Dançar contra a urgência

Pode não passar de um delírio quixotesco, mas Rachid Ouramdane criou em Tenir le Temps uma obra que reclama a disponibilidade para pensar e não apenas para reagir pressionado pela urgência. A 17 e 18 de Outubro, no Centro Cultural de Belém.

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Esta ideia de tentar rasteirar o tempo, deitá-lo ao chão e imobilizá-lo por uns breves instantes começou a tomar forma na cabeça do coreógrafo francês Rachid Ouramdane na sequência da criação de várias peças que o levaram até “lugares politicamente algo tensos e onde a liberdade de expressão é limitada”. Nesses projectos, desenvolvidos em países como Rússia, China, Camboja ou Vietname, o coreógrafo quis que o movimento nascesse como extensão dos testemunhos de vítimas de tortura, refugiados políticos, desportistas de alta competição e migrantes com que contactou. Em comum, uma mesma intenção de patrocinar o confronto entre indivíduo e colectivo, público e privado.

Foram ainda as sequelas tardias das conversas com habitantes da região Lai-Châu, numa pesquisa realizada anos antes para a criação de Loin… (2008), que desembocaram em Sfumato (2012). Na altura, sempre que lhes perguntava pela sua terra, os “refugiados climáticos” vietnamitas retorquiam “qual delas?”. Quase engolida pela subida do nível das águas, uma réplica de uma povoação de Lai-Châu estava a ser construída para acolher a população da aldeia. “Isso levou-me a ter consciência de temas como o aquecimento global e à urgência das decisões”, relata o coreógrafo ao Ípsilon. “Mas ao olhar em meu redor tenho a impressão de que estamos sempre a viver nessa urgência, estamos sempre diante de situações urgentes às quais é preciso responder.” A urgência não se tratava, por isso, de um estado de excepção, mas sim de uma condição contemporânea por defeito.

E nem é preciso pensar em situações-limite como a actual crise de refugiados que tomou conta da Europa e passou a dominar o discurso político. Aquilo que se tornou demasiado grande para Rachid Ouramdane dedicar agora toda uma coreografia a tal ideia foi a constatação de que essa lógica de respostas urgentes e pouco planeadas coloniza toda a vida quotidiana. “Encontram-se sempre soluções de última hora e que nunca são ideais”, comenta. “O que me leva a concluir que hoje vivemos um tempo que não é de reflexão, mas apenas de reacção. Não fazemos outra coisa senão reagir. Claro que podemos adaptar-nos e temos uma formidável capacidade de adaptação. Mas a que preço?”

O palco de Tenir le Temps, que este fim-de-semana se apresenta no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, é, por isso, um cenário de resistência. Quando os corpos dos 16 bailarinos avançam num movimento contínuo, numa corrida mecânica, num passo firme em que não há tempo para questionar o passo seguinte, com uma marcha sempre atrasada para qualquer coisa, a paragem de um obriga a um desmoronar do conjunto. A comunidade que Ouramdane coloca em palco é, por isso, uma comunidade de resistência, tendo o coreógrafo consciência de que o combate que lhes encomenda é quixotesco, é uma luta falhada à partida – “claro que o tempo não se pode agarrar, é abstracto, escorrega”, concede. Só que se o tempo não se agarra, pode a mão esticar-se e agarrar um outro corpo, pode socorrer quem, num movimento de queda, rompe com uma caminhada que, mesmo sem saber para onde se dirige, prossegue de forma imparável e determinada. E é nesse instante que Ouramdane coloca um pauzinho na engrenagem que gere a relação entre indivíduo e colectivo: “O que um produz afecta toda a comunidade. Se há um que cai, outro tenta amparar-lhe a queda e isso também o faz cair. São esses efeitos em cadeia, de reacção em dominó, que colocam o indivíduo a perturbar e a alterar a acção do grupo.”

Como é evidente, não é apenas a disrupção em si que o coreógrafo pretende alcançar com os efeitos desta “falha”. A queda do automatismo é a sua forma de obrigar cada bailarino, cada ser isolado, a tomar consciência do outro e do lugar que ocupa. “Há coisas que tento defender que são sempre um pouco utópicas”, reconhece. “Mas hoje em dia quando somos utópicos dizem-nos que somos ingénuos, e eu acho que é precisamente o contrário, é o assumir da maior responsabilidade que se pode ter.”

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O que as palavras não nomeiam
Apesar de, à superfície, poder entender-se que Tenir le Temps rompe com a prática repetida de Rachid de trabalhar com vários testemunhos e deles extrair um sentido para a sua criação, a postura do coreógrafo pouco se altera. A recolha de textos e testemunhos sobre forças de autoridade e métodos de repressão (Polices!), sobre o exílio e a deslocação de populações (Sfumato), sobre a memória viva da História impressa nos corpos pela tortura (Des Témoins Ordinaires) ou sobre a colonização e o sentimento de ser estrangeiro (Loin…) forneceu-lhe claros motivos criativos, mas às correspondências entre testemunhos orais e soluções de encenação e coreografia acrescia sempre tudo aquilo que as palavras não eram capazes de nomear. “Na peça baseada em relatos de vítimas de tortura”, exemplifica, “há coisas que nunca nos disseram mas que eram contadas pela cara das pessoas, pelo seu silêncio e pela sua tensão. Hoje reflicto muito sobre esse equilíbrio entre o que me contam o palco, os movimentos e os corpos, e o que me contam as palavras, os testemunhos.”

Em Tenir le Temps, o foco é claramente colocado no corpo. Mas a peça não deixa de funcionar como testemunho. “Conheço bem a problemática do jornalista e a sua pretendida objectividade”, comenta, traçando uma diferença nas suas intenções e nos seus processos. Não é o registo jornalístico nem o da documentação histórica que o move. Enquanto artista, Rachid permite-se o recurso sem limites à ficção e à abstracção. Os testemunhos das peças anteriores são, em primeiro lugar, encarados como meios para “partilhar uma reflexão e não para contar a história de uma pessoa”. O mundo privado de cada indivíduo pouco lhe interessa. É apenas o pretexto para, a partir de uma intromissão no espaço íntimo, alcançar o universal. A partir daí, a responsabilidade é do espectador.

Rachid Ouramdane assume as imagens e uma vontade de partilha, mas recusa usar o palco para “proselitismo ou evangelização”. É ele quem decide que os corpos da sua coreografia estacam em frente uns aos outros e tomam consciência do outro. Mas depois cabe ao espectador manter a atenção presa na cena ou, nem que seja por um segundo, tomar em mãos essa quebra de encantamento para também se atrever a olhar à sua volta.