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Portugal infiltrado

Anabela Moreira foi a “infiltrada” que durante um ano, sob o comando de João Canijo, desapareceu com a câmara de filmar na intimidade das pessoas e dos cafés de Trás-os-Montes e Alto Douro.

“Fiquem na vossa naturalidade!”, era o que João Canijo ouvia — a voz da Anabela Moreira — gravado nas imagens que recebia diariamente do Norte de Portugal. Anabela era a “infiltrada” que procurava desaparecer com a câmara de filmar junto da intimidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, nas casas das pessoas, nos cafés e nas ruas, em viagens que fez. Durante um ano, Anabela mandou notas desse Portugal profundo sob a forma de imagens, à espera das instruções de João, que estava em Lisboa como um Big Brother watching her. Esta é a dupla de Portugal — Um dia de Cada Vez. Formaliza-se a colaboração anterior de ambos em É o Amor (2012), o filme que era realizado por ele mas em que ele precisou que ela se tornasse numa delas. Nesse caso, eram as mulheres da comunidade piscatória dAS Caxinas, agora, num filme a dois mas em que ele está sempre a dizer que é um filme “dela”, são pessoas mais a Norte. E não tiveram outra hipótese perante as manobras de Anabela senão ficarem na sua naturalidade,

“A Anabela é desarmante, as pessoas confiam nela instintivamente”, diz Canijo. Pode talvez dizer-se que Anabela como realizadora — aqui a começar a praticar o seu olhar, uma forma que ela diz ser ainda “naÏve”; mas ele salienta a “desenvoltura”... — continua a ser actriz. Continua a exercitar as suas ferramentas para se insinuar junto das pessoas (como quando se abeirava delas para beber informação para as personagens a interpretar), sabendo criar empatia por ficar junto de cada um “de maneira diferente, de forma a que cada um consiga entender”.

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João Canijo e Anabela Moreira. Durante um ano ela foi uma “infiltrada” em Trás-os-Montes e Alto Douro, nas casas das pessoas, nos cafés e nas ruas. Mandava notas desse Portugal profundo sob a forma de imagens, à espera das instruções dele, que estava em L RUI GAUDÊNCIO

Esta sedução, sabe-o, está condenada a acabar logo que a experiência termina — há algo de implacável no jogo. “Por isso defendo-me inventando para cada uma das pessoas que conheço outros nomes. Não sei porque faço isso, é uma defesa... Partilhar o silêncio é tão difícil, e foi a isso que me dispus durante esse tempo todo, partilhar o silêncio da vida das pessoas. Tinha De desaparecer, isto é, fazer com que as pessoas não se preocupassem com a minha presença”  aquele plano de Portugal — Um dia de Cada Vez em que aparece um reflexo da realizadora a filmar não é, portanto, uma contradição, é a serena prova do desaparecimento.

“As pessoas, basicamente, precisavam de um ouvinte, as pessoas precisam de ser escutadas”, diz. No início espantou-se, até se chocou, com a facilidade com que elas se deixavam estar, com a facilidade com que se despiam perante ela — pelo que ela conta, não só metaforicamente —, o que a levou a fortalecer o pudor. “As pessoas estão habituadas aos telemóveis, não é estranho serem filmadas, nenhuma delas pôs isso em causa. Diziam: ‘Não tenho nada para dizer’. Eu contrapunha: ‘Não é preciso dizer nada’”.

É o amor
No início, Anabela foi enviada ao Norte para fazer pesquisa para uma longa-metragem de João Canijo, que há-de contar a história e o percurso de nove mulheres que irão a pé até Fátima. Tratava-se nesse momento de encontrar pessoas e de lhes perguntar o que pensam sobre as aparições, para depois utilizar esse material como atelier de trabalho para o realizador e para as nove actrizes que interpretarão as personagens. No início coexistiam as perguntas, as pessoas e a pesquisa para esse projecto e para um outro, este baseado no Guia de Portugal, a inventariação, concebida pelo jornalista e escritor Raul Proença (1884-1941), com ajuda poética e literária, dos sítios e do país. Canijo propunha-se contrapor um presente, a realidade, o agora: encontrar, para os pedaços de literatura descritiva desse guia, “o maravilhoso do edificado”. “As cidades são ali descritas de forma bastante poética e quando vamos ver o que ficou, como as pessoas habitaram as cidades, ficamos chocados.”

