Este pai não sabe como ser pai e este filho não sabe como ser filho

O cineasta brasileiro Sérgio Oksman regista a sua relação com o pai, que não vê há 20 anos, no filme O Futebol exibido no Doclisboa. Mas é verdade ou invenção?

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O Futebol é um filme que, nas palavras do seu realizador, “precisa de deixar o tempo passar” dr
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“Depois de 20 anos sem ver o meu pai, durante um ano telefonava-lhe todos os 15 dias e só falávamos de futebol,” explica o brasileiro. dr
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O brasileiro Sérgio Oksman vive em Espanha dr

“O futebol é uma chatice. É um pretexto para as pessoas estarem juntas, para os pais e os filhos não terem que enfrentar o grande silêncio.” Sérgio Oksman, 45 anos, diz isto apesar de o futebol ser, ao mesmo tempo, pano de fundo e título da sua primeira longa-metragem, depois de uma série de curtas premiadas pelo mundo fora (inclusive no Curtas Vila do Conde, que A Story for the Modlins venceu em 2012).

Mas não se deixem enganar: embora tudo se passe durante o Mundial do Brasil de 2014, não se vê futebol de espécie nenhuma nos 70 minutos de O Futebol, um dos títulos mais fortes da competição internacional do DocLisboa (Culturgest, 6ª 23, 22h, e São Jorge, domingo 25, 16h45). “O único futebol que aparece realmente são vinte segundos do hino brasileiro ou um álbum de figurinhas de 1974,” explica Oksman ao PÚBLICO em Locarno, onde o filme teve estreia mundial na competição oficial. Mais importante, contudo, é reparar como um brasileiro radicado há duas décadas em Espanha, que admite conhecer mal o que se faz hoje no país irmão, assina com O Futebol um filme perfeitamente integrado na nova vaga do cinema brasileiro contemporâneo.

“Não sou capaz de ter um discurso sobre o cinema brasileiro,” assume Oksman, que não visitava o Brasil havia 20 anos e cujo conhecimento da produção actual se limita ao que vai vendo nos festivais (como O Som ao Redor de Kleber Mendonça Filho e Branco Sai, Preto Fica de Adirley Queirós, que o impressionaram imenso) ou que chega às salas espanholas. Talvez por isso, o cineasta ache que O Futebol “não podia ser um filme brasileiro” e prefira aproximá-lo da nova vaga romena. “Porque é que o cinema romeno é tão maravilhoso?”, pergunta retoricamente. “Porque dá espaço para que a realidade entre, porque os planos não têm necessariamente uma função narrativa... Os alunos na faculdade acham que você liga uma câmara e captura a realidade, mas a realidade não existe. Fazer filmes documentais significa inventar uma situação, estratégias com uma estrutura, para que a realidade possa entrar e acontecer lá dentro.”

É aqui que voltamos ao “jogo bonito”, que é o dispositivo central à volta do qual o filme gira, criado em estreita cumplicidade entre Oksman e o espanhol Carlos Muguiro (co-argumentista e co-montador, presente também em Locarno e atento ao desenrolar da conversa). O que pode haver em comum entre dois familiares que não se vêem há 20 anos? Exacto. “Depois de 20 anos sem ver o meu pai, durante um ano telefonava-lhe todos os 15 dias e só falávamos de futebol,” explica o brasileiro. “Percebi que os parentes, os familiares que tínhamos eram mais jogadores de futebol do que verdadeiros familiares. O futebol inventou-se para que, quando existe um grande silêncio entre duas pessoas e elas querem estar juntas, possa haver algo a que elas se agarrem...” E é o futebol a que se agarram Sérgio Oksman, cineasta radicado em Espanha, e o pai Simão Oksman, que gere uma pequena empresa de electrónica em São Paulo.

Só que este Sérgio e este Simão não são exactamente os verdadeiros Sérgio e Simão; são variações, invenções de Oksman e Muguiro a partir do verdadeiro reencontro entre pai e filho, que teve lugar em 2013 - “um encontro muito breve, passámos um dia juntos, conversámos” - e é mostrado em “prólogo” do filme. A ideia de ambos experimentarem construir uma relação passando um mês juntos em São Paulo durante o Mundial de 2014 foi lançada por Sérgio como ponto de partida para a construção do filme - “pensado nos mínimos detalhes antes da viagem,” explica. “A proposta era dar um passo a mais, tentar conviver como pai e filho. E o filme é um pretexto para que o pai e o filho estejam juntos. O pai e o filho eram personagens ficcionais embora fossem reais. O pai faria o papel de pai, o filho faria o papel de filho. E o Simão aceitou esse jogo. Mas estávamos trabalhando com elementos reais, e a realidade a certo momento irrompe no filme além do nosso controlo ou da nossa intenção de a controlar.”

Uma das “provas” disso reside num momento particularmente tocante onde Simão Oksman diz que não quer que o neto passe pelo mesmo que o filho passou quando se separou da esposa. “Só descobri isso na montagem em Madrid!” diz Sérgio. “Não o ouvi no momento em que ele o disse. A verdade é que tentei nos primeiros dias que o meu pai interpretasse para a câmara um texto que nós próprios escrevemos em conjunto, no momento, mas não funcionou. O meu pai tinha algo de selvagem. Fez-me perceber que eu podia controlar o plano, mas não a personagem. Isso foi a grande sorte do filme. Ele impunha as regras até certo ponto.” E percebe-se rapidamente que, por muito manipulado que o dispositivo fosse, existe em O Futebol uma dimensão verdadeiramente espontânea, documental.

Sérgio diz que a estrutura de O Futebol estava perfeitamente pré-definida, “a todos os níveis – de uma maneira muito estrita e rígida, como filmar, como colocar a câmara, mesmo o final estava escrito”. Como explica, “não queríamos que a realidade estragasse o nosso filme, mas essa estrutura permitia-nos estar abertos a tudo o que pudesse acontecer. Não queríamos rodar nada de excepcional senão agarrar a rotina, registar o tempo em que não acontece nada entre duas personagens, enquanto se celebrava o grande evento futebolístico. O bonito de deixar o tempo e o tédio num filme é porque o espectador acaba por entender as razões das coisas sem ter de as explicar, sem precisar de falar do passado, de fazer autobiografia... Basta dar tempo.”

O Futebol é um filme que, nas palavras do seu realizador, “precisa de deixar o tempo passar. Não é um filme autobiográfico, não é terapia, não é psicologia, não é o filme de um reencontro...” É sobretudo sobre a ausência, sobre o vazio - sobre uma relação que não existe entre um pai e um filho, sobre futebol que nunca se vê. “É o desejo que o filme seja um sítio para o espectador, que tenha espaço para todos, ecos e espelhos para que o espectador entre e se instale lá dentro”, nas palavras de Carlos Muguiro. Um documentário que não é registo de nada, uma ficção que não é inventada. Porque “vamos todos ser esquecidos com o tempo. Mas o futebol continua.”