Opinião

Entre a força da razão e a razão da força

Já percebemos que em nome da tomada do poder o PS está disposto a enterrar o essencial da sua identidade histórica, o BE o essencial da sua matriz existencial e o PCP o volume da sua cassete programática.

Contadas as últimas quatro décadas de regime democrático, este momento que estamos a passar é um dos mais marcantes e exigentes da história recente do sistema político nacional. Estará o PS consciente da situação que está a construir?! Não nos iludamos com retóricas do dia-a-dia: este momento histórico na política portuguesa é construído na base de uma falsa realidade, desde logo porque os portugueses não a legitimaram.

Não a legitimaram os que votaram maioritariamente na coligação Portugal à Frente, como, estou certo, não a legitimaram boa parte dos que votaram no PS. Razão para dizer, perspectivando o futuro próximo, que este será um eleitorado que o PSD tenderá a captar.

Como nota prévia, quero referir que, pese embora discorde profundamente da actuação do dr. António Costa, a qual me deixa verdadeiramente surpreendido, sublinho que, no plano pessoal, tenho por ele uma forte estima, desde logo porque sempre lhe encontrei uma atitude de proximidade e de afabilidade. Devemos evitar, por isso, que na disputa política exista a tendência para nela misturar o plano pessoal.

Mas a verdade é que não poderia, em consciência, deixar de expressar a minha mais profunda consternação ao ver o PS, um dos partidos com maior responsabilidade e peso histórico na consolidação do nosso regime democrático, numa inacreditável tentativa de transformar Portugal num parque de aventuras políticas, ao rejeitar a segurança da estabilidade, para que podia contribuir pelo risco do aventureirismo que devia evitar.

Há que começar por perceber como tudo começou, pois tal poderá ajudar-nos a antever como tudo vai acabar.

Esta sequência de episódios a que o PS nos vem dando o desprazer de assistir começa a construir-se na base de dois factos:

1. o primeiro, o facto de António Costa ter apresentado um programa eleitoral que, apesar de recheado de promessas fáceis, foi chumbado pelos portugueses, ao que acresce nunca lhes ter colocado a possibilidade de efectuar uma coligação à esquerda, tendo antes optado por esconder o que estava em preparação para o pós-eleições. Num caso, jogou no facilitismo e perdeu; no outro, jogou na ambiguidade e irá perder.

2. o segundo, o facto de a coligação Portugal à Frente ter percebido tarde demais que tinha condições objectivas para vencer as eleições com maioria absoluta.

Como resultado da conjugação deste dois factos, tivemos uma vitória eleitoral minoritária da direita e uma derrota eleitoral maioritária da esquerda.

Até aqui, nada de estranho! Este tipo de resultado já se verificou em outras circunstâncias da nossa história parlamentar. E, com naturalidade, sempre foi assumido pelos diversos quadrantes institucionais com a devida normalidade democrática de quem coloca o respeito pela vontade manifestada pelos portugueses à frente de tudo o resto.

A estranheza começa a desenhar-se quando, de súbito, esse resultado é colocado em causa por via de uma manobra de sobrevivência política que o líder socialista decide empreender, ao aplicar um golpe de esquerda baixa com a intenção de expropriar de forma  ilegítima a vitória obtida pela coligação Portugal à Frente e transformar a sua própria derrota e do seu partido numa ilusão de vitória.

Perante o que se está a passar só há uma leitura para a actuação do líder do PS: António Costa está obcecado em tomar o poder e ser primeiro-ministro, custe o que custar. Mesmo que essa obsessão e essa tomada de poder seja feita com prejuízo para os portugueses! Em suma, António Costa está empenhado em não aceitar a derrota nas eleições e considera que quem deve escolher o governo não são os portugueses, mas ele próprio. Põe os interesses de Portugal atrás dos interesses da facção que lidera no PS e coloca à frente de todos nós uma verdadeira distorção política. Enquanto a coligação tem a força da razão, o PS parece ter a razão da força.

Cabe questionar, com fundada preocupação, como poderá estar preparado para governar quem assim está a actuar?

