Cheat meals: sim, não ou talvez?

Para marcar o Dia Mundial da Alimentação Mónica Sousa, nutricionista na componente desportiva, fala sobre 'Cheat Meal', um conceito cada vez mais popular entre os atletas.

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O conceito de cheat meal/day tem vindo a ganhar popularidade em contexto desportivo, especialmente entre os praticantes de desportos estéticos como o fisiculturismo. O termo cheat meal ou cheat day pretende referir-se a refeições ou dias de sobrealimentação, que se intercalam geralmente com dias alimentares hipoenergéticos e muitas vezes restritivos em termos de variedade alimentar, com o objectivo de quebrar a monotonia alimentar e de reactivar o metabolismo.

Esta temática (tal como tantas outras na nutrição no desporto) é amplamente discutida em vários fóruns e blogs, como pode ser constatado por uma simples pesquisa num portal de busca genérico. Porém, no mundo científico, a conversa é um pouco diferente. Se pesquisar este termo num portal de busca de artigos científicos, como o PubMed, verifica que ainda não existe. Ou seja, não existe informação científica específica sobre as cheat meals. Não significa isto que esta estratégia não tenha efeito, apenas significa que o possível efeito ainda não foi testado cientificamente. O que se costuma fazer nestas ocasiões é procurar artigos que tenham estudado uma situação o mais similar possível com o que estamos a tentar averiguar. Neste caso, serão artigos que discutam sobrealimentação e metabolismo.

Vamos então ver o que se sabe cientificamente sobre sobrealimentação e regulação metabólica. A leptina é uma hormona anorexigénica (ou seja, que induz uma redução do apetite) produzida predominantemente pelo tecido adiposo. A resposta endócrina à restrição energética leva a uma redução da concentração plasmática de leptina, podendo dificultar a continuidade da perda de peso e favorecer o reganho do peso perdido. Assim, estratégias que alterem favoravelmente as concentrações plasmáticas de leptina poderão ser uma mais-valia. Neste sentido, a sobrealimentação aguda poderá trazer alguma vantagem, uma vez que parece aumentar a expressão do gene da leptina no tecido adiposo e aumentar as concentrações plasmáticas de leptina. 

Num estudo, homens saudáveis normoponderais alternaram de forma randomizada 3 dias de sobrealimentação (130% do gasto energético total) com 3 dias de subalimentação (70% do gasto energético total), sendo estes dois períodos separados por 3 dias de alimentação euenergética (100% do gasto energético total). Os autores reportaram que os níveis de leptina responderam de forma aguda a alterações modestas no balanço energético: diminuíram após a subalimentação, aumentaram após a sobrealimentação e não se alteraram significativamente após o período euenergético comparando com os níveis do tratamento anterior. Curiosamente, os níveis de leptina regressaram ao baseline após os participantes terem concluído os 2 tratamentos alimentares complementares, ou seja, após terem compensado o défice ou o excesso de energia acumulada. Fazendo a ponte para as cheat meals, será que retomar o plano alimentar anterior (normalmente hipoenergético) – compensando assim, o excesso de energia consumida na cheat meal/day – leva à anulação do possível aumento dos níveis de leptina? 

Noutro estudo com o objetivo de determinar os efeitos da sobre alimentação, mulheres magras e saudáveis ingeriram durante 3 dias mais 40% das suas necessidades energéticas sob a forma de hidratos de carbono ou de gordura. Concluiu-se que o sobreconsumo de hidratos de carbono, mas não de gordura, promoveu um aumento da concentração de leptina e do gasto energético (em 7%, cerca de 138kcal, das quais 36kcal são referentes ao efeito térmico do consumo dos hidratos de carbono – energia necessária para a digestão, absorção, transporte, metabolismo e armazenamento). Noutras palavras, a haver sobrealimentação com o objetivo de aumentar a leptina, esta deverá ser de hidratos de carbono e não de gordura. Por isso, alimentos ricos em gordura como pizzas, hambúrgueres e alimentos fritos não deverão ser privilegiados. De qualquer modo, será que uma refeição, ou um dia de sobrealimentação, terá o mesmo efeito que 3 dias de sobrealimentação?

Apesar destes estudos terem tido resultados bastante interessantes, ambos estão longe de mimetizar o que os atletas fazem aquando das cheat meals. Além disso, os participantes não eram desportistas, havendo, por isso, possibilidade dos resultados serem diferentes (ou não) para esta população específica.

Assim sendo, e tendo em conta o exposto, não existe ainda evidência científica que suporte a utilização das cheat meals (ou dos cheat days) em contexto desportivo. Reforço que isto não significa que estas estratégias não têm, ou têm, efeito; apenas realça o facto de este assunto ainda não ter sido convenientemente estudado. Pela evidência existente, parece poder haver algum efeito positivo na utilização dos cheat days, mas um longo caminho terá ainda de ser percorrido antes de se chegar a alguma conclusão cientificamente suportada.

*Mónica Sousa, nutricionista na componente desportiva, colaborou com a Federação Portuguesa de Atletismo. Foi nutricionista da equipa de futebol sénior do Vitória de Setúbal e colaborou com a Federação Portuguesa de Natação, entre outras modalidades. Doutorada em Ciências do Desporto, especificamente na área de nutrição no desporto de alto rendimento
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