PS responde a Cavaco com moção de rejeição a Passos

Sucessão de intervenções na comissão política parecia tender mais para o apoio ao secretário-geral do que para a contestação.

O editorial refere-se sempre a João Soares como o “filho de Mário Soares”
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João Soares propôs a audição das as "secretas" depois dos ataques a Paris Daniel Rocha

A resposta do PS ao Presidente da República já está decidida. Os socialistas vão avançar com a sua própria moção de rejeição ao programa do Governo que a coligação deverá apresentar depois de Passos Coelho ter sido indigitado pelo Presidente da República.

Essa intenção parecia antever-se na reacção do deputado João Soares a Cavaco Silva. "Inevitavelmente, aquele que foi indigitado como futuro primeiro-ministro vai cair nesta Assembleia da República, não tenho sobre isso qualquer espécie de dúvidas”, disse o socialista no Parlamento poucos minutos depois da comunicação do Presidente da República.

Depois de Cavaco Silva ter criticado duramente o PS e ter sugerido aos deputados que votassem favoravelmente o programa da coligação, a comissão política do PS reuniu sob a égide da união interna. A sucessão de intervenções na comissão parecia tender mais para o apoio ao secretário-geral do que para a contestação. 

João Soares foi o primeiro a reagir em nome do PS esta quinta-feira à decisão do Presidente da República (PR), antecipando qual será a votação do PS numa futura moção de rejeição  ao programa de um Governo da coligação liderada por Passos Coelho. “Inevitavelmente, Passos Coelho vai cair”, resumiu o ex-autarca de Lisboa depois classificar o anúncio presidencial como uma “contradição com tudo o que disse”.

Lembrando que Cavaco Silva tinha avisado que não daria posse a um governo que não apresentasse uma solução estável e duradoura, João Soares concluiu depois com a inevitabilidade da queda do Governo da direita.

O reeleito deputado afirmou lamentar e estranhar a decisão por fazer “o país perder tempo”: “Introduz um factor de complexidade numa situação que já era complexa”, rematou.

“Costela de direita” do PR releva “postura de confronto” e “desrespeito”
A esquerda reagiu a uma só voz à decisão do PR: a opção de Cavaco de Silva não é pela estabilidade, como tem defendido, mas pela “instabilidade” e não teve em consideração as negociações que os partidos à esquerda têm feito para alcançar uma solução governativa alternativa. Aliás, acusaram mesmo o Chefe de Estado de “postura de confronto” e “desrespeito pela Constituição”.

Pelo Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares, defendeu que Portugal precisava de um PR “responsável” que “não fizesse o país perder tempo”. Para o bloquista, a decisão de Cavaco põe à vista a sua preferência político-partidária, a sua “costela de direita”, e de defesa dos partidos (PSD e CDS) que “perderam a maioria” nas eleições legislativas de 4 Outubro e “perderam a legitimidade para continuar a governar”. Só o Chefe de Estado “os quer salvar”, disse, frisando que a decisão também demonstra desrespeito pela solução alternativa que a esquerda (PS, BE e PCO) apresentou ao PR.

Pedro Filipe Soares reiterou o que o Bloco vem, desde a noite a eleitoral, a dizer: que rejeitarão um governo de direita que acabará, sublinhou, por ter pouco tempo “de vida”. A mesma garantia foi também sublinhada pelos comunistas, com João Oliveira a garantir uma moção de rejeição ao programa de Governo no Parlamento.

Para João Oliveira, a decisão de Cavaco Silva é “inaceitável” e não respeita a “vontade dos portugueses”. Além disso, e tal como defendeu o BE, releva uma “total ausência de imparcialidade”. O comunista acusou Cavaco de ter uma “postura de confronto” e de “desrespeito” pela Constituição da República Portuguesa.

Tendo em conta os apelos do Chefe de Estado para uma solução que contemple a estabilidade governativa, João Oliveira fez questão de deixar claro que Cavaco Silva é “inteiramente responsável” pela “instabilidade” que esta decisão vai criar no país (isto porque tanto PCP, como BE, já anunciaram moções de rejeição ao programa de Governo no Parlamento).

E também o comunista lamentou que o Chefe de Estado não tenha tido em conta que há na Assembleia da República uma maioria de deputados que permite “outra solução alternativa”, “outra política” e uma “solução duradoura” que garantia “estabilidade”.

Também Heloísa Apolónia, do Partido Ecologista Os Verdes, lamentou “profundamente” a decisão de Cavaco, mas não ficou “surpreendida”. E não ficou, porque o mandato do PR tem sido pautado pela “falta de imparcialidade” e pelo “amparo” a PSD e CDS.

Defendeu igualmente que a opção do PR, que “clama tanto pela estabilidade”, foi pela “solução mais instável”. Isto quando o Chefe de Estado sabe que havia uma “alternativa” e que, assim, com este cenário, serão apresentadas moções de rejeição (ou uma conjunta) ao programa de Governo.

Para Heloísa Apolónia, o PR não deve indigitar um primeiro-ministro tendo em conta as políticas que “gostava” que fossem seguidas, mas sim os resultados eleitorais e esses, frisou, revelaram que os portugueses não querem a continuação das políticas do PSD e CDS e apresentam “um novo quadro parlamentar”.