O regime pode esperar, o que está em causa "é salvar uma pessoa"

Algumas centenas de pessoas voltaram ao Rossio, em Lisboa, e acompanharam outros manifestantes no Porto num único grito por Luaty Beirão e os outros 14 activistas detidos: "Liberdade já."

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No Rossio lisboeta voltou a gritar-se "Liberdade já" Nuno Ferreira Santos
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Muitas pessoas voltaram também a juntar-se frente ao consulado de Angola no Porto Paulo Pimenta
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A vigília pelos 15 activistas detidos em Angola ainda não tinha começado e já David, Simone e Mia brincavam à liberdade na pequena escadaria do monumento a D. Pedro IV, em Lisboa. Os pedaços de cartão e os marcadores eram as telas e os pincéis com que as três crianças, a mais velha com cinco anos de idade, mostravam ao mundo o que voltou a juntar centenas de pessoas na noite desta quarta-feira, no Rossio lisboeta, e também em frente ao consulado de Angola no Porto: "Liberdade já."

Liberdade para Luaty Beirão, o rapper luso-angolano que iniciou uma greve de fome há um mês; liberdade para Albano Bingo-Bingo e Nélson Dibango, que também passaram alguns dias pela mais extrema das acções de protesto; liberdade para os outros 13 activistas que foram detidos há quatro meses em Luanda por discutirem "preocupações de política e governação sob a liderança do Presidente José Eduardo dos Santos", segundo a Amnistia Internacional.

Para a Justiça angolana, os 15 foram apanhados em "flagrante delito" quando preparavam "a destituição do Presidente da República" e "a criação de um governo de transição". Foram detidos e ficaram em prisão preventiva sem acusação mais do que os 90 dias previstos na lei angolana, e sabem agora que vão ser julgados daqui a um mês, entre 16 e 20 de Novembro.

"É impossível ficar indiferente", diz ao PÚBLICO Raquel Castro, mãe dos pequenos que pintavam pedaços de cartão com a palavra "Liberdade", deitados no chão, como se estivessem a fazer um desenho para pendurar nas paredes de uma sala de aula. "Manifestamo-nos com regularidade, é importante que eles percebam o que está a acontecer", diz Raquel. E é isto que vai mudar o futuro imediato de Luaty Beirão — os cartazes, as vozes que gritam "Liberdade já" e "Abaixo a repressão", em Lisboa e no Porto? A pergunta sai atabalhoada, e a resposta de Raquel é desarmante: "Se não for isto, é o quê?"

Francisco Louçã, economista e antigo coordenador do Bloco de Esquerda, dá a mesma resposta, mas por outras palavras. Isto — as manifestações, os cartazes, as palavras de ordem — chega tudo ao coração de Angola.

"Eu estava em Luanda quando houve a primeira marcha em Lisboa, e a presença de grandes escritores angolanos, da Mayra Andrade, e de muitas outras pessoas, foi muito acarinhada. Foi vista com muita simpatia por aquelas dezenas de jovens que todas as noites se juntam em vigília à porta de igrejas diferentes, e que são a voz de uma sociedade que está preocupadíssima com este assunto", diz.

Louçã exalta a "coragem enorme" de Luaty Beirão, na defesa "da coisa mais essencial: humanidade, liberdade de opinião, direito democrático". Mas agora não é a hora certa para se falar em mudanças de regime, defende o economista — esse "mudará conforme o povo decidir e as circunstâncias políticas determinarem".

"O que está aqui em causa é estritamente a humanidade. É salvar uma pessoa e, em certa medida — com ele e com os outros presos —, salvar a ideia essencial de que a liberdade de opinião é um bem como beber água. Não se pode dispensar em nenhuma circunstância. Morre-se de sede se não houver liberdade de opinião. É isto que estes jovens estão a trazer para o debate público, da forma mais aberta, mais verdadeira, mais generosa que se pode imaginar."

Depois disso, quando a vida de Luaty já não estiver em risco, "haverá uma discussão a ter sobre o que Portugal faz, o que é a CPLP, mas hoje a questão é salvar uma vida". E Francisco Louçã acredita que a mais premente das duas questões está bem encaminhada.

"Os sinais têm sido de que há uma grande mudança. O pároco da Igreja de São Domingos, em Luanda, que nunca tinha tomado nenhuma posição, publicou um vídeo a dizer que a prisão é injustificável e a defender estes jovens. São posições novas, corajosas, surpreendentes, de gente que se faz respeitar, e isso vai contar."

Do meio da multidão levanta-se um exemplar de From Dictatorship to Democracy, do norte-americano Gene Sharp, o livro/vento de mudança que abanou o pensamento político de activistas como Domingos da Cruz, e que apanhou na tempestade Luaty Beirão e outros como ele.

O livro vai ser publicado em português pela editora Tinta da China, até ao final do ano, mas o exemplar que passa de mãos no Rossio está escrito em inglês e é de Sachondel Joffre, 37 anos, um médico pediatra angolano que conhece Luaty Beirão como poucos o conhecem nesta Lisboa que anoitece.

"Ele levava a filha às minhas consultas e eu aproveitava sempre para manifestar a minha admiração, e às vezes eu perguntava como é que podia contribuir. Ele diziam-me que eu é que tinha de pensar nisso, que eu ia descobrir a minha maneira de poder ajudar as nossas causas. E dizia-me: 'Um dia a gente conversa, liga-me.' Não tivemos oportunidade", lamenta Joffre.

O médico estava em Luanda na noite em que Luaty Beirão e os outros activistas foram detidos. Horas antes, nesse dia 20 de Junho, se o rapper estava a pensar em derrubar o regime angolano, como acusa a Justiça do país, pela sua cabeça passavam outras preocupações um pouco mais prosaicas. "No dia em que isso aconteceu, ele mandou-me um e-mail por causa da filha dele. Que pessoa está a preparar-se para fazer um golpe de Estado e está preocupado com o eritema da fralda da filha? É ridículo", acusa o médico.

Duas horas depois do início, a vigília compacta começava a diluir-se em pequenos grupos de amigos, depois de Sérgio Godinho ter cantado que a democracia é o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros. "E essa é a luta no fundo", cantou, a capella, até ao final gritado em conjunto pelas dezenas que o ouviam: "Pelos direitos humanos no mundo."