A longa-metragem sobre Fátima vai ser filmada para o ano (as actrizes já fizeram, entretanto, as suas viagens a pé a Fátima, inclusive Anabela Moreira que fez os seus relatórios não através de imagens mas através de textos por iPhone). O projecto do Guia de Portugal vai ser uma série de 12 episódios, é ainda um “work-in-progress”. Nele, a voz “off” a descrever os locais, tal como nos textos do Guia, e as imagens de arquivo dialogarão com as pessoas que habitam esses sítios. O que temos agora em competição nacional no DocLisboa, Portugal — Um dia de Cada Vez, é apenas uma parte do material humano que veremos no Guia de Portugal. E aquilo que começou por ser a pesquisa de Anabela, para eventualmente Canijo decidir o que depois filmar, transformou-se no próprio documentário. Canijo ia recebendo o que Anabela lhe mandava, aquilo que ela filmava em estado febril — “filmando o vazio da existência das pessoas, o seu estado de sobrevivência e os artefactos que todos encontramos para sobreviver”, conta —, e decidiu que não era necessário regressar para imprimir uma forma definitiva. Ele não iria conseguir habitar as mesmas possibilidades de intimidade. “Ela foi evoluindo muito na maneira de filmar, na escala dos planos. No início achava que devia fazer a montagem na câmara, depois passou a dar mais tempo aos planos”, conta Canijo.

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Romarias e os trabalhos do campo, Tony Carreira nos ecrãs de televisão e Cavaco Silva como um fantasma omnipresente, o feno e os produtos naturais para maleitas várias, os velhos que comentam a casa do senhor pároco, os novos que se comentam e os seus rituais — e a forma como Anabela Moreira entra nas cabeças deles (no caso, nas cabeça delas, um grupo de adolescentes), proximidade física que possibilita, sem que elas se dêem conta, ou então já é tarde de mais, o discreto vampirismo, a intromissão mental, que ali se processam. E a família, e o casal como reduto de resistência, de sobrevivência. E o amor. É o amor.

“As pessoas têm os seus sonhos. É o que encontramos para fazer na vida, a ideia de felicidade conjugal, que se encontra ou não para a levar até ao fim. O amor é a razão de tudo. Isso está lá de maneiras diferentes, mesmo através da ausência ou da traição”, concede Anabela. É uma hipótese a confirmar, se ela não estará a ser também uma infiltração de emotividade no cinema de Canijo, se isso é apenas um intervalo e que consequências terá. A meio do filme, Amália canta Com que voz. Tal como no videoclip a meio de Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa, com a canção Alto cutelo dos Tubarões (roubo assumido, assume Canijo), serve para dar rosto, corpo e espaço a todas as presenças, abraçá-las. Não há muitas hipóteses de escutar esse fado e esse abraço e procurar distâncias em relação ao que ele dirá sobre “nós”. Pode-se desconstruí-lo, ignorá-lo ou racionalizá-lo, pode-se fazer isso tudo, na verdade, mas a possibilidade de um primeiro embate, emocional, é aqui a intrigante novidade.

“O que está ali”, conclui Anabela Moreira, “tem mais emotividade do que técnica. Estou ali eu com aquelas pessoas e uma câmara na mão. Espero que os espectadores não vejam este filme através da forma. Porque ela ainda é muito ingénua, naïve.” A procissão ainda vai no adro, é claro que vamos esperar para ver onde ela vai chegar.

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