Antologia de um país

Portugal inteiro, em retrato panorâmico, da Serra da Estrela às periferias das grandes cidades: Os Inquéritos (à fotografia e ao território) – Paisagem e Povoamento, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, é toda uma retrospectiva de um território.

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Uma das imagens da série Periferias, de Paulo Catrica PAULO CATRICA
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O território português urbanizou-se e suburbanizou-se. Casario de Castro Verde, fotografado em 1955 no âmbito do Inquérito à Arquitectura Regional Jose Manuel Costa Alves/ordem dos arquitectos
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A exposição conta com obras de alguns dos principais fotógrafos contemporâneos nacionais que têm trabalhado questões como a paisagem e o território, como Daniel Blaufuks Daniel Blaufuks
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Um homem tem duas sombras Carlos Relvas
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Sob a Luz Quase Igual, de Eduardo Brito, é uma série criada a partir de uma viagem de carro entre Sagres e Finisterra que pela primeira vez é apresentada em exposição Eduardo Brito
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O levantamento do vale do Ave Carlos Lobo
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O CIAJG expõe a mais recente série de Valter Vinagre, Posto de Trabalho Valter Vinagre

É um raro retrato panorâmico de Portugal. Quer do ponto de vista do seu alcance geográfico, quer da multiplicidade de disciplinas convocadas, Os Inquéritos (à fotografia e ao território) – Paisagem e Povoamento é um esforço sistemático e rigoroso para mapear o país. Partindo de um conjunto de imagens que percorre 130 anos de fotografia, a exposição convoca também outros registos para questionar o país: o que ele foi e o que ele é hoje. A viagem faz-se, a partir deste sábado, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG).

Os Inquéritos… é um trabalho antológico. Em termos territoriais, está aqui Portugal inteiro. Da Serra da Estrela às periferias desproporcionais das grandes cidades, da arquitectura popular aos não-lugares, da paisagem costeira às “ruas da estrada”. A abrangência de disciplinas que aqui são convocadas é também relevante. É certo que a fotografia assume o papel central – é fundamentalmente a partir de um vasto acervo de imagens que se constrói a exposição –, mas há também contributos da geografia, da arquitectura ou da etnologia para este retrato alargado do país. “Interessava-me muito a intersecção com outras disciplinas”, explica o director-artístico do CIAJG, Nuno Faria, que assume a curadoria da exposição.

Há dois exemplos praticamente paralelos que ilustram essa intenção de multidisciplinaridade. De um lado, a colecção do Centro de Estudos de Etnologia, que reúne elementos (fotografias, filmes, arquivo sonoro e gráfico) da operação levada a cabo, entre 1947 e o princípio da década de 1980, pelo grupo de etnólogos liderado por Jorge Dias, para registar e resgatar as actividades tradicionais de origem ancestral que estavam em progressivo desaparecimento no país. Do outro, o monumental Inquérito à Arquitectura Regional desenvolvido por um conjunto de arquitectos liderados por Keil do Amaral que entre 1955 e 1957 percorreram Portugal, munidos de câmaras Rolleiflex, na tentativa de encontrar os traços de modernidade da arquitectura regional, vernacular ou erudita. Desse trabalho resulta um catálogo impressionante de construções, paisagens e pessoas.

A serra mítica
A exposição que este sábado se inaugura no museu de Guimarães tem como ponto de partida a Expedição Científica à Serra da Estrela que a Sociedade de Geografia de Lisboa promoveu em 1881. O seu objectivo era fazer “a primeira demanda sistemática de um território específico”, explica Nuno Faria. O ponto mais alto de Portugal assumia-se então um lugar “altamente mitificado e longínquo”, sempre envolto em mistério. Tal como nesta exposição, nesse trabalho estiveram envolvidas equipas de diferentes disciplinas, da Medicina à Etnologia, da Meteorologia à Botânica. E, pela primeira vez, a fotografia teve então direito ao seu próprio lugar, ainda que nenhuma das imagens que chegaram até aos dias de hoje e que são associadas a essa incursão pela serra possa, com certeza, ser atribuída aos fotógrafos que a acompanharam.

A expedição científica incluía também uma secção de Arqueologia, liderada por Francisco Martins Sarmento, patrono da Sociedade Martins Sarmento, a mais antiga instituição cultural vimaranense, que aqui é destacado porque, para o director do CIAJG, é importante a “ligação do museu com o território”. Essa relação com Guimarães surgirá, novamente, através das obras de Eduardo Brito (Sob a Luz Quase Igual, série criada a partir de uma viagem de carro entre Sagres e Finisterra que pela primeira vez é apresentada em exposição, depois da edição em livro, no ano passado) e de Carlos Lobo (que finalmente mostra o levantamento do vale do Ave que fez, a partir de 2012, por encomenda da Capital Europeia da Cultura, e que nunca chegou a ser exposto) – dois fotógrafos que assumiram relevo nacional, continuando a trabalhar a partir da cidade.

