Crítica

Lura, corpo e voz de uma irresistível herança

No palco de Tivoli, perante uma sala cheia e calorosa, Lura fez de Herança um espelho vivo e sedutor da alma cabo-verdiana. Um concerto avassalador.

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Lura no Palco do Tivoli, na noite de 13 de Outubro Alexandre da Conceição

Digam o que disserem dos seus discos, é no palco que Lura se revela por inteiro. E bem podem dizer, os que a viram ao vivo, que já sabem. Não sabem, não. De cada vez que ela sobe ao palco é como se fosse a vez primeira. E é de cortar a respiração. Um furacão rítmico, musical, sensual, um movimento de enlevo nervoso e seguro, que conquista o público logo nos primeiros momentos. Herança, o novo disco, ajuda. E os músicos que a acompanham, também. Uma banda renovada: para além de Toy Vieira, nas teclas, que assegura o elo antigo, conta com Thierry Fanfan, um portentoso baixista de Guadalupe; com Ivan Medina, guitarras, um novo talento de Cabo Verde; e com Valentino Ramos, baterista com um certeiro controlo dos tempos e da múltipla expressão do instrumento.

Na noite de 13 de Outubro, no Tivoli lisboeta, perante uma sala cheia e calorosa, Lura fez o que sempre faz, com o maior à-vontade: deixar que a música a invada e que isso seja sentido naturalmente pelo público. Di undi ki bem, terceiro tema do novo disco, abriu a noite. À pergunta “de onde é que eu vim?”, que a canção ecoa, já respondeu ela há muito: nasceu em Lisboa mas tem sangue e alma cabo-verdianos. Herança, o novo disco, acentua essa evidência com a proximidade física (Lura vive, hoje, em Cabo Verde) e com tudo o que daí surgiu em forma de música. Mantenha cudado e X da questão, ambas do novo disco, abriram caminho à dança, com a já conhecida Batuku. Depois, a lembrança de Cesária na singular Moda bô (que Lura escreveu para Cesária Évora e gravou com ela, em dueto, em 2010). Sema Lopi, canção autobiográfica, escrita pelo próprio, brilhou como um diamante, superando a versão do disco. Embalado por ela, o público foi depois agitado com o feérico Dzê que dzê, tema dos mais populares de Lura, que lhe serviu para apresentar os músicos (solando estes a preceito). Ritmo efervescente, a antecipar Herança, tema-título do novo disco, que em palco ganhou um balanço avassalador. E já que aqui éramos chegados, seguiu-se um convite a olhar Cabo Verde do ângulo do seu povo, ou melhor, das mulheres que lhe dão vida. Lura livrou-se dos sapatos de salto alto onde se equilibrava desde o início do concerto, cantou Maria di lida com quanta alma tinha e, aliando à alma o corpo, pôs um pano vermelho à cintura e, de costas para o público, ondeou os quadris numa dança frenética e sensual. Para que o público não arrefecesse (e não havia como, aliás), seguiu-se um funaná, Somada. E a pedido de Lura todos os presentes se levantaram, dançando ou agitando apenas o corpo, levados pelo ritmo. Não havia melhor altura para os agradecimentos, vários, que contemplaram na plateia um músico que (diz Lura) vai sempre aos concertos dela: o “cota Bonga”, como Lura lhe chamou, clamando o histórico cantor angolano. Goré, recordando em palavras (e música) de Mário Lúcio o antigo mercado africano de escravos, ou seja, lembrando a história, no que foi um excelente final de concerto.

Final não, porque há sempre bis. E, neste, Lura retomou dois temas indissociáveis da sua carreira e imagem (Nha vida e Na ri na, que a plateia cantou entusiasticamente), antes de terminar mesmo com Sabi di más, um dos temas que Lura compôs sozinha e que, abrindo Herança, fechou o concerto com um ritmo contagioso e irresistível.

Lura, esse furacão físico e vocal, teve mais uma vez um palco nas mãos e uma sala rendida à sua arte. Entre os que levam a sério a palavra espectáculo, ela está na primeira linha. O concerto do Tivoli, de uma sedução avassaladora, sublinhou essa evidência.