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Megafone

Às portas de Novembro, sonhamos Abril

É de sonhos que te falo hoje, pequeno; sonhos que sonho não precisem ser os teus, um dia

Perguntaste-me, curioso, porque nos era tão importante aquele domingo, há duas semanas. Senti-te verde, ainda, mas nem por isso menos merecedor de resposta; esperançoso, comecei...

Que o país tem muitas decisões, e alguém as tem de tomar... mas opiniões divergem. Assim se formaram vários grupos de pessoas que, pensando de forma semelhante, partilham princípios e propõem decisões; mas qual deveria, então, definir o nosso futuro?

Para tão árdua escolha servem estes dias, em que os adultos, em consciência, se encontram para votar; dizer qual dos grupos preferem. Aqueles que obtenham mais votos deverão então decidir mais do que os grupos que o consigam em menor número. Assim funciona a democracia parlamentar; aceitaste como justo.

Mas nem sempre foi assim. Durante muitos anos, foram sempre os mesmos a mandar. E as votações, quando as havia, eram afinal pouco justas. Quatro décadas duraram tempos esses, mas há outras tantas os deixámos para trás, numa revolução.

Ouvirás frequentemente falar desse sonho que o povo elevou, décadas após adormecer em pesadelo; era a liberdade... de falar, conhecer, ser, fazer, decidir. Mas desse sonho ouvirás também dizer que nunca na sua plenitude terá chegado; que ficou ainda e sempre por cumprir.

Diria que parte do que ficou por cumprir se deveu a disputas entre os grupos que, agudizadas logo depois da revolução, nunca permitiram que os valores aí defendidos fossem, de facto, implementados. Quarenta anos de costas voltadas cultivaram o sonho de ver, um dia, tais grupos de esforços unidos; foram outros definindo o caminho, entretanto, de votação em votação.

Porém, à noite, confuso com as reacções aos resultados, perguntaste-me se era possível ser mais do que um grupo a ganhar; naturalmente, disse, que não se trata de um campeonato. Não quiseste mais compreender tamanha confusão. E eu percebi-te; a lógica de vitória desportiva é um dos princípios mais fortes porque se rege uma criança de seis anos.

Perceberás melhor quando cresceres.

Mas a importância do dia 4 de Outubro de 2015 revelou-se, afinal, muito maior do que a que te transmiti. Iniciou-se aí um pedaço de história de que, espero, um dia te recordarás: se os grupos se entendessem poderiam ser maiores; e isso parecia, agora, possível.

E, assim, tal como há quarenta anos se concretizou um sonho lindo, surge nos nossos corações o vislumbre da concretização de um outro sonho, coincidentemente, há quarenta anos adormecido: partidos de esquerda a conversarem sobre o futuro.

Na altura em que escrevo, ainda não sei se tal será possível, mas só a possibilidade aquece-nos o coração como talvez nunca tenha acontecido desde que nos habituámos a não sonhar; aguardamos, ansiosos...

Enquanto isso, e mesmo que o resultado não venha a ser o que mais ansiamos, fica a memória: em Outubro, às portas de Novembro, sonhámos, ainda, Abril.

Cumpra-se.