Ainda que a expedição científica de 1881 tenha produzido conhecimento abundante, o mistério que envolvia o ponto mais alto de Portugal continental não se perdeu. A Serra da Estrela permaneceu um espaço mitificado e fascinante para as gerações seguintes, como um “lugar matricial” e um contínuo “enigma”, defende Nuno Faria. A sua presença repete-se, por isso, ao longo de Os Inquéritos…. Apontamos, desde logo, para a obra de Orlando Ribeiro, o pai da Geografia moderna em Portugal, que a partir de 1937 fotografou insistentemente o território. O cientista teve “sempre um olhar muito curioso”, como sublinha o director do CIAJG, e pousou-o diversas vezes na Serra da Estrela, tendo-a revisitado frequentemente no decurso das suas investigações. Nesta exposição são recuperadas algumas dessas imagens, bem como um muito interessante conjunto de fotomontagens originais em formato panorâmico documentando o mesmo território.

Orlando Ribeiro tem um outro lugar nesta exposição, pela mão de Duarte Belo, que fotografou conjuntos de imagens feitas pelo geógrafo. Belo, como Ribeiro, desenvolveu um fascínio particular pela Serra da Estrela. Fotografou-a recorrentemente desde os anos 1990 e esse conjunto de imagens está também incluído em Os Inquéritos…. A serra ocupa ainda um lugar especial na obra de Pedro Tropa, cujo trabalho artístico tem estado fortemente ligado à sua prática de montanhista. Nesta exposição apresenta dois projetos que se inserem nesse campo de trabalho: Até às cinco da tarde, conjunto de desenhos, diagramas, texto e fotografia, e Passo em falso (refúgio), projecção e construção de um abrigo/refúgio de uso comunitário nas Penhas Douradas.

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A Expediçâo Científica à Serra da Estrela que a Sociedade de Geografia de Lisboa promoveu em 1881 foi a primeira tentativa sistemática de documentar um território mítico e matricial situado em pleno coração do país DR
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André Príncipe percorreu as fronteiras do país para filmar Campo de Flamingos sem Flamingos; dessa viagem resultou também a série fotográfica O Perfume do Boi ANDRÉ PRÍNCIPE

Da fotografia à Land Art
Apesar de todos os cruzamentos que aqui se operam, Os Inquéritos... – que fica patente no CIAJG, em Guimarães, até 31 de Janeiro – é, acima de tudo, uma exposição de fotografia. Conta, por isso, com obras de alguns dos principais fotógrafos contemporâneos nacionais que têm trabalhado questões como a paisagem e o território, como Daniel Blaufuks (com Um pouco mais pequeno do que o Indiana, o road movie que fez na ressaca do Europeu de futebol de 2004), Paulo Catrica (que recupera duas séries sobre as periferias das grandes cidades, Periferias e The inner circle, ambas de 1998), André Príncipe (em dose dupla, com o filme Campo de Flamingos sem Flamingos e a série O Perfume do Boi, realizada durante a mesma viagem de três meses que fez pelas fronteiras do país para rodagem dessa longa-metragem, estreada em 2013), ou Valter Vinagre, de quem o CIAJG expõe a mais recente série, Posto de Trabalho, na qual regista um conjunto de abrigos que servem de apoio à actividade das mulheres que se prostituem à beira da estrada (a série chega a Guimarães depois de uma primeira exposição no Museu da Electricidade, em Lisboa).

Sendo uma mostra multidisciplinar, há espaço também para fotografias do geógrafo Álvaro Domingues – “que já é um fotógrafo” para Nuno Faria –, uma selecção de imagens dos livros A Rua da Estrada (2009),Vida no Campo (2012) e Volta a Portugal (no prelo), a que se juntam outros registos mais recentes; ou para um trabalho de sonoplastia de Carlos Alberto Augusto, que percorre quase toda a exposição, feito a partir dos sons e silêncios da paisagem portuguesa que vem recolhendo nos últimos 40 anos.

Dentro da antologia colectiva da fotografia e da paisagem em Portugal que é Os Inquéritos..., o CIAJG encontrou ainda espaço para dedicar uma área fundamental da exposição a uma retrospectiva do trabalho fotográfico do escultor Alberto Carneiro. Será uma espécie de “surpresa” para os visitantes. “Não é bem aquilo que o público podia estar à espera numa exposição como esta”, reconhece Nuno Faria. No entanto, acredita, é uma opção coerente com outras retrospectivas que tem feito, como aquelas que dedicou a Carlos Relvas (Um homem tem duas sombras) e Ernesto de Sousa (Ernesto de Sousa e a Arte Popular) no ano passado. Nas salas dedicadas a este artista encontra-se o fundamental da sua criação entre 1973 e 1981, período em que se inscrevem as incursões em espaços naturais e rurais do Norte do país em que recorreu à fotografia e à representação do seu próprio corpo. Alberto Carneiro ensaiava assim uma aproximação à Land Art (no encontro físico com a paisagem, na organização em séries e no recurso à performatividade), mas também um cruzamento com outras formas de expressão típicas da sua obra, como a escultura ou o desenho. É, tal como toda a exposição que o CIAJG agora apresenta, uma tentativa de leitura da paisagem a 360 graus.