Uma janela para a mente de Marlon Brando

Este fim-de-semana no DocLisboa, Listen to me Marlon mostra pela primeira vez o resultado do mergulho de Stevan Reiley nas cerca de 300 horas de gravações áudio deixadas pela estrela.

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O filme passa sábado às 16h15 no Cinema São Jorge e domingo às 22h15 no Cinema Ideal DR
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Com Vivien Leigh em Um Eléctrico Chamado Desejo em 1951 AFP
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Com Maria Schneider na rodagem de Último Tango em Paris em 1972
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Em O Selvagem, de 1953 Warner Bros/REUTERS
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O trabalho do artista de efeitos visuais Scott Billups sobre os scans digitais do rosto de Brando DR
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O Padrinho, de Francis Ford Coppola, em 1972
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Brando, aliás Terry Malloy, contracena com Rod Steiger em <í>Há Lodo no Cais em 1954 Turner Classic Movies/REUTERS

A cabeça de Marlon Brando rodopia no espaço. No vazio de um ecrã negro, espectral a declamar Macbeth, fantasmagórica com as suas pálpebras semicerradas e no azul pixelado do rosto. Aquele rosto flutua nos interstícios de Listen to me Marlon, documentário erigido sobre as gravações, até aqui inéditas, que Brando fazia para Marlon. A voz de uma figura extinta torna-se o narrador da sua própria história, um “post-mortem de uma vida, da vida de Brando, conduzido por ele além-túmulo”, descreve o realizador Stevan Riley.

O documentário, que na tarde deste sábado passa no São Jorge e domingo à noite no Ideal no DocLisboa, é quase um pedido. Quem responde?

Listen to me, Marlon… esta é uma parte de ti a falar a outra parte de ti. Ouve o som da minha voz e confia em mim. Sabes que tenho o teu melhor interesse em mente”. Marlon Brando começou a gravar-se na década de 1960. Registava em cassetes, CD e outros suportes reflexões pessoais, reuniões de trabalho, listas de afazeres, telefonemas ou conversas com amigos. E sessões de auto-hipnose como a citada acima, gravada em 1996 e cujo início dá o título ao filme que agora se estreia em Portugal. No total, sobreviveram-lhe cerca de 300 horas de gravações e delas nasceu um documentário.

Brando esclarece-se neste primeiro e único documentário a basear-se no precioso recurso de uma janela para a mente de Brando e o seu fluxo de consciência, servido a espaços dessa estranha imagem de 3D. Brando, um early adopter da tecnologia (do MacIntosh à Internet), deixou que o amigo e artista de efeitos visuais Scott Billups lhe fizesse scans digitais ao rosto há cerca de duas décadas.

Listen to me Marlon é como uma longa, não-linear e ambivalente entrevista em várias fases da sua vida: a infância passional, o actor enamorado ou desassombrado com a profissão, a fama e a fuga, a natureza, Coppola, Kazan, Bertolucci, a Bounty, a beleza e a megalomania, a privacidade, a tragédia da violência do pai, do álcool da mãe, do suicídio da filha, da prisão do filho.

Ouve-me, espectador: “Na minha vida sempre tive uma forte sensação de que tinha de ser livre”; “sempre me interessou adivinhar as coisas que as pessoas não sabem de si próprias”; a mãe “deu-me o sentido do absurdo”; “ensinou-me um amor pela natureza e a sensação e proximidade com os animais”; “e de repente a nossa vida muda e há muito mais raparigas a dizer ‘Hi, Marlon’”; “era muito atraente”, “ansioso por espalhar a minha semente”.

Apesar da referência “provavelmente o melhor actor de cinema de sempre” - para Martin Scorsese a profissão de actor tem de ser dividida entre “antes de Brando” e “depois de Brando” -, o afastamento de Hollywood, a rejeição do Óscar por O Padrinho, os mexericos e até o aumento de peso fizeram estragos. Listen to me Marlon faz também algo para reabilitar a imagem de que o actor era desinteressado, caprichoso, um contrarian e não um contender. Muitos críticos (ou)viram em Listen to me Brando o reiterar da prova de que ele abraçava apertadamente a sua arte.

