Costa vive impasse à esquerda e à direita

Maria Luís desmente Costa e Marco António diz que a coligação quer negociar. No PCP começa a ser dado por adquirido que não haverá acordo. O Editorial do Avante! apoia a manifestação contra a Nato.

Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

Na direcção do PCP instala-se a ideia de que não será concretizada a hipótese de acordo com o PS e o BE para que haja um governo minoritário dos socialistas apoiados à esquerda no Parlamento.

De acordo com informações recolhidas pelo PÚBLICO, há dirigentes comunistas que consideram que é arriscado ensaiar um acordo com António Costa quando surgem sinais de instabilidade dentro do PS, indicativos de que o actual secretário-geral está fragilizado e não domina o partido. De acordo com um desses responsáveis, “é preciso vontade política para impor uma decisão destas”, mas, adverte outro responsável comunista: “Uma coisa era Costa ter ganho as eleições e abrir negociações connosco, outra muito diferente é fazê-lo sem sequer dominar o seu partido.”

Com mais “reuniões técnicas” do PS com o BE e do PS com o PCP previstas para a semana, embora sem data e hora marcada, começa a instalar-se algum cepticismo entre socialistas, bloquistas e comunistas de que possa ser estabelecido um acordo em tempo útil de os três poderem comunicar ao Presidente da República as condições e as características do seu entendimento, nas audiências de terça-feira, PS e BE, e quarta, PCP e o PEV.

As negociações do PS com o PCP e o BE têm corrido de forma diversa. Com o BE mais concretas, com o PCP mais políticas. Muito do que o BE propôs ainda não foi abordado, mas há um impasse real em relação à Segurança Social. Isto quando Catarina Martins e Mariana Mortágua já afirmaram que o BE apenas garante a viabilização do programa de Governo do PS e o Orçamento do Estado para 2016. Ou seja, não há forma de o BE dar um acordo de legislatura ao PS, condição que pode ser importante para o Presidente da República.

Já com o PCP, a negociação está ainda mais atrasada. No sábado, Jerónimo de Sousa repetiu a ideia de que “nada impede o PS de formar governo e entrar em funções”, como alternativa a um governo do PSD-CDS. E repetiu que o PCP não se oporá a um governo do PS, “mesmo num quadro em que o PS insista no seu programa e que não seja possível – o que de facto não é fácil – encontrar uma convergência sobre um programa de governo”.

Jerónimo de Sousa tem, aliás, reproduzido a posição do PCP que na quinta-feira veio reafirmada no editorial do Avante! Nessa rúbrica do jornal oficial do PCP, que verte as posições do Comité Central, está expresso que “o programa do PS não responde à aspiração de ruptura com a política de direita”. E garante que “sejam, porém, quais forem as circunstâncias e a evolução da situação, os portugueses podem ter como garantido que os votos do PCP contribuirão sempre para todas as medidas que forem úteis para os trabalhadores, o povo, o país e opor-se-ão a tudo o que signifique mais exploração, empobrecimento, injustiças sociais e declínio nacional”. O mesmo editorial que termina a apoiar “a iniciativa pela Paz e contra a NATO a realizar em Lisboa no próximo dia 24 de Outubro.”

Coligação disponível
Embora tecendo duras críticas às afirmações Costa e à carta por estes enviada a Passos Coelho, que o PÚBLICO divulgou, o vice-presidente do PSD, Marco António Costa, fez questão de ressalvar, no sábado, que a direita está disponível para prosseguir as negociações.

“Nunca abandonaremos uma atitude séria de negociação. Nunca viraremos as costas ao nosso país. Nem nunca viraremos as costas a uma atitude construtiva de negociação. Mas não estamos disponíveis para simulacros negociais, nem para arrastar na praça pública esta tentativa de inquinar uma negociação séria com insinuações infundadas que só podem estar justificadas em desespero político”, disse Marco António Costa aos jornalistas, considerando “inaceitável que, a meio de um processo negocial se lance estas atoardas injustificadas para tentar criar sombras na opinião pública que não têm o mínimo fundamento”.

Na sexta-feira à noite, na TVI, Costa sugeriu que um das razões pelas quais a conversa com a coligação de direita azedou foi por causa de “uma má notícia para o país que um dia os portugueses vão saber”. E acrescentou: “Foram sempre deixando cair uma nova surpresa desagradável que um dia vão ser tornadas públicas sobre a real situação financeira do país.”

Horas depois de Marco António falar, e sublinhado que se pronunciava na “qualidade de militante e deputada eleita do PSD”, Maria Luís Albuquerque reagia: “Em política não vale tudo e do PS esperar-se-ia um comportamento responsável e verdadeiro perante os portugueses.” Numa nota à comunicação social, afirma que “a situação das finanças públicas portuguesas é absolutamente transparente e é permanentemente auditada por entidades independentes nacionais e externas”.

Diz ainda que “nada do conteúdo da referida reunião é susceptível de suportar as insinuações proferidas pelo secretário-geral do PS, nem no decorrer da mesma foram suscitadas quaisquer preocupações ou informações sobre temas que não sejam do conhecimento público (como é o caso do processo de privatização da TAP ou a investigação aprofundada sobre o Banif iniciada pela Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia) ou que sejam passíveis de gerar alarme sobre a situação actual e perspectivas futuras do país”.  E garante que “toda a informação relevante disponível”, sobre “a execução orçamental de 2015 e ponto de situação da actualização do cenário macroeconómico, foi fornecida verbalmente” e por escrito.

Já sobre a carta a Marco António considera que esta “enferma” de “três vícios”: parte do princípio de que o programa vencedor das legislativas foi o socialista; não apresenta uma metodologia para o “avanço das negociações”, como a direita esperava; não apresenta uma contraproposta e ainda tenta criar a “ideia artificial” de que as negociações só correm bem à esquerda.

Ainda assim, garantiu que, da parte da PaF, “haverá sempre uma atitude construtiva para um diálogo efectivo” e vão “responder” à carta, mesmo que, diz, não apresente um caderno de encargos e se limite a elencar de forma “avulsa” e “completamente irrazoável” um conjunto de ideias que partem do princípio que o programa do PS foi vencedor.

“Não temos uma posição que nos permita sozinhos governar e, por isso, é que estamos abertos e empenhados desde o primeiro momento numa atitude séria de negociação com o partido que comunga com os partidos da coligação um dos valores essenciais da nossa democracia e do projecto internacional”, declarou.

E acrescentou ser “claro para todos os portugueses que há uma tentativa de criar uma ideia artificial na sociedade portuguesa de que as negociações só correm bem com a esquerda, com a coligação PaF essas negociações nunca correm bem”. Tal, defende Marco António Costa, “é um sofisma, não corresponde à verdade”.