Ex-namorada de Sócrates processa Correio da Manhã por divulgação de conversas falsas

Fernanda Câncio, jornalista do DN, diz que a informação é falsa e acusa o jornal de aproveitar informações que os jornalistas conseguem por serem assistentes no processo.

Foto
O ex-primeiro-ministro foi libertado na sexta-feira, quase 11 meses depois de ser detido Nuno Ferreira Santos

A jornalista Fernanda Câncio, do Diário de Notícias, decidiu processar o Correio da Manhã pela divulgação de conversas gravadas no âmbito da Operação Marquês e que envolvem a própria jornalista, que foi namorada de José Sócrates, e a mulher de Carlos Santos Silva, amigo do ex-primeiro-ministro e também arguido no mesmo processo. Segundo Fernanda Câncio, além de as notícias violarem o segredo de justiça, são também falsas e representam uma imputação “difamatória e ultrajante”.

“É falso que em conversas mantidas telefonicamente com Inês do Rosário, na sequência da detenção de José Sócrates e Carlos Santos Silva, e que teriam sido escutadas no âmbito do processo, esta me tenha comunicado que determinado montante existente nas contas de Carlos Santos Silva pertencia na verdade a José Sócrates”, garante Fernanda Câncio, numa carta enviada ao PÚBLICO, em que acrescenta ainda que “esta imputação só pode resultar da imaginação doentia e enviesada de quem ocupa no processo a posição de acusador, público ou privado”.

Na mesma nota, a jornalista informa que, além de processar o Correio da Manhã e a CMTV, vai também exigir o acesso às gravações das conversas em causa. Depois, reitera que a divulgação de “elementos do processo” em notícias “constitui a prática manifesta, e confessada, do crime de violação do segredo de justiça, pelo que se espera que o detentor da acção penal aja em conformidade, nomeadamente determinando de imediato injunções com vista a evitar a repetição da prática do crime, uma vez que é evidente que tal conduta se repetirá”.

Fernanda Câncio vai mais longe e garante que os “funcionários” do Correio da Manhã só conseguiram informações porque se constituíram assistentes no processo, acusando-os de “terem usado essa posição processual para acederem aos elementos do processo que depois divulgam nos órgãos de comunicação de que fazem parte”.

“Para além do mais, o facto de as peças serem da autoria de quem tem no processo a posição de assistente significa que é o assistente que, embora na veste de ‘jornalista’, dá a notícia. Ora, tal conduta é atentatória dos deveres deontológicos mais elementares, nomeadamente o de informar com rigor e isenção, não se valendo da sua condição para noticiar assuntos em que tenha interesse”, sublinha a jornalista. Câncio apela também à intervenção da Comissão da Carteira de Jornalista e do Conselho Deontológico do Sindicato de Jornalistas para evitar que o jornalismo se torne numa “profissão sem regras e sem qualquer tipo de ética”.

Numa reacção ao anúncio da ex-namorada de José Sócrates, a direcção do Correio da Manhã diz que o jornal não se intimida "com manobras desesperadas de pessoas que nem conseguiram ler com objectividade e rigor as notícias que foram escritas". Para os directores da publicação, o que degrada o Estado de direito "não é o jornalismo livre mas sim a falta de transparência na gestão do dinheiro público, a ocultação de conflitos de interesses entre jornalismo e amizades políticas, a obediência acéfala a verdades cozinhadas e prontas a consumir".

Questionada pelo PÚBLICO sobre esta polémica, a direcção editorial explica que se constituiu como assistente no processo Marquês porque considera essencial escrutinar o exercício do poder político e a forma como são geridos os dinheiros públicos. Ao mesmo tempo, assegura que o interesse público e o direito/dever de informar são os únicos critérios que norteiam a sua actividade. "As escutas e os factos que o Correio da Manhã tem noticiado foram validadas pelo juiz de instrução por serem determinantes na produção de prova no processo", recorda um dos directores, Eduardo Dâmaso. "Não noticiámos nada relacionado com a vida íntima dos sujeitos processuais".

Na quarta-feira, também os advogados de José Sócrates tinham informado que estão a ponderar a interposição de uma providência cautelar para impedir que os órgãos de comunicação social divulguem informações sob segredo de justiça que resultem do acesso ao processo de jornalistas que são parte nele já que se constituíram assistentes.

As partes podem agora aceder ao processo, já que o segredo de justiça interno cessou e alguns advogados, entre eles os representantes de alguns jornais e os defensores de Sócrates, receberam esta segunda-feira CDs com as cópias de 56 volumes do processo que envolve o ex-primeiro-ministro, que esteve detido durante quase 11 meses mas que foi libertado na passada sexta-feira.

Regresso ao palco político no sábado
José Sócrates volta ao palco político no próximo sábado. O ex-primeiro-ministro vai participar numa conferência na Casa da Arte e da Cultura de Vila Velha de Rodão, Castelo Branco, intitulada Política e Justiça.

Quem fez a revelação no Facebook foi o amigo de Sócrates André Figueiredo, escrevendo que o antigo líder do PS estará “entre os seus!” e que esta conferência “será apenas o início”.

 Castelo Branco foi o distrito pelo qual Sócrates foi sucessivamente eleito deputado do PS e onde iniciou a sua vida política.

Sócrates tinha ainda agendada uma entrevista à TVI para a noite desta quinta quinta-feira, que foi adiada para a próxima semana por acordo entre ambas as partes. com Ana Henriques

Sugerir correcção