Vê-lo como menos do que o contender que foi na vida e na carreira, como fizeram muitos dos seus detractores, “é a vingança dos medíocres sobre os génios”, postulou Manohla Dargis, crítica de cinema do New York Times, a propósito das revelações de Listen to me Marlon.

No fundo, desde logo quem responde é Brando. Às críticas de que foi alvo não só na segunda metade da sua carreira – “perdi o público”, narra -, mas também depois da morte. E aos seus próprios fantasmas, com mais ou menos contradições e nuances.

“Não há artistas, não há arte. É dinheiro, dinheiro, dinheiro”, critica Brando, lúcido perante o absurdo da celebridade. Era “prisioneiro da sua própria fama”, disse Riley ao Los Angeles Times. “Mas não tenho a certeza absoluta de que teria renunciado à fama se tivesse podido escolher”. Mas também se ouvem horas, resumidas em minutos de filme, de reflexões sobre a profissão - "actuar é sobreviver -, a sua preocupação quando “a máquina” não funcionava. “Há vezes em que fiz muito melhor do que naquela cena em Há Lodo no Cais” – aquela cena. Ou as dificuldades em ser e livrar-se do seu bruto no eléctrico desejante. “Nada em mim é como Stanley Kowalski. Odeio esse tipo de gajo”. Chamaram-no para fazer um screen test para O Padrinho. “Era degradante”, diz-nos Brando. “Mas eu próprio não sabia se podia fazer aquele papel”.

Larger than life

Algumas gravações ficaram no registo privado que Brando tanto parecia procurar e não chegaram ao filme. Nas que ouvimos, os timbres mudam com a idade ou a finalidade do registo, da estrela relutante ao homem fora do seu habitat cinematográfico de ídolo e actor larger than life.  “Encontrei Brando num estado de espírito meditativo nas gravações, questionando a noção de verdade absoluta e a veracidade da sua profissão”, escreveu Riley num longo ensaio no diário britânico Telegraph. A Brando Enterprises, que gere o legado do actor, contactou primeiro o produtor John Battsek (À Procura de Sugarman) e este chamou Riley porque “era altura” de o revelar a novas gerações, como cita o LA Times. Afogado nas gravações que chegavam pelo correio, teve a ideia de deixar a voz falar sozinha. Desenvolveu-se também ali “uma das relações mais próximas da minha vida”, escreve Riley no Telegraph. E logo com alguém “que estava morto há dez anos e que se chamava Marlon Brando”.

Admite a sensação de assombração que produziu a sua montagem de imagens – Há Lodo no Cais, Um Eléctrico Chamado Desejo, Revolta na Bounty, O Último Tango em Paris, O Padrinho, vídeos caseiros no paraíso do Taiti, Brando que se maquilha, Brando que flirta com jornalistas, Brando que se casa, Brando que diz ter reescrito todo o Apocalypse Now. As imagens granuladas que parecem dar-nos entrada na sua casa de Mulholland Drive, por exemplo, são encenações – artifícios como o busto rodopiante de Brando no seu azul celeste incompleto.  

Há também outras vozes, esporádicas, entrevistadores, formadores como a sua adorada Stella Adler, filhos em tribunal, conferências de imprensa com o gigante Brando em lágrimas.

“Nas gravações, Brando estava a convidar-me a compreender os seus defeitos”, acredita Stevan Riley no Telegraph. Marlon Brando, três casamentos, mais de uma dezena de filhos biológicos ou adoptados, morreu em 2004 aos 80 anos. “Se não tivesse tido a boa sorte de ser actor, não sei o que teria sido. Provavelmente teria sido um vigarista. Um bom vigarista”, ecoa a sua voz. No documentário, Stevan Riley escolheu associar a sua morte à de uma das suas personagens. “Dei por mim a torcer por ele e para que encontrasse felicidade no final do filme”, reflecte o realizador. “Mas o guião da sua vida já estava escrito”.

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