PS promete “muralha de aço” erguida até segunda-feira

Secretário-geral do PS afirma-se mais determinado em concluir acordo com PCP, PEV e BE depois do ataque de Cavaco Silva. Socialistas consideram "inevitável" que Costa venha a ser primeiro-ministro.

Costa, Ferro e César: o estado-geral socialista no Parlamento
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Costa, Ferro e César: o estado-geral socialista no Parlamento Pedro Elias

A expressão saiu a um deputado socialista nesta sexta-feira enquanto percorria os corredores parlamentares a caminho da primeira sessão plenária. Depois da surpresa pelo tom, os socialistas assumiam como um trunfo aquilo que outro parlamentar classificara como a “agressividade” de Cavaco Silva. O momento era de cerrar fileiras, disparar uma resposta à altura, em suma, erguer “uma muralha de aço” à esquerda e apresentar rapidamente um Governo com todos os exigidos critérios presidenciais.

Nas hostes socialistas, era tida como inevitável a tomada de posse de um Executivo liderado por António Costa. “Sendo um institucionalista, não posso contemplar que o Presidente aceite um governo de gestão para lá daquilo que é o normal”, garantia o deputado Pedro Delgado Alves. Seria o corolário da “união instintiva” que se formara no espaço de horas, dentro do PS, depois de Cavaco ter posto “em causa pilares democráticos”.  E a comunicação de Cavaco Silva tinha tido o efeito benéfico de acelerar todo o processo de constituição de Governo. Na liderança socialista estava até já definido um prazo para fechar o acordo com o PCP, Verdes e BE. “Vai ficar pronto domingo ou segunda-feira”, asseverava um deputado.

Tiro de partida para governo de esquerda
Por essa altura, a esquerda preparava a primeira resposta ao Presidente, sob a forma da eleição do Presidente da Assembleia da República. E ninguém tinha dúvidas que essa votação se revelaria o tiro de partida para os próximos actos: anúncio de acordo, rejeição da coligação e tomada de posse da “solução alternativa”. Uma deputada do PS replicava a mesma percepção. Cavaco só “potenciara a predisposição para a densificação do acordo”, resumia

Questionado pelo PÚBLICO sobre se essa resposta deveria assumir outro peso político através de uma moção de rejeição conjunta (PS, BE, PCP e Verdes), o futuro líder parlamentar socialista, Carlos César, respondeu que “o essencial é a votação dessa moção” e que essa unidade de propósito se veria “na eleição do PAR”.

A resposta do PS ao Presidente fora forjada na madrugada de sexta-feira, através da aprovação de um novo mandato na comissão política ao seu secretário-geral. Uma nova linha, totalmente virada à esquerda. Este novo mandato fora aprovado com apenas duas abstenções. O anterior, que mandatava Costa a negociar com esquerda e direita, fora aprovada com dois votos contra e 4 abstenções.

António Costa ficava mandatado para “prosseguir as negociações e concluir um acordo com o BE, PCP e PEV e para aprofundar contactos com o PAN”. Além disso, o órgão interno socialista deliberava também “dar ao grupo parlamentar indicação para apresentar uma moção de rejeição de qualquer programa de governo que se proponha manter no essencial as políticas da anterior legislatura”.

O resultado parecia ter sido, portanto, exactamente o oposto ao pretendido por Cavaco Silva na comunicação ao país. Em vez de potenciar as vozes internas dissonantes que defendiam um PS na oposição a trabalhar para o condicionamento político da coligação, o Presidente colocou mesmo alguns destes do lado de António Costa. Exemplo disso foi a intervenção do ex-ministro Vera Jardim, que admitiu que a intervenção do chefe de Estado o forçava a uma mudança de posição.

O mesmo fez Carlos Miguel, presidente da câmara de Torres Vedras, que fez questão de anunciar a sua mudança de posição na comissão política à conta da comunicação do Presidente.

Ainda assim, houve intervenções dos críticos ao actual rumo seguido pelo secretário-geral. Embora assumindo uma atitude menos beligerante. Apesar de ter admitido como muito dificil um acordo com a esquerda em matérias como a economia, finanças ou Europa, o ex-membro da direcção de Seguro Álvaro Beleza admitiu como possível um entendimento noutras áreas como a Saúde ou Educação.

O recém-eleito deputado e também antigo membro do secretariado, Eurico Brilhante Dias, afirmou na reunião ver o PS “num túnel sem saída”, tendo ainda criticado a leitura apresentada por Costa de se estar perante um “momento histórico” no caso de se concretizar um acordo à esquerda. Um possível governo suportado pela esquerda dava a imagem de que o PS não precisaria de ganhar eleições para ser Governo no futuro. Mas nesta sexta-feira, o economista informava no Parlamento que respeitaria a disciplina de voto na rejeição à coligação.

Durante o dia, o secretário-geral manteve o sorriso mesmo quando a coligação propos Alberto Martins, um apoiante de Seguro, para presidir aos trabalhos enquanto não era eleito um novo PAR. O que tinha a dizer ao Presidente, havia já sido proferido de madrugada, quando reagiu à “grave decisão” do Presidente criticando mesmo o “modo afrontoso” como este se referira ao PS. Costa garantiu que o PS saía “reforçado na sua determinação de concluir as negociações em curso” para poder apresentar “um governo na plenitude das suas funções”.

Por mais de uma vez Costa classificou como “inaceitável” a intervenção do Presidente. Por exemplo, por colocar “em causa a imagem internacional de Portugal” nos mercados. Ou por “excluir do diálogo político um conjunto de partidos que representam cerca de um milhão de portugueses”.