se "destacava porque conseguia imprimir uma marca de reinvenção gráfica com um sentido muito cosmopolita". "Era um homem muito atento ao seu tempo. É conhecida a sua ligação com a vida cultural, urbana, nocturna, que ele ajudou a criar."

Nascido em Lisboa a 22 de Outubro de 1968, fundou o atelier RMAC–Ricardo Mealha/Ana Cunha, que depois vendeu ao grupo BBDO Portugal. Desde 2014 era director criativo da Brand Gallery.

O designer gráfico Jorge Silva, que esteve mais próximo de Mealha na época da RMAC, sublinha a dupla que fez com Ana Cunha: "Fui júri em alguns concursos de design e publicidade e era quase embaraçoso porque eles ganhavam quase todas as categorias. Era um trabalho extraordinário, foi pioneiro e veio criar uma leitura muito hedonista do design.” Destaca a qualidade do trabalho de Mealha pela “gramática gráfica fresca, nova, alinhada por tendências contemporâneas, estrangeiras, e grande requinte e cuidado com materiais, com métodos de impressão que eram muito diferentes e sofisticados”, dizendo que ajudou a quebrar barreiras: "Ajudaram a tornar a percepção que temos do design e a sua prática como algo que está espalhado em todo o lado, que não tem fronteiras. Ajudaram a enterrar uma visão mais  conceptual e académica do design."

Na página da Brand Gallery está o testemunho de Manuel Reis, dono do Lux-Frágil, em Lisboa, e uma das figuras com que Ricardo Mealha trabalhou durante décadas: “Há mais de 20 anos que o Ricardo Mealha é meu cúmplice. Foi com ele que trabalhei a identidade gráfica de quase todos os projectos em que me envolvi. Entre as muitas qualidades que lhe reconheço talvez a mais importante seja a sua capacidade de arriscar, de experimentar e de fazer diferente.”

Na década de 1990, antes de abrir a sua agência, Ricardo Mealha trabalhou na agência de publicidade Young&Rubicam e na Novodesign. O designer realizou projectos para vários organismos do Ministério da Cultura, como a Companhia Nacional de Bailado, trabalhou com a Moda Lisboa, a loja de decoração Área, A Vida Portuguesa, Vista Alegre, Casa das Histórias Paula Rego, grupo Jerónimo Martins, hotéis Tivoli, azeite Gallo, entre outros. Foi distinguido com mais de 80 prémios em concursos portugueses e internacionais.

Esta segunda-feira na apresentação da programação da próxima edição da Experimenta Design, com e para a qual Ricardo Mealha trabalhou várias vezes, Guta Moura Guedes assinalou a "perda enorme" do designer. "Marcou o panorama da criatividade, da cultura em Portugal", elogiou a directora da Experimenta, recordando a sua "generosidade". Já os vereadores da Cultura das câmaras de Lisboa e Porto, Catarina Vaz Pinto e Paulo Cunha e Silva, recordaram por seu turno as suas experiências de trabalho com Ricardo Mealha, no design da identidade gráfica do então Ministério da Cultura à do Instituto das Artes, respectivamente.

Em 2009, Ricardo Mealha casou na discoteca Lux com o seu namorado numa cerimónia com centenas de convidados. O designer, que enviou um convite ao então primeiro-ministro José Sócrates, quis tomar uma posição pública em defesa do casamento homossexual, que na altura ainda não tinha sido legalizado. A nova legislação seria aprovada um mês depois.

Editado por Isabel Salema
 

Notícia actualizada dia 26 às 13h12: acrescenta testemunhos de Guta Moura Guedes, Catarina Vaz Pinto e Paulo Cunha e Silva