E eis-nos, agora, face a uma derrogação absoluta do que tem sido o sentido de Estado e de respeito institucional levado a cabo ao longo de muitos anos pelos maiores partidos portugueses, tantas vezes viabilizando governos minoritários, como foi o caso do PSD com os dois governos de António Guterres e um governo liderado por José Sócrates, tendo mesmo viabilizado os PEC 1, 2 e 3.

Pela natureza das atitudes recentes, não se estranhe toda a sequência de actos que têm vindo a ser praticados pela actual liderança socialista. Actos marcados pela opacidade, pela falta de transparência e de objectividade. Fundados numa manifesta irresponsabilidade quanto à forma, mas acima de tudo quanto à substância do tal acordo que alegadamente trará à luz um governo de esquerda para Portugal.

Pela natureza das atitudes recentes, não se estranhe as cambalhotas ideológicas a que temos vindo a assistir por parte de partidos que se diziam contra sistema e que agora, como que por artes mágicas, decidiram enterrar a sua ideologia e servir-nos, sem qualquer espécie de pudor “intelectual”, um cardápio de boas intenções em tudo contraditório face ao que sempre argumentaram. Falo, por exemplo, da defesa da saída da zona euro, da NATO e até da UE, que no espaço de dias passaram de histriónicos “sins” a tímidos “nins”. Bem como no que diz respeito ao relacionamento do país com as principais instituições internacionais, quais sejam FMI, Banco Mundial, BCE e tantas outras, que de inaceitável passou a ser considerado.

Já percebemos que em nome da tomada do poder, o PS está disposto a enterrar o essencial da sua identidade histórica, o BE o essencial da sua matriz existencial e o PCP o volume da sua cassete programática.

Na verdade, eis que se nos torna clara a esquerda que temos, oportunista e plástica, que matiza o seu suposto pensamento ideológico de acordo com as necessidades do caminho que julga a levará ao exercício do poder...

Ponto é que esta esquerda que se diz preparada para governar não apresenta:

i) Sustentabilidade, porque se desconhece que espécie de acordo está em curso, quem o subscreve, quem integra o governo ou quem o sustenta parlamentarmente;

ii) Durabilidade, porque se desconhece se o tal acordo é de investidura, de curto prazo ou de legislatura;

iii) Previsibilidade programática, pois estamos perante três forças partidárias cujos alicerces assentam em princípios não só comprovadamente moldáveis às circunstâncias, mas também dicotómicos entre si.

Sendo este o ponto de partida, dá-nos bem a ideia de como será o ponto de chegada.

Por mais que tente não encontro razões de despreocupação face ao que se perfila. Com um argumento de tão inconsistente nível e actores de tão fraca estrutura de convicções, não será preciso muito para antever o pior dos dramas, ou seja, aquele a que se acrescenta a baixa qualidade dos protagonistas.

E confesso que me angustia ver que os progressos alcançados nos últimos quatro anos a nível macro e microeconómico ameaçam esvair-se na ambição desmesurada de quem vê no exercício do poder uma forma de sobrevivência partidária, ao invés de um serviço dedicado ao interesse e ao bem comum.

Nos últimos anos, o país seguiu uma rota. Uma rota difícil, é certo, mas uma rota que nos tirou do abismo, que nos ajudou a reerguer, a readquirir credibilidade junto das instâncias e dos mercados internacionais, que nos permitiu ser uma voz a ter em conta no quadro da União Europeia, que criou condições para um novo pulsar nos dados macroeconómicos e, sobretudo, na actuação do nosso tecido empresarial, que se reinventou, que encontrou novos mercados e, com isso, razões para todos acreditarmos ser possível criar condições de empregabilidade e dar a Portugal uma luz que há muito teimava em estar apagada.

Mas ainda acredito. Acredito firmemente no sentido de Estado de muitos dirigentes do PS. Acredito na firmeza das convicções de muita militância socialista que não se revê numa convivência governativa com quem mantém uma considerável distância ideológica. Acredito no registo histórico do PS e na manutenção do seu inigualável contributo para o reforço da democracia nacional pelo respeito pelas instituições, desde logo, uma das que mais contribuiu para conquistarmos: o voto.

Por tudo isto, acredito que há ainda tempo para que a força da razão prevaleça sobre a razão da força…  a bem de Portugal e dos portugueses!

Dirigente